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Jorge de Lima - parte II


Observe-se alguns excertos deste poema:

Ora, se deu que chegou
(isso já faz muito tempo)
no bangüê dum meu avô
uma negra bonitinha
chamada negra Fulô.

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era fala da Sinhá)
- Vai forrar a minha cama,
pentear os meus cabelos,
vem ajudar a tirar
a minha roupa, Fulô! (...)

Fulô? Ó Fulô?
(Era a fala da Sinhá
chamando a Negra Fulô.)
Cadê meu frasco de cheiro
que teu sinhô me mandou?

- Ah! foi você que roubou!
Ah! foi você que roubou!

O Sinhô foi ver a negra
levar couro do feitor
A negra tirou a roupa.
O Sinhô disse: Fulô!
(A vista se escureceu
que nem a negra Fulô.)

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulo? Ó Fulo?
Cadê meu lenço de rendas
cadê meu cinto, meu broche,
cadê meu terço de ouro
que teu Sinhô me mandou?
Ah! foi você que roubou
Ah! foi você que roubou.

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

O Sinhô foi açoitar
sozinho a negra Fulô.
A negra tirou a saia
e tirou o cabeção,
de dentro dele pulou
nuinha a negra Fulô

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô? Ó Fulô?
Cadê, cadê teu Sinhô
que nosso Senhor me mandou?
Ah! foi você que roubou,
foi você negra Fulô?

Essa negra Fulô!

A FASE RELIGIOSA

A valorização do misticismo popular foi o primeiro passo para a adesão de Jorge de Lima ao catolicismo. É possível também que o desabamento da velha elite rural nordestina e a incapacidade da mesma em aceitar a nova ordem capitalista, que triunfava no país, o tenham levado a um intenso sentimento religioso. De certa forma, foi esta religiosidade que lhe deu sustentação ideológica e existencial e lhe permitiu escrever – em parceria com Murilo Mendes – o livro Tempo e eternidade, sob o lema da “restauração da poesia em Cristo”. Seus versos tornam-se longos, quase como versículos bíblicos, e dão ao leitor a impressão de certa incontinência verbal.

Esta impressão persiste na obra mais ambiciosa do autor, Invenção de Orfeu, enorme poema lírico com pretensões épicas, dividido em dez cantos e onze mil versos de incontável variedade métrica.Apesar da originalidade estilística, da riqueza vertiginosa das imagens, impregnadas de símbolos religiosos, e do sentido metafísico que percorre o poema, sobressai-se nele uma dimensão hermética, impenetrável, que, às vezes, parece resultar mais dos recursos de criação de linguagem de Jorge de Lima do que propriamente de uma verdadeira profundidade filosófica.



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