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Jazz e literatura - parte III
A influência do jazz sobre os europeus, desde o momento em que os primeiros artistas começaram a desembarcar no velho mundo, foi avassaladora. É preciso dizer que o jazz ganha status de arte na Europa antes do que nos Estados Unidos. Nomes como Sidney Bechet e Dexter Gordon, ambos saxofonistas, além de Chet Baker e outros tantos, adotariam a Europa como local de moradia e trabalho. Entre os intelectuais, o jazz encontrou ótima acolhida, sendo um dos marcos da integração cultural a trilha sonora produzida por Miles Davis para o Ascensor ao cadafalso, filme de culto do francês Louis Malle. Embora haja uma série de referências literárias ao jazz, inclusive nos países do leste europeu (é o caso do escritor tcheco Josef Skvorecky e o seu belíssimo texto autobiográfico chamado Red Music, em que revela a grande influência do jazz sobre sua vida num protetorado nazista na Segunda Guerra), talvez a obra mais importante produzida na Europa, conquanto seja um livro de análise histórica e social, seja A história social do jazz do historiador inglês Eric Hobsbawm. Além de ser um texto agradabilíssimo, é fundamental para quem quer compreender os aspecto sócio-econômicos que possibilitaram o desenvolvimento dos músicos negros e a integração étnica e cultural nas regiões onde o estilo se originou. Recentemente, o jazz aparece como relato memorialista na grande obra dos anos 1990, O teatro de Sabbath de Philip Roth. O trecho a seguir é um momento em que Mickey Sabbath, personagem central do livro, ao escutar no rádio do carro ao clássico Body and Soul, relembra do irmão mais velho, Morty, morto precocemente na Segunda Guerra. Neste trecho a referência musical é o clarinetista Benny Goodman em seu lendário trio, que em certo aspecto, ao lado de Duke Ellington, começaram no final dos anos 30 a dar os primeiros contornos de grande arte ao jazz.
O trio: Benny, Krupa, o piano de Teddy Wilson. “Body and Soul”. Muito sonhadora, muito dançante, simplesmente adorável, diretamente para o final de três batidas do Krupa. Apesar disso, Morty pensava que as pirotecnias de Krupa sempre arruinavam com a coisa toda. “Apenas deixe suingar”, Morty diria. “Krupa é a pior coisa que aconteceu ao Goodman. Obstrui demais”, e na escola Mickey repetiria esta opinião como se fosse sua. Morty diria: “Benny nunca se envergonha de pegar só metade da peça,” e Mickey iria repeti-lo. “Um clarinetista maravilhoso, nenhum outro chega perto”, e isto, também, ele repetiria... (O teatro de Sabbath)
No Brasil, o jazz sempre teve muitos apreciadores, de músicos (principalmente na geração que desenvolveu a Bossa Nova) a intelectuais e escritores. Nomes como L. F. Veríssimo (inclusive saxofonista) e Jô Soares são fãs declarados do estilo, mas não transpuseram para suas produções literárias o gosto por essa música. Apesar de algumas referências esparsas, não esquecendo o utilíssimo guiaPanorama do jazz do Jorge Guinle, a verdade é que não há no país uma grande obra de literatura que utilize o jazz seja como cenário, temática, ou relato memorialista.
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