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Jazz e literatura - parte II
Com o crack da bolsa em 1929, a América se tornou um país de desempregados e falidos. Ao longo dos anos da Depressão, o único ramo que teve um forte crescimento foi o do entretenimento. Este fenômeno é facilmente compreendido se imaginarmos que as pessoas precisavam encontrar uma fuga, uma válvula de escape para as terríveis agruras do cotidiano. Assim, a década de 1930 tornou-se a era dos novos meios de comunicação de massa: o cinema e o rádio. Foi nessa época que surgiu um estilo de jazz que se tornaria a febre americana ao longo desse período e, principalmente, no momento do esforço americano para a Segunda Guerra: o Swing. Foi a era das Big bands. Glen Miller, Tommy Dorsey, Chuk Webb e Benny Goodman disputavam a preferência dos fãs em bailes e apresentações via rádio de costa a costa. Foi também a época em que jazz se tornou sinônimo de música popular, e os grandes crooners começaram a fazer sucesso. As Big Bands passaram a ser um negócio lucrativo e isto, de certa maneira, possibilitou que músicos habilidosos tivessem um meio de viver exclusivamente do seu trabalho. Esta garantia de emprego e de bons cachês foi decisiva para a próxima revolução que estava para ocorrer no estilo: o Bebop.
Com uma comunidade cada vez maior de músicos jovens atraídos pelas oportunidades das Big Bands, não demorou muito para que, nos after hours, nas jam sessions, surgisse música inovadora e muito mais “intelectualizada”, distando bastante dos padrões comerciais. Para esse novo grupo de artistas, que encontraram abrigo no bar Minton´s de Nova Iorque, o estilo do swing era muito rígido, tanto rítmica e harmônica quanto melodicamente. Estava pronto o cenário onde Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Thelonious Monk e outros criariam o Bepop. O saxofonista Charlie Parker viria a ser, pelo seu virtuosismo e inspiração, o grande nome do estilo. Músico de personalidade conturbada, Parker aumentou ainda mais o mito ao redor de si quando morreu ainda jovem, vítima do sucessivo abuso de bebida e drogas. Inovador para a época em que foi criado – o final da Segunda Guerra –, o Bebop causou grande polêmica entre o público, principalmente entre as grandes platéias, acostumadas ao ritmo contagiante e aos belos arranjos dos grupos de swing. Essa nova música era agitada, difícil de ser ouvida pelas transgressões harmônicas e mais: não era feita para dançar. Ocorria então uma mudança fundamental no status artístico do jazz: é música para ser ouvida e refletida, aproximando-o assim do respeito intelectual tradicionalmente devotado à música clássica de origem européia. Para controlar os excessos do Bebop, na década de 1950 apareceria o cool jazz, movimento liderado pelo trompetista Miles Davis. O cool influenciou definitivamente uma série de músicos no mundo inteiro, incluindo Tom Jobim, que utilizaria uma série de elementos desse novo estilo para criar a Bossa Nova. Em 1957, Jack Kerouak, o papa da literatura Beat, iria sintetizar o espírito e o impacto do Bebop e dos movimentos seguintes na juventude e na intelectualidade americana do período.
Nessa época, 1947, o bop enlouquecia a América. Os rapazes do Loop seguiam soprando, mas com um ar melancólico, porque o bop atravessava um momento indeciso entre o período ornitológico de Charlie Parker e a nova era que começou com Miles Davis. E enquanto eu estava ali ouvindo esse noturno que o bop tinha vindo representar para todos nós, pensei nos meus amigos espalhados de um canto a outro da nação e em como todos eles viviam frenéticos e velozes, dentro dos limites de um único e imenso quintal. (On the road)A figura mitológica de Charlie Parker ainda influenciaria, dois anos depois da publicação de On the road, um dos principais expoentes do conto latino-americano e mundial, a partir do final da década de 1950: Julio Cortázar. Em O perseguidor, Cortázar cria uma personagem perturbada, o saxofonista Johnny, espécie de transposição da vida desregrada de Parker para o papel. O resultado é soberbo:
E justamente naquele momento, quando Johnny estava perdido em sua alegria, de repente deixou de tocar e soltando um murro no nada disse: “Estou tocando isso amanhã”, e os rapazes ficaram perplexos, só uns dois ou três seguiam os compassos, como um trem que demora a parar, e Johnny batia na testa e repetia: “Eu já toquei isso amanhã, é horrível Miles, eu já toquei isso amanhã”, e não conseguiam tirá-lo dessa, e a partir daquele momento deu tudo errado, Johnny tocava sem vontade e querendo ir embora (para se drogar outra vez, disse o técnico de som morrendo de rir), e quando o vi sair, cambaleando com a cara cinzenta, perguntei a mim mesmo se aquilo ainda ia durar muito. (As armas secretas
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