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Vestibular Fuvest - Os Lusíadas - parte IV

CANTO IV

Narração
Episódio do Velho do Restelo (94-104)

No final do canto IV, nos é apresentado um velho que, da praia, grita aos marinheiros, revelando-se como a única voz discordante em toda esta primeira parte do livro, pois ele questiona o valor de tamanha empresa. Para ele, toda esta viagem e esta sede de conquista são motivadas por desejos vãos de glória, pela cobiça. Além disso, ele alerta para os sacrifícios que serão feitos, para as mortes que acontecerão. Trata-se do único momento em que Camões modifica seu olhar aristocrático da história, destacando os que se sacrificam (marinheiros, guerreiros...) em nome da glória, que é dos nobres.
Mais adiante, o velho vai alertar para o fato de que Portugal se desprotege ao mandar tantos homens para as conquistas das terras distantes. Em outras palavras, para conquistar o mundo, Portugal esquece de cuidar de Portugal. O Reino se desguarnece e fica vulnerável aos ataques árabes e de Castela, e a essência portuguesa é esquecida em nome das glórias vãs.
No final, o velho ainda amaldiçoa os navegadores, na figura do primeiro que lançou um barco ao mar. Ele deseja que os feitos marítimos jamais sejam lembrados e que os nomes desses navegadores sejam esquecidos para sempre, que nunca sejam tema para nenhum poeta.

94 – ( - Mas um velho que estava na praia, balançando negativamente a cabeça, falou, baseado em sua experiência, com o coração:...)

“Mas um velho d’aspeito venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
C’um saber só de experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito:
94-1: d’aspeito venerando – de aspecto respeitável. 94-3: meneando – balançando. 94-7: C’um – com um. 94-8: experto peito – coração experiente.
95 – ( - ... Ó vontade de mandar! Ó cobiça! Que castigos impões aos corações que te buscam! Que mortes, perigos, tormentas e crueldades neles provocas!).
— “Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
C’uma aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!
95-3: se atiça – queima, cresce. 95-4: C’uma aura popular – com um prestígio popular. 95-8: neles – nos corações. 95-8: experimentas – provas, provocas.
96 – ( - Ó ambição, fonte de tristezas e ruínas; dizem que és ilustre e sublime, mas és digna de críticas; o povo ignorante se engana te chamando de fama e glória.)
— “Dura inquietação d’alma e da vida,
Fonte de desamparos e adultérios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de impérios:
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo dina de infames vitupérios;
Chamam-te Fama e Glória soberana,
Nomes com quem se o povo néscio engana!
96-1: Dura inquietação – ambição. 96-5: Chamam-te – consideram-te, te dizem. 96-5: subida – elevada. 96-6: dina – digna. 96-6: vitupérios – críticas. 96-8: se o povo néscio engana – o povo néscio (ignorante) se engana.
97 – ( - A que novos desastres estás levando os portugueses? Que perigos e mortes vais lhes dar? Que promessas fáceis e ilusórias tens feito?)
—”A que novos desastres determinas
De levar estes reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos, e de minas
D’ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? que histórias?
Que triunfos, que palmas, que vitórias?
97-1: determinas – resolves. 97-4:”preminente – proeminente, importante.
98 – ( - Vocês, descendentes de Adão, cujo pecado expulsou os homens do paraíso e os fez viver na terra, perdendo a pureza e vivendo em guerras...)
— “Mas ó tu, geração daquele insano,
Cujo pecado e desobediência,
Não somente do reino soberano
Te pôs neste desterro e triste ausência,
Mas inda doutro estado mais que humano
Da quieta e da simples inocência,
Idade d’ouro, tanto te privou,
Que na de ferro e d’armas te deitou:
98-1: geração daquele insano – descendentes de Adão. 98-2: pecado e desobediência – o pecado original, cometido pela desobediência de Adão a uma ordem de Deus, provocou a expulsão de Adão e Eva do paraíso, segundo a Bíblia. 98-3: reino soberano – o paraíso. 98-5: estado mais que humano – estado angelical. 98-7: Idade d’ouro – o primeiro dos quatro períodos da vida humana; os outros três seriam o da prata, o do bronze e o do ferro. 98-7: te privou – te tirou (a inocência, a idade do ouro). 98-8: na de ferro e d’armas – na idade do ferro, período final da vida humana, ao qual Camões acrescenta a idade das armas, das guerras. 98-8: te deitou – te colocou.
99 – ( - ... já que vocês se contentam com a vaidade, confundem valentia com violência, desprezam a vida, que até Cristo temeu perder...)
— “Já que nesta gostosa vaidade
Tanto enlevas a leve fantasia,
Já que à bruta crueza e feridade
Puseste nome esforço e valentia,
Já que prezas em tanta quantidades
O desprezo da vida, que devia
De ser sempre estimada, pois que já
Temeu tanto perdê-la quem a dá:
99-2: enlevas – envolves. 99-3: feridade – ferocidade. 99-5: prezas em tanta quantidade – valorizas tanto. 99-8: quem a dá – quem dá a vida, Deus, na figura de Cristo, que temeu a própria morte.
100 – ( - ... não estão aqui bem perto os árabes, com quem sempre haverá lutas? Não há cidades próximas para conquistar? Já não chega a glória de vencer os bravos muçulmanos?)
— “Não tens junto contigo o Ismaelita,
Com quem sempre terás guerras sobejas?
Não segue ele do Arábio a lei maldita,
Se tu pela de Cristo só pelejas?
Não tem cidades mil, terra infinita,
Se terras e riqueza mais desejas?
Não é ele por armas esforçado,
Se queres por vitórias ser louvado?
100-1: junto contigo – próximo de ti. 100-1: o Ismaelita – os árabes, os mouros. 100-3: do Arábio a lei maldita – a lei muçulmana, a religião de Maomé. 100-4: só pelejas – lutas apenas (pelas leis de Cristo, em nome do cristianismo). 100-7: por armas esforçado – valoroso na guerra. 100-8: louvado – reconhecido, elogiado.



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