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Vestibular Fuvest - Os Lusíadas - parte II



122 – ( - Por este amor, o Príncipe rejeitaria outros casamentos, por ter sido conquistado por um rosto belo. E o pai cuidadoso, atento aos comentários do povo e às fantasias do filho, que não queria se casar, ...)

“De outras belas senhoras e Princesas
Os desejados tálamos enjeita,
Que tudo enfim, tu, puro amor, despreza,
Quando um gesto suave te sujeita.
Vendo estas namoradas estranhezas
O velho pai sesudo, que respeita
O murmurar do povo, e a fantasia
Do filho, que casar-se não queria,
122-2: tálamos – núpcias, casamentos. 122-2: enjeita – rejeita. 122-4: gesto – rosto. 122-4: sujeita – domina, conquista. 122-5: estranhezas – loucuras amorosas. 122-6: pai – D. Afonso IV, pai de D. Pedro. 122-6: sesudo – prudente, cuidadoso.
123 – (... manda matar Inês de Castro, para matar a chama do amor que mantém seu filho preso. Que loucura fez com que a espada que venceu os árabes fosse erguida contra uma dama tão delicada?)
“Tirar Inês ao mundo determina,
Por lhe tirar o filho que tem preso,
Crendo co’o sangue só da morte indina
Matar do firme amor o fogo aceso.
Que furor consentiu que a espada fina,
Que pôde sustentar o grande peso
Do furor Mauro, fosse alevantada
Contra uma fraca dama delicada?
123-1: Tirar Inês ao mundo – o Rei manda matar Inês. 123-2: tem preso – D. Pedro está “preso” por Inês, está apaixonado por ela. 123-3: co’o – com o. 123-3: indina – indigna. 123-5: furor – loucura. 123-7: furor Mauro “ – da loucura dos árabes. 123-7: alevantada – erguida.
124 – ( - Os membros do Conselho de D. Afonso IV trazem Inês diante do Rei, que tem pena dela, e o convencem a mandar matá-la. Ela, triste, com saudade do amado e preocupada com seus filhos, ...)
“Traziam-na os horríficos algozes
Ante o Rei, já movido à piedade:
Mas o povo, com falsas e ferozes
Razões, à morte crua o persuade.
Ela com tristes o piedosas vozes,
Saídas só da mágoa, e saudade
Do seu Príncipe, e filhos que deixava,
Que mais que a própria morte a magoava,
124-1: horríficos – terríveis. 124-1: algozes – verdugos; referência a Álvaro Gonçalves, Pero Coelho e Diogo Lopes Pacheco, membros do conselho de D. Afonso IV, que insistiram na necessidade de matar Inês. 124-2: já movido à piedade – já comovido, com pena de Inês. 124-4: persuade – convence. 124-7: Príncipe – D. Pedro. 124-8: este verso indica que Inês teme sua morte por causa de seus filhos, e não por sua própria causa.
125 – ( - ... erguendo os olhos ao céu, já que suas mãos estavam presas por um dos ministros, sempre atenta a seus filhos, dizia ao avô destes:... )
“Para o Céu cristalino alevantando
Com lágrimas os olhos piedosos
(Os olhos, porque as mãos lhe estava atando
Um dos duros ministros rigorosos);
E depois nos meninos atentando,
Que tão queridos tinha, e tão mimosos,
Cuja orfandade como mãe temia,
Para o avô cruel assim dizia:
125-3: atando – prendendo. 125-4: ministros – os membros do conselho do Rei. 125-5: meninos – os filhos de Inês e D. Pedro. 125-5: atentando – prestando atenção (aos meninos). 125-8: avô – D. Afonso IV, pai de D. Pedro; portanto, avô dos filhos de Inês de Castro.
126 – ( - Se já se viu as feras, cuja natureza é cruel, e as aves, que só pensam na rapina, cuidarem de Semíramis e de Rômulo e Remo...)
— “Se já nas brutas feras, cuja mente
Natura fez cruel de nascimento,
E nas aves agrestes, que somente
Nas rapinas aéreas têm o intento,
Com pequenas crianças viu a gente
Terem tão piedoso sentimento,
Como coa mãe de Nino já mostraram,
E co’os irmãos que Roma edificaram;
126-1: mente – instinto. 126-2: Natura – natureza. 126-3: agrestes – selvagens. 126-4: rapinas – roubo, ataque. 126-7: coa – com a. 126-7: mãe de Nino – Semíramis, rainha Assíria, cuja mãe deixou num monte, onde foi alimenta pelos pombos. 126-8: co’os – com os. 126-8: irmãos que Roma edificaram – Rômulo e Remo, fundadores de Roma, que foram alimentados por uma loba.
127 – ( -... ó tu, que és humano, se é que matar uma jovem apaixonada é um ato humano, tem pena destas crianças, já que não te comove a minha inocência.)
—”Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito
(Se de humano é matar uma donzela
Fraca e sem força, só por ter sujeito
O coração a quem soube vencê-la)
A estas criancinhas tem respeito,
Pois o não tens à morte escura dela;
Mova-te a piedade sua e minha,
Pois te não move a culpa que não tinha.
127-1: tu – D. Afonso IV. 127-1: gesto – rosto. 127-2: Se de humano – se é humano, se é típico dos homens. 127-3/4: nestes versos Inês afirma que seu único crime foi submeter seu coração a quem a conquistou. 127-3: sujeito – sujeitado, submetido. 127-4: vencê-la – conquistá-la (amorosamente). 127-5: estas criancinhas – os filhos de Inês, netos de D. Afonso IV. 127-6: escura – terrível, tenebrosa. 127/8: estes dois versos são provavelmente inspirados em Dante: A Divina Comédia, Inferno, V, 93 e Purgatória, VI, 116. 127-7: Mova-te – te comova. 127-7: piedade sua e minha – Inês espera que o Rei tenha pena das crianças e dela.
128 – ( - E se, como na vitória sobre os mouros, sabes matar, procura também saber dar a vida a quem não cometeu erro. Mas se, apesar de inocente, devo ser punida, manda-me para o desterro na Cítia ou na Líbia.)
— “E se, vencendo a Maura resistência,
A morte sabes dar com fogo e ferro,
Sabe também dar vida com clemência
A quem para perdê-la não fez erro.
Mas se to assim merece esta inocência,
Põe-me em perpétuo e mísero desterro,
Na Cítia fria, ou lá na Líbia ardente,
Onde em lágrimas viva eternamente.
128-1: Maura – moura, árabe. 128-3: Sabe – procura saber. 128-3: clemência – piedade. 128-4: erro – crime, pecado. 128-5: to – te + o. 128-6: desterro – Inês propõe que o Rei mude sua pena, que não a mate, mas a mande para longe do Reino. 128-7: Cítia – região extremamente fria, que se estendia da foz do Rio Danúbio até o mar de Azofe. 128-7: Líbia – país africano cujo clima característico é o calor. 128-7: ardente – quente. 128-8: em lágrimas – triste.
129 – ( - Coloca-me entre feras, para ver se ali terei a piedade que dos homens não tenho; ali viverei pensando em meu amado e criando meus filhos, que serão o meu consolo.)
— “Põe-me onde se use toda a feridade,
Entre leões e tigres, e verei
Se neles achar posso a piedade
Que entre peitos humanos não achei:
Ali com o amor intrínseco e vontade
Naquele por quem morro, criarei
Estas relíquias suas que aqui viste,
Que refrigério sejam da mãe triste.” —

129-1: onde se use – onde só existe. 129-1:”feridade – crueldade. 129-5: intrínseco – profundo, íntimo. 129-5: vontade – o pensamento, a mente. 129-6: Naquele por quem morro – em D. Pedro (Inês diz que vai manter o pensamento em seu amado). 129-7: relíquias suas – as crianças, os filhos de Inês e D. Pedro. 129-8: refrigério – consolo.



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