Literatura Brasileira
  Lit. Conquistadores
  Barroco
  Arcadismo
  Romantismo
  Real/Naturalismo
  Parnasianismo
  Simbolismo
  Pré-Modernismo
  Modernismo
  Poesia Moderna
  Romance de 30
  Lit. Contemporânea
  Aula Virtual
  Livro do Mês
  Tema do Mês
  Textos Comentados
  Resumão




  Tema do Mês


Euclides da Cunha - parte I

EUCLIDES DA CUNHA (1866-1909)

VIDA

Nasceu em Cantagalo, estado do Rio de Janeiro, filho de um guarda-livros que, pelo casamento, havia se tornado um pequeno fazendeiro. A mãe morreu quando o menino contava apenas três anos de idade. A partir daí, iniciou uma vida errante por casas de parentes, sem um paradeiro fixo, o que explicaria o seu caráter tristonho e arredio. A falta de recursos do pai para um curso universitário levou-o à Escola Militar, de onde foi expulso ainda como cadete, em l888, por afrontar o ministro da Guerra do Império. Euclides era então um ardente republicano. Fora do Exército, estudou engenharia civil, profissão a qual se dedicaria mais tarde. Proclamada a República, foi reintegrado festivamente às Forças Armadas. Permaneceu no Exército até os trinta anos, quando se reformou voluntariamente no posto de capitão.

Em 1897, graças a artigos publicados no jornal O Estado de São Paulo, recebeu o convite para ir ao front de Canudos, como correspondente de guerra. Assistiu aos últimos dias de resistência do arraial sertanejo e enviou suas reportagens para O Estado, ainda dentro de uma ótica republicana radical. Nos quatro anos seguintes ao fim da guerra, refletiu melhor sobre o que havia presenciado. O resultado foi um livro monumental, cheio de paixão, ciência e amargura: Os sertões, que veio à luz em 1902. Euclides tornou-se uma celebridade do dia para a noite. Foi idolatrado, mas também odiado.

Sua vida continuava nômade: como engenheiro da Superintendência de Obras de São Paulo vagou por inúmeras cidades do interior. Casou-se com Ana Ribeiro, filha de importante general republicano, com quem teve três filhos. A convite do barão de Rio Branco, trabalhou na Amazônia e, mais tarde, instalou-se na capital federal. O Rio o enervava. Euclides parecia se consumir em um processo psicológico depressivo. O nascimento de um filho loiro e de olhos azuis, ao contrário dos três filhos anteriores, deu-lhe a certeza da traição de sua mulher com o tenente Dilermando Reis. Ao tentar lavar sua honra, foi assassinado pelo militar. Sete anos depois, um de seus filhos legítimos procurou vingá-lo e também acabou assassinado pelo mesmo oficial. Ao morrer com quarenta e três anos, Euclides da Cunha já estava em plena glória pública e literária. E esta glória só aumentaria no transcorrer das décadas seguintes.

OBRAS PRINCIPAIS: Os sertões (1902); Contrastes e confrontos (1907); À margem da história (1909)

O REPÓRTER DA GUERRA

Antes de acompanhar como jornalista a quarta e última expedição das Forças Armadas contra os rebeldes de Canudos, Euclides da Cunha escreveu um veemente artigo: A nossa Vendéia. Nele, comparava os fanáticos de Antônio Conselheiro* aos camponeses reacionários que, sob o comando de aristocratas, procuraram destruir a República francesa, logo após a Revolução. Euclides traduzia a opinião pública das cidades brasileiras, que exigia a eliminação do arraial sertanejo, considerado um bastião monarquista.

A guerra civil já durava mais de um ano (1896-1897) e as derrotas militares das três primeiras expedições tinham criado um clima de histeria nas populações urbanas, identificadas majoritariamente com o pensamento republicano. Jornais favoráveis ao antigo regime tinham sido empastelados e a mística jacobina** se propagava pelo país. O fracasso da terceira expedição, dirigida pelo legendário coronel Moreira César, um dos líderes do jacobinismo militar, levara multidões às ruas, clamando por vingança. A lembrança das recentes Revolta Federalista e Revolta da Armada ainda estava viva na memória popular e a consolidação da República parecia exigir mais e mais sangue.

É dentro deste espírito que Euclides parte para o front. Suas reportagens*** – apesar de mais sóbrias e realistas que as de outros correspondentes – são escritas dentro da ótica oficial e terminam quase sempre com a saudação “Viva a República!”. Contudo, em muitas delas já se percebe o desconforto e a surpresa do escritor com tudo aquilo a que assiste. A pobreza e o inusitado do ambiente geográfico o deixam perplexo. Intriga-o especialmente o fato de que os jagunços aguardassem o cerco final de Canudos, sem tentar fugir, embora ainda houvesse “uma estrada aberta para a salvação”. Neste momento, ele já parece perceber que os sertanejos não constituíam uma “horda anti-republicana” e que um outro sentimento os movia, predispondo-os ao martírio.

*Antonio Conselheiro pregava no sertão desde a década de 1870. Nas aldeias, trabalhando solidariamente com os sertanejos, erguia ou reformava capelas e cemitérios. Em 1882, a Igreja católica o proibiu de pregar. Em 1883, dirigiu-se com algumas centenas de fiéis para Canudos, um lugar ermo no sertão baiano, onde fundou uma comunidade cristã, de tendência messiânica, despertando a desconfiança de padres e latifundiários da região. A partir de então, e mesmo durante o confronto, entre novembro de 1896 a outubro de 1897, milhares de famílias sertanejas migraram para a “cidade santa” em busca do consolo e da salvação prometidos pelo Conselheiro. Em seus sermões, o líder milenarista anunciava o fim do mundo e defendia a Monarquia por ver nela a única forma política abençoada por Deus. Em contraposição, atacava a República, apresentada como o Anticristo, inclusive por ter instituído o casamento civil.

** O jacobinos constituíram a ala à esquerda mais radical durante a Revolução Francesa. Na primeira década republicana, o jacobinismo (mesclado com o pensamento positivista) teve forte repercussão na oficialidade jovem e entre os republicanos sul-rio-grandenses, comandados por Júlio de Castilhos. Era, talvez, a força política mais progressista da época.

***Estas reportagens foram publicadas sob o título de Canudos – Diário de uma expedição. Há uma excelente edição da Companhia das Letras, comentada por Walnice Nogueira Galvão.

Euclides da Cunha não presencia a rendição da urbs monstruosa, o assassinato dos últimos defensores, a exumação do cadáver do Conselheiro e o incêndio da cidade com tochas de querosene por ordens do comando da expedição. Acessos de febre haviam-no feito voltar para a capital baiana, dois dias antes do fim da guerra civil. No entanto, as imagens brutais do arraial destruído e da desesperada resistência dos jagunços ficaram gravadas em sua consciência. No caderno de uma senhora baiana, rabisca um poema cuja primeira estrofe é reveladora:

Quem volta da região assustadora
De onde eu venho, revendo inda na mente,
Muitas cenas do drama comovente
De guerra despiedada e aterradora.

OS SERTÕES

De volta ao Sul, Euclides da Cunha tenta entender o que ocorrera em Canudos. Seu ardente republicanismo começa a se esboroar. Ele não acredita mais ter participado de uma “guerra santa” para a salvação da República. Ao contrário, descobre que observara uma grande tragédia nacional e que era preciso explicá-la racionalmente, e não sob o ângulo da ideologia. Para isso, pede ajuda à ciência da época. Estuda geografia, botânica, antropologia, sociologia, etc. Porém, as fontes disponíveis eram exclusivamente européias, muitas delas carregadas de perspectivas colonialistas. Tinham sido desenvolvidas na Europa imperialista das últimas décadas do século XIX e induziriam o escritor a alguns erros interpretativos, sobretudo nas duas primeiras partes de sua obra.
Esta visão, fundamentalmente determinista, poderia ser esquematizada assim:

DETERMINISMO:
Geográfico:
- O homem é produto do meio natural.
- O clima tem papel preponderante na formação do meio.
- A impossibilidade de verdadeira civilização em zonas tórridas, como o sertão.

Racial:
- Os cruzamentos raciais enfraquecem a espécie.
- O sertanejo é o caso típico de hibridismo racial.
- A miscigenação induz os homens à bestialidade e a toda espécie de impulsos criminosos.

Ao fundamentar parte de sua obra nestes postulados, o autor envolveu-se numa contradição: as observações eram justas e brilhantes; as teorias, medíocres. Nelson Werneck Sodré explicitou bem as dubiedades do texto:

Existe em Euclides da Cunha um dualismo singular: enquanto observa, testemunha, assiste, conhece por si mesmo, tem uma veracidade, uma importância, uma profundidade e uma grandeza insuperáveis; enquanto transmite a ciência alheia, ainda sobre o que ele mesmo viu, conheceu, descai para o teorismo vazio, para a digressão subjetiva, para a ênfase científica, para a tese desprovida de demonstração.

Ressalte-se, entretanto, que Os sertões representava para o seu autor mais do que uma análise naturalista do conflito do que um acerto de contas com a memória. Para ele, o texto era também arte da linguagem, ou seja, arte literária. Em carta a um amigo, expressou com clareza seu ideal artístico: a ciência deveria ser empregada a serviço da literatura. Isto, como veremos adiante, vai representar a singularidade especial da obra, situada entre o ensaio, a narração e a poesia. Mas é obedecendo a um típico esquema determinista que Euclides divide Os sertões em três partes:

A terra - O homem - A luta

A TERRA

Na primeira parte, predomina a visão cientificista e naturalista do engenheiro Euclides da Cunha. Muitos leitores consideram A terra praticamente ilegível. Informação científica e estilo barroco não combinam, pelo menos em teoria. Aliás, a leitura da obra pode começar com a segunda e a terceira partes. São de tal modo fascinantes que obrigam-nos a voltar à parte inaugural de A terra. Só então percebemos a grandeza deste capítulo. A descrição do meio físico opressor é feita detalhadamente: a vegetação pobre, o chão calcinado, a imobilidade e repetição da paisagem árida. A linguagem, poderosamente retórica, transforma a natureza em elemento dramático. Roberto Ventura nota com precisão que “a vegetação, com galhos retorcidos, cria formas que lembram coroas de espinhos e cabeças degoladas”. Lembra também que Euclides “descreve a caatinga com um ritmo binário, que alterna passagens rápidas e lentas, para recriar as oscilações do clima, entre a seca e a chuva”. Veja-se este fragmento:

Ajusta-se sobre os sertões o cautério* das secas; esterilizam-se os ares urentes**, empedra-se o chão, gretado, recrestado***; ruge o Nordeste nos ermos; e, como um cilício dilacerador, a caatingas estende sobre a terra as ramagens de espinhos... Mas, reduzidas todas as funções, a planta, estivando em vida latente, alimenta-se das reservas que armazena nas quadras remansadas e rompe os estios, pronta a transfigurar-se entre os deslumbramentos da primavera.

*Cautério: queima, corrosão..
**Urentes: ardentes
***Recrestado: requeimado

     próxima página
 Compras
 Mais Educação


» Língua Portuguesa

» Relações
    Internacionais


» História do Brasil

» História por
    Voltaire Schilling


» Almanaque

» Virtual Books

» Atlas Universal



 
 » Conheça o Terra em outros países Resolução mínima de 800x600 © Copyright 2003,Terra Networks, S.A Proibida sua reprodução total ou parcial
  Anuncie  | Assine | Central de Assinante | Clube Terra | Fale com o Terra | Aviso Legal | Política de Privacidade