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Euclides da Cunha - parte III


A) A INTERPRETAÇÃO DA GUERRA

Durante a escrita de Os sertões, Euclides compreende que a Guerra de Canudos não fora um conflito entre a Reação e o Progresso, a Monarquia e a República, como as elites intelectuais, políticas e militares e a opinião pública brasileira acreditavam. O que ele presenciara tinha sido apenas um labirinto de equívocos, demências e crueldade.

Portanto, em A luta, o escritor vai expor a sua perspectiva do confronto como uma tragédia de erros. Erros originários de uma profunda cegueira de ambos os lados. Para os adeptos do Conselheiro, os soldados eram agentes do Cão (o demônio) e deviam ser destruídos. Para o Exército, os sertanejos eram jagunços primitivos a serviço da causa monárquica e tinham de ser exterminados. Os soldados, inclusive, traziam no peito o retrato do marechal Floriano Peixoto, cuja memória saudavam com a mesma paixão e fanatismo com que os sertanejos gritavam pelo nome do “santo” Conselheiro. Tanto a visão dos “patrícios retardatários” quanto a das forças legais baseava-se na irracionalidade das verdades simplistas e retilíneas.

Recompor a razão, eis o caminho que o escritor encontra para entender a guerra. Os sertanejos eram retrógrados, mas não degenerados. Seu monarquismo não passava de uma ilusão da soldadesca, alimentada por jornalistas e políticos, e pelo próprio ardor republicano de então. Na verdade, os guerrilheiros de Canudos eram uns pobres-diabos, filhos da ignorância e das crendices de uma civilização parada no tempo há três séculos. Precisavam de professores e não de tiros de canhão.

Já as tropas do governo, que representavam a civilização contemporânea e a face moderna do país, a quem cabia o mínimo de racionalidade, foram incapazes de perceber a verdadeira natureza dos inimigos. Trataram então de destruí-lo a ferro e fogo. Com requintes de horror e barbárie. Daí a denúncia que percorre todo Os sertões, já anunciada pela nota preliminar do autor:

Aquela campanha lembra um refluxo para o passado.
E foi na significação integral da palavra, um crime.
Denunciemo-lo.

A mesma denúncia que Euclides reforça no epílogo da obra:

É que ainda não existe um Maudsley para as loucuras e os crimes das nacionalidades...

B) A INTERPRETAÇÃO DO BRASIL

Ao descrer do fervor patriótico que envolve a nação depois da vitória final do Exército, o escritor não apenas examina os acontecimentos sob o ângulo de uma tragédia, como também descobre que o confronto refletia a divisão estrutural do país. Perplexo, dá-se conta que o Brasil não era uma unidade. Que havia dois Brasis completamente estranhos entre si, o do litoral e o do sertão. E que o último jazia num tipo de esquecimento na consciência culta nacional. Por isso, os soldados, quando no front, sentiam-se em terra estranha:

Outros hábitos. Outros quadros. Outra gente. Outra língua mesma, articulada em gíria original e pitoresca. Invadi-os o sentimento exato de seguirem para uma guerra externa. Sentiam-se fora do Brasil. A separação social completa dilatava a distância geográfica; criava a sensação nostálgica de longo afastamento da pátria.

Para a civilização litorânea, os jagunços eram facínoras. Para Euclides eram irmãos que deviam ser integrados à nacionalidade. A solução do aniquilamento de Canudos fora um equívoco brutal. As duas sociedades brasileiras, separadas pela raça, pelo meio e pela história deveriam se aproximar e se integrar pacífica e lentamente.

Sob este prisma, a perspectiva de aproximação entre os dois brasis, defendida pelo escritor na sua obra-prima, se tornaria, depois de 1930, o projeto político nuclear da nação. A ponto de, no final do século XX, o sertão (no sentido de mundo arcaico) ter virtualmente desaparecido, exceto em partes da inacessível região amazônica.

O GÊNERO LITERÁRIO E O ESTILO

Os sertões é uma mescla de romance e ensaio científico, relato histórico e reportagem jornalística, o que torna impossível enquadrá-lo nos limites de um gênero literário. Trata-se de um obra de exceção.

Esta “epopéia às avessas” distingue-se do mero documento com veleidades científicas pela presença e uso intencional da linguagem artística. O estilo é trabalhado, pomposo, enfático, cheio de antítese e comparações. Guilhermino Cesar notou que o estilo sofre variações: é mais retórico nas passagens "científicas" e mais simples nas outras partes

Importância de Euclides da Cunha

Apesar de equívocos ideológicos, Euclides da Cunha representa um corte na cultura urbana, tradicionalmente repetidora dos modelos europeus. Sua obra - e, em especial, Os sertões - tem a importância histórica da obra de Machado de Assis. Enquanto este denunciava a falta de autenticidade dos grupos dominantes do litoral, Euclides descia por um interior desconhecido, transformando o espanto da descoberta das mazelas do sertão num “grito de aviso à consciência nacional”. O seu livro monumental acabaria influenciado, de forma decisiva, os autores nordestinos de 1930, como Jorge Amado e Graciliano Ramos, e ainda, uma geração depois, João Guimarães Rosa.

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