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Vestibular Fuvest - Os Lusíadas - parte III


130 – ( - O Rei bondoso pensou em perdoá-la, mas seus conselheiros não permitiram, desembainhando as espadas. Contra uma dama vocês se mostram tão cruéis e querem ser chamados de fidalgos?)

”Queria perdoar-lhe o Rei benino,
Movido das palavras que o magoam;
Mas o pertinaz povo, e seu destino
(Que desta sorte o quis) lhe não perdoam.
Arrancam das espadas de aço fino
Os que por bom tal feito ali apregoam.
Contra uma dama, ó peitos carniceiros,
Feros vos amostrais, e cavaleiros?
130-1: benino – benigno, bondoso. 130-2: Movido das palavras – comovido pelas palavras. 130-2: magoam – entristecem. 130-3: pertinaz – obcecado, decidido. 130-3: povo – na verdade, trata-se da Corte, dos membros do conselho de D. Afonso IV. 130-3: seu destino – o destino de Inês, a sua sorte. 130-4: desta sorte – desta maneira. 130-5: Arrancam – desembainham, erguem. 130-6: tal feito... apregoam – a morte de Inês defendem. 130-7: peitos carniceiros – corações sem piedade. 130-8: Feros – cruéis. 130-8: cavaleiros – fidalgos; o final do verso questiona os membros da Corte, que se mostram cruéis com Inês e ainda querem ser vistos como nobres.
131 – ( - Assim como Policena, que foi morta por Pirro, como vingança pela morte de Aquiles, sempre manteve-se serena e com os olhos postos em sua mãe...)
“Qual contra a linda moça Policena,
Consolação extrema da mãe velha,
Porque a sombra de Aquiles a condena,
Co’o ferro o duro Pirro se aparelha;
Mas ela os olhos com que o ar serena
(Bem como paciente e mansa ovelha)
Na mísera mãe postos, que endoudece,
Ao duro sacrifício se oferece:
131-1: Qual – como. 131-1: Policena – filha de Príamo, Rei de Tróia, e de Hécuba, foi sacrificada (ou se suicidou) sobre o túmulo de Aquiles, herói grego que por ela havia se apaixonado. 131-3: sombra – alma. 131-3: Aquiles – herói da Guerra de Tróia; por amor a Policena, acabou sendo traído e morto por Páris, príncipe de Tróia, que acertou o calcanhar de Aquiles (único ponto vulnerável de seu corpo) com uma flecha. 131-4: Pirro – filho de Aquiles; segundo Eurípedes e Ovídio, teria degolado Policena sobre o túmulo de Aquiles, como vingança pela morte do pai. 131-7: mísera – miserável, infeliz.
132 – ( - Assim, se voltavam contra Inês os algozes, sem pensar em futuros castigos, banhando em sangue as espadas e o peito apaixonado daquela que depois virou Rainha.)
“Tais contra Inês os brutos matadores
No colo de alabastro, que sustinha
As obras com que Amor matou de amores
Aquele que depois a fez Rainha;
As espadas banhando, e as brancas flores,
Que ela dos olhos seus regadas tinha,
Se encarniçavam, férvidos e irosos,
No futuro castigo não cuidosos.
132-1: Tais – assim, do mesmo modo. 132-1: brutos matadores – os algozes, os ministros que defendem a morte de Inês. 132-2: colo de alabastro – o peito branco. 132-3: As obras – provavelmente uma referência aos seios de Inês. 132-3: Amor – o deus do amor, Eros. 132-3: matou de amores – fez sofrer de amor, causou grande paixão. 132-4: Aquele – D. Pedro, que a amava e depois a converteu em Rainha de Portugal. 132-6: dos olhos seus – pelos seus olhos; “as flores” (o peito branco de Inês) eram regadas por suas lágrimas. 132-7: encarniçavam – excitavam, agitavam. 132-8: não cuidosos – não pensando que sofreriam um castigo futuro por causa disso.
133 – ( - Bem que o Sol podia apagar este dia, como quando Atreu fez Tiestes comer os próprio filhos. Os vales ouviram Inês, agonizante, murmurar o nome de seu amado, Pedro.)
“Bem puderas, ó Sol, da vista destes
Teus raios apartar aquele dia,
Como da seva mesa de Tiestes,
Quando os filhos por mão de Atreu comia.
Vós, ó côncavos vales, que pudestes
A voz extrema ouvir da boca fria,
O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,
Por muito grande espaço repetisses!
133-2: apartar aquele dia – apagar aquele dia, fazer com que ele não tivesse existido. 133-3: seva mesa – banquete cruel. 133-3: Tiestes – filho de Pélops, seduziu a esposa de seu próprio irmão, Atreu. 133-4: os filhos – Tântalo e Plístenes, filhos de Tiestes e Érope, esposa de Atreu. 133-4: Atreu – irmão de Tiestes, matou as crianças e as ofereceu como alimento ao irmão, causando tamanho horror ao Sol, que este envolveu aquele dia em uma imensa escuridão. 133-5: côncavos vales – os vales do Mondego, Coimbra. 133-6: boca fria – a boca de Inês, que morre. 133-7: Pedro – o nome do amado é a última palavra que Inês pronuncia. 133-8: grande espaço – por muito tempo.
134 – ( - Assim como a flor do campo murcha e perde o cheiro quando arrancada do campo, assim ficou Inês, sem cor e sem vida.)
“Assim como a bonina, que cortada
Antes do tempo foi, cândida e bela,
Sendo das mãos lascivas maltratada
Da menina que a trouxe na capela,
O cheiro traz perdido e a cor murchada:
Tal está morta a pálida donzela,
Secas do rosto as rosas, e perdida
A branca e viva cor, coa doce vida.
134-1: bonina – a flor do campo, a margarida. 134-3: das mãos lascivas maltratada – maltratada pelas mãos travessas, inquietas. 134-4: capela – grinalda. 134-6: Tal – assim. 134-6: a pálida donzela – Inês. 134-8: coa – com a.
135 – ( - As filhas do Mondego por muito tempo choraram a trágica morte, e de suas lágrimas nasceu uma fonte: a fonte dos amores de Inês. A água que dela brota são lágrimas, as flores que rega são amores.)
“As filhas do Mondego a morte escura
Longo tempo chorando memoraram,
E, por memória eterna, em fonte pura
As lágrimas choradas transformaram;
O nome lhe puseram, que inda dura,
Dos amores de Inês que ali passaram.
Vede que fresca fonte rega as flores,
Que lágrimas são a água, e o nome amores.
135-1: As filhas do Mondego – as ninfas do rio (ou as mulheres da cidade de Coimbra). 135-1: escura – terrível. 135-2: memoraram – relembraram. 135-5: O nome lhe puseram – ainda hoje há, nas margens do Rio Mondego, uma fonte com o nome de Fonte dos amores de Inês.
do amor.



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