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Jazz e literatura - parte I
Se há uma música que acompanha as grandes evoluções e transformações culturais do século XX nos Estados Unidos e em boa parte do mundo ocidental, essa música é o jazz. Origens Nascido na virado dos anos 1900, filho de paternidade questionada e requisitada por uma cidade e outra até nossos dias, o jazz é, em sua essência, a confluência musical das diversas etnias que formaram a sociedade americana. Assim, ele não é negro nem branco, não nasceu na África nem na Europa, mas sim no leito do rio Mississipi, fruto inédito da miscigenação da música do crioulo (designação dada aos habitantes locais do sul dos EUA de origem francesa), da música negra derivada dos cantos religiosos e das fieldsongs (canções da lavoura), e da música dos brancos americanos, que seguia os padrões europeus trazidos com a colonização. O caldeirão cultural para essa mistura de elementos foi a cidade de New Orleans, porto conhecido pela sua liberdade de costumes e ativa vida noturna. New Orleans foi o berço das primeiras e mais famosas bandas dessa época primordial, além de ser a terra natal da figura que é considerada por muitos o grande ícone do jazz em todos os tempos: Louis Armstrong. Como o que importa para nós aqui, mais do que a história do jazz, é mostrar a sua interseção com a produção literária na América e no mundo, passemos a fase em que isso primeiramente ocorreu: os anos 1920.
É extremamente difícil nos dias de hoje imaginar o impacto que essa nova música vibrante, sensual, dotada de “swing” provocou sobre as platéias da época. Antes do jazz, a música para dançar era de origem européia, bastante formal e com regras claras para o contato entre os pares. A chegada do novo estilo, que trazia o caráter lascivo das danças coladas de cabaré, causou grande furor na imprensa conservadora e escandalizou os membros da sociedade americana que já contavam mais de 30 anos. Por outro lado, foi justamente esse um dos motivos que fez o jazz, desde que executado por músicos brancos, agradar em cheio à juventude enriquecida e emancipada que surgira no período posterior à Primeira Guerra Mundial. Essa geração que saía da infância no final da segunda década do século XX, ficou conhecida como a flaming youth (juventude flamejante) e estabeleceu um novo papel para o jovem dentro da sociedade de massas que se formava. O crescimento dos negócios alimentícios e cosméticos, o avanço da indústria automobilística e, principalmente, a explosão da indústria cultural (cinema, rádio e revistas) e da publicidade criaram um clima de euforia social e econômica nunca vistos até então. Investidores faziam fortunas diariamente na bolsa de valores, a idéia de que a vida devia ser aproveitada ao máximo em festas e diversão ganhava progressivo espaço, revolucionando o tradicional espírito de parcimônia protestante da cultura americana. No centro do furacão desta revolução cultural estava a figura plenipotenciária do jovem, parcela não considerada dentro da estrutura clássica da sociedade patriarcal burguesa, e que agora era a nova voz a ser ouvida e atendida pelos empresários e pelos novos meios de comunicação de massa. Na literatura, esse período histórico encontra seu principal intérprete e escritor em F. Scott Fitzgerald. Em sua obra-prima, O grande Gatsby, Fitzgerald sintetiza como ninguém o esplendor e o vazio dessa época de festas feéricas e lautas bebedeiras, de fortunas erguidas do nada, o delírio coletivo de que o dinheiro não teria fim, delírio que seria brutalmente encerrado pelo crack da bolsa em 1929. Ainda no auge da jazz age (outra denominação para os anos 1920), Fitzgerald publica Seis contos da era do jazz, conjunto de histórias que se não têm o jazz como tema central, o tem como cenário, como pano de fundo (o que realmente era nas festas ricas) para os dramas individuais. Observem este trecho de As costas do camelo, conto incrivelmente hilário em que um jovem se disfarça de camelo para participar de uma festa à fantasia. Percebam como a influência do jazz se fazia escutar em todos os tipos de música de baile:
Os acordes voluptuosos da marcha nupcial, tocada de maneira blasfemamente sincopada, saíram, numa mistura delirante, dos trombones e saxofones e a marcha começou. Não está contente, camelo? indagou, docemente, Betty, quando começaram a andar. Não está contente por casar comigo e passar a pertencer para sempre à bela encantadora de serpentes? O camelo escoiceou as pernas da frente, manifestando excessiva alegria. (Seis contos da era do jazz)O fato é que jazz só passaria a influenciar a literatura pelo seu caráter artístico trinta anos mais tarde, quando os escritores da Geração Beat, principalmente Jack Kerouac, iriam buscar no Bebop, os elementos para o seu projeto literário.
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