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Vestibular Fuvest - Os Lusíadas - parte V
101 – ( - Indo enfrentar os inimigos que estão longe, para alcançar a fama em conquistas incertas e perigosas, vocês desprotegem Portugal e fazem crescer os inimigos que estão próximos.)
— “Deixas criar às portas o inimigo, Por ires buscar outro de tão longe, Por quem se despovoe o Reino antigo, Se enfraqueça e se vá deitando a longe? Buscas o incerto e incógnito perigo Por que a fama te exalte e te lisonge, Chamando-te senhor, com larga cópia, Da Índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia? 101-1: às portas – perto de Portugal, das portas do reino português. 101-2: outro – outro inimigo. 101-4: deitando a longe – crescendo, se ampliando. 101-7: com larga cópia – com abundância. 102 – ( - Maldito o primeiro navegador, que receba os castigos do Inferno, que não seja lembrado por nenhum poeta ou pensamento elevado.) — “Ó maldito o primeiro que no mundo Nas ondas velas pôs em seco lenho, Dino da eterna pena do profundo, Se é justa a justa lei, que sigo e tenho! Nunca juízo algum alto e profundo, Nem cítara sonora, ou vivo engenho, Te dê por isso fama nem memória, Mas contigo se acabe o nome e glória. 102-1/2: nestes versos o Velho do Restelo amaldiçoa o primeiro homem que colocou velas em um casco de madeira e o lançou ao mar, ou seja, o primeiro homem a fazer um navio e navegar. 102-2: seco lenho – madeira seca, o casco do navio. 102-3: Dino – digno. 102-3: pena do profundo – castigos do Inferno. 102-5: juízo – pensamento. 102-6: Nem cítara sonora – nenhum poeta, nenhum “cantor”. 102-6: engenho – inspiração. 102-8: contigo se acabe o nome e a glória – que sejas esquecido. 103 – ( - Prometeu trouxe o fogo da ambição aos corações humanos, que o usaram para a guerra e para a morte. Melhor seria, Prometeu, não teres gerado tantos desejos.) — “Trouxe o filho de Jápeto do Céu O fogo que ajuntou ao peito humano, Fogo que o mundo em armas acendeu Em mortes, em desonras (grande engano). Quanto melhor nos fora, Prometeu, E quanto para o mundo menos dano, Que a tua estátua ilustre não tivera Fogo de altos desejos, que a movera! 103-1: o filho de Jápeto – Prometeu, que roubou o fogo do Olimpo e o deu aos homens, sendo, por isso, punido por Júpiter, que o acorrentou ao monte Cáucaso, onde uma águia lhe comia repetidamente o fígado. 103-2: ajuntou ao peito – pôs no coração dos homens. 103-6: dano – problema. 104 – ( - Se não fosse pela ambição, Faeton não roubaria o carro de Apolo, nem Ícaro tentaria chegar ao Sol. O certo é que os homens sempre ambicionam algo sublime ou terrível e por isso enfrentam qualquer perigo. Ó condição humana miserável! ) — “Não cometera o moço miserando O carro alto do pai, nem o ar vazio O grande Arquiteto co’o filho, dando Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio. Nenhum cometimento alto e nefando, Por fogo, ferro, água, calma e frio, Deixa intentado a humana geração. Mísera sorte, estranha condição!” — 104-1: cometera – roubaria. 104-1: o moço miserando – Faeton, filho de Apolo; roubou o carro do Sol (Apolo) e, por não conseguir dominar os cavalos que o conduziam, foi morto por Júpiter, para evitar que queimasse toda a terra. 104-3: O grande Arquiteto – Dédalo. 104-3: co’o – com o. 104-3: filho – Ícaro, filho de Dédalo; ao desobedecer os conselhos do pai, de não se aproximar demasiadamente do Sol, para não derreter a cera das asas que usava para voar, acabou caindo no mar Egeu. 104-4: Um, nome ao mar – mar Icário, em homenagem a Ícaro. 104-4: outro, fama ao rio – o rio Pó, na Itália, onde caiu Faeton após ser atingido pelos raios de Júpiter. 104-5: Nenhum cometimento – nenhuma ação. 104-7: Deixa intentado – deixa de tentar. 104-7: a humana geração – os homens. 104-8: Mísera – miserável. OBS.: O material acima foi extraído da edição comentada de Os Lusíadas (Leitura XXI, Porto Alegre), feita pelo professor Sérgio Fischer e cuja reprodução foi expressamente autorizada pela editora e pelo autor.
SERGIUS: O que você acha da indicação de trechos de Os Lusíadas para os vestibulares da FUVEST e da UFRGS? SERGIO FISCHER: A indicação de Os Lusíadas como leitura obrigatória para o vestibular é a constatação de que se trata de uma grande obra, de um texto referencial para a nossa língua e para a nossa cultura. Afinal Camões produziu esta epopéia no momento em que Portugal estava no auge de seu poder e através desta obra fundadora se estabelece a imagem cultural e mítica de todo o mundo português. Quanto ao fato de a indicação ser parcial, ou seja, de não ser solicitada a obra como um todo, mas partes dela, também me parece bem, pois trata-se de um texto de difícil leitura e, para uma avaliação de Literatura, alguns trechos se sobressaem e acabam permitindo esplêndidas análises literárias e culturais. SG:É possível para um adolescente ler Os Lusíadas? SF: Como já disse, é um texto de difícil leitura, pelo arcaísmo da linguagem, pelas referências histórico-culturais e pela própria estrutura poética, muito distante do tipo de texto que os jovens estão acostumados a ler. Por isso, acho interessante a adoção de uma edição comentada, que tenha a intenção de auxiliar a leitura e não de substituí-la. Os comentários devem levar o leitor a compreender o texto de Camões e não se apresentarem como uma mera simplificação que desconsidera a importância de ler o texto original. SG: Para o vestibular da FUVEST estão indicados os episódios Inês de Castro e O velho do Restelo, de Os Lusíadas. O que se pode dizer sobre eles? SF: O episódio Inês de Castro, presente no canto III, faz parte das narrativas feitas por Vasco da Gama ao soberano de Melinde, cidade africana onde os portugueses são bem recebidos, depois de enfrentem diversas batalhas na costa oriental da África. Neste relato, é apresentada a história real de Inês de Castro, amante de D. Pedro (1320-1367), príncipe de Portugal, que é morta, a mando do rei D. Afonso IV (1291-1357), para dar fim a intrigas palacianas que instabilizavam seu reinado. Quando morre a esposa de D. Pedro, D. Constança, de Castela, cria-se em Portugal o temor de que o D. Pedro resolva casar com Inês, também espanhola. Este temor baseia-se no fato de o príncipe ser apaixonado por ela e ela não ser de fato nobre. Em outras palavras, a Corte portuguesa teme que sua futura rainha seja uma mulher comum. D. Afonso manda matá-la e este fato gera uma luta sangrenta entre pai e filho. No final, depois de alguns meses de luta, a paz é feita e, quando Pedro assume o trono, em 1357, tornando-se D. Pedro I, sua vingança é levada a cabo. Num gesto romântico, Pedro anuncia que Inês, mesmo morta, é a única rainha de Portugal. Ao contar esta história, Camões reforça a questão amorosa, destacando que o deus Amor, perverso por torturar os corações humanos, é o culpado simbólico da morte de Inês, pois a fez amar um homem que não devia. Este episódio de inegável lirismo contrabalança o discurso heróico que marca a quase totalidade do livro. Já em O velho do restelo, episódio do canto IV, a narrativa, ainda na voz de Vasco da Gama, faz referência ao momento em que a frota portuguesa vai deixar o porto de Lisboa para dar início à viagem de conquista das Índias. Em meio à emoção que marca o momento, no qual muitas mulheres choram por seus filhos, pais e maridos, que partem numa aventura da qual não se sabe se voltarão, ouve-se a voz de um velho, que na beira da praia protesta contra a navegação. Para o velho, deve esquecido o primeiro homem que lançou ao mar um barco, pois ele despertou nos homens a ganância e o desejo de glória, sentimentos vazios que se terminam com o tempo. Além disso, o velho alerta que aqueles que buscam os inimigos distantes acabam esquecendo dos que estão próximos. Este velho acaba sendo a única voz discordante do livro, pois vê nas conquistas marítimas mais razões para temer do que virtudes para exaltar. Trata-se de uma quebra do discurso épico e nos mostra que o autor, apesar de reconhecer o momento glorioso de Portugal, já percebe algum prenúncio de decadência.
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