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O teatro contemporâneo - parte III
JORGE DE ANDRADE (1922-1983). Em suas peças principais, A moratória (1955), A escada (1961), Os ossos do barão (1963), o paulista Jorge de Andrade apresenta a crise das tradicionais famílias paulistanas, ligadas à cafeicultura, ora sob perspectiva cômica, ora tragicômica. Sem alternativas econômicas, essa aristocracia falida vê-se obrigada a negociar seus títulos de nobreza com a burguesia ascendente, composta em sua maioria por imigrantes enriquecidos. São arranjos familiares, centrados em casamentos de mútuo interesse – uns querem sobreviver, outros respeitabilidade – que não ocultam a mesquinhez dos antigos senhores e o arrivismo dos novos ricos. PLÍNIO MARCOS (1935-1999) As obras deste autor paulista causaram grande impacto no público brasileiro quando de seu lançamento. O país começava a viver então um período de crescimento econômico com a ditadura militar e peças como Dois perdidos numa noite suja (1965), Navalha na carne (1966), O abajur lilás(1975) e Quando as máquinas param (1978) vieram mostrar uma realidade oculta às classes médias e altas: o submundo das prostitutas, dos gigolôs, dos desempregados e de outros tipos que viviam à margem do sistema. Ao contrário dos contos de João Antônio, em que a marginalia é tratada com algum lirismo, nos textos de Plínio Marcos há lugar apenas para a violência e o desespero. O realismo cênico torna-se ainda mais brutal pela linguagem assustadoramente crua dos protagonistas. ARIANO SUASSUNA (1927) Ligado à inúmeras formas de tradição cultural do Nordeste, a obra teatral do pernambucano Ariano Suassuna – Auto da compadecida (1957), O santo e a porca (1964) e Farsa da boa preguiça (1973) – realiza uma interessante síntese entre a dramaturgia erudita e a popular. Em sua obra mais encenada, Auto da compadecida, o autor utiliza a antiga forma ibérica dos autos (segundo o modelo de Gil Vicente) para realizar uma comédia (ou uma farsa) de substrato religioso. Dois tipos populares, João Grilo, espécie de malandro, e Chicó, um mentiroso ingênuo, participam de grande confusão por causa do enterro de um cachorro. Esta confusão envolve também um padeiro tolo e sua mulher adúltera, um bispo, um padre e um sacristão, todos corruptos e um cangaceiro (Severino) e seu lugar-tenente. Ocorre um morticínio, desencadeado por Severino e apenas Chicó escapa com vida. Todos os mortos, então, são submetidos ao julgamento divino, sendo recebidos pelo Encourado (o Demônio) e por Manuel (Jesus). A situação dos que morreram é bastante complicada por serem todos pecadores contumazes. João Grilo apela então para Nossa Senhora Compadecida que aparece diante de todos e intervém a favor dos humanos. Manuel decide enviar os cangaceiros para o céu, o bispo, o padre o sacristão, o padeiro e sua mulher para o purgatório e, sob interferência da Compadecida, permite a João Grilo voltar para a vida terrena e reencontrar seu amigo Chicó. DIAS GOMES (1922-1999). Dramaturgo baiano, tornou-se extremamente popular com a encenação e posterior filmagem de O pagador de promessas, no início dos anos de 1960. A peça conta o drama do sertanejo Zé-do-Burro, que, acompanhado da mulher, resolve pagar uma promessa a Santa Bárbara e percorre a pé sete léguas, levando as costas uma cruz a fim de colocá-la em uma igreja em Salvador. A obstinação mística de Zé-do-Burro esbarra, no entanto, na decisão do vigário da Igreja de não permitir aquela oferenda e o resultado trágico é a morte do protagonista. A Igreja, o Estado e a classe política, na obra de Dias Gomes, sempre se posicionam contra os anseios populares. Em O berço do herói, o autor realiza uma comédia política, pondo em xeque o mito do heroísmo. Uma cidadezinha do interior passa a viver da fama de um soldado da FEB (cabo Jorge), que morrera como herói na guerra contra os alemães. Contudo, cabo Jorge está vivo. Ferido em combate, tornara-se um desertor. Uma anistia recém promulgada permite que volte à sua terra, onde ele é o mais indesejado dos seres. Então, todos aqueles que construíram e exploram o mito do heroísmo de Jorge se unem para destruí-lo. Mas, certamente, a peça mãos conhecida de Dias Gomes é Odorico, o Bem Amado. Comédia engraçadíssima, mostra o prefeito (Odorico) de uma pequena cidade do interior (Sucupira) atormentado pela impossibilidade de cumprir a sua promessa de campanha: inaugurar um cemitério na cidadezinha, até então desprovida deste serviço (“Bom governante é aquele que governa com os olhos no futuro. E o futuro de todos nós é o campo santo.”), já que durante o seu mandato ninguém morre. Adaptada para a tevê, primeiro como telenovela (1973) e depois como seriado(1980) – com cinco anos de duração – sob o título de O Bem Amado, a obra de Dias Gomes alcançou incríveis índices de audiência em todo o país.
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