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Mário de Andrade - Paulicéia desvairada - parte II
Por vezes, São Paulo é a cidade impassível e quase cruel que assiste sem derramar uma gota de lágrima à derrota dos bandeirantes: “Aos aplausos do esfuziante clown, / heróico sucessor da raça dos bandeirantes, / passa galhardo um filho de imigrante, / loiramente domando um automóvel!”. Daí a metáfora contínua do arlequim e do uso imoderado do neologismo arlequinal. O arlequim é o que restou da antiga elite que um dia teve grandeza e audácia. É o clown (o palhaço) que mistura ironia e tristeza na tentativa de entendimento de um mundo cambiante. “As primaveras de sarcasmo / intermitentes no meu coração arlequinal...”, diz o poeta expressando o seu estado de ânimo frente às mudanças. Até mesmo o traje do arlequim com seus losangos, seu contraste de cores, parece representar a dualidade de uma metrópole feita de “cinza e ouro”, de “luz e bruma”, de tradição e ruptura, do velho e do novo. Apesar desta sensação conflituosa, o poeta não se esquiva (a não ser nos raros momentos em que sonha com “primaveras eternas”) de buscar a alma de São Paulo através da bruma, da garoa, do cinzento e do enevoado, esforçando-se em registrar o frêmito das ruas e a criação da riqueza, como neste excerto de Paisagem n.4: Os caminhões rodando, as carroças rodando, rápidas as ruas se desenrolando, rumor surdo e rouco, estrépitos, estalidos... E o largo coro de ouro das sacas de café!... (...) Oh! este orgulho máximo de ser paulistanamente!!! As contradições de Mário de Andrade acabam por constituir uma notável multiplicação de olhares e de perspectivas a respeito de São Paulo. A fascinação e o horror do moderno confundem-se, produzindo esta variedade de enfoques sobre a cidade. Nenhuma destas visões é a definitiva, não há uma conclusão, não temos a última palavra do poeta, aquela que consagraria ou impugnaria a modernidade paulistana. Tudo é ambivalente e movediço. E é exatamente por causa desta indefinição entre o amor e a repulsa, entre a ironia e a percepção do novo que alguns poemas de Paulicéia desvairada traduzem – paradoxalmente – a essência calidoscópica, complexa e cheia de metamorfoses da mais importante metrópole do país, “galicismo a berrar nos desertos da América”! Um dos exemplos de melhor realização da obra é Paisagem n.2 Escuridão dum meio-dia de invernia... Marasmos... Estremeções... Brancos... O céu é toda uma batalha convencional de confetti brancos; e as onças pardas das montanhas no longe... Oh! para além vivem as primaveras eternas! As casas adormecidas parecem teatrais gestos dum explorador do polo que o gelo parou no frio. Lá para as bandas do Ipiranga as oficinas tossem... Todos os estiolados são muito brancos. Os invernos de Paulicea são como enterros de virgem... Italianinha, torna al tuo paese! (...) Deus recortou a alma de Paulicéia num cor de cinza sem odor... Oh! Para além vivem as primaveras eternas!... Mas os homens passam sonambulando... E rodando num bando nefário, vestidas de eletricidade e gasolina, as doenças jocotam em redor... (...) São Paulo é um palco de bailados russos. Sarabandam a tísica, a ambição, as invejas, os crimes e também as apoteoses de ilusão... (1) De 1900 a 1922 a população de São Paulo quase triplicou passando de duzentos e cinqüenta mil a mais de seiscentos mil habitantes.
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