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Erico Verissimo - parte I
Vida: Nasceu em Cruz Alta, descendente de tradicionais linhagens de estancieiros, tanto pelo lado paterno quanto pelo materno. A crise que atingiu a pecuária rio-grandense nas primeiras décadas do século XX, associada ao caráter perdulário de seu pai, fizeram com que a fortuna familiar se evaporasse. Mesmo assim, o jovem Erico ainda pode realizar estudos ginasiais no colégio Cruzeiro do Sul de Porto Alegre. Pretendia seguir Medicina, porém a decadência econômica impediu-o de fazer o curso colegial. Voltou para Cruz Alta, onde os pais haviam se separado e passou a administrar uma farmácia através da qual a família pretendia reerguer-se. O futuro escritor mostrou-se incapaz para a vida capitalista e a farmácia faliu. Em fins de 1930, sem um tostão no bolso, mudou-se para Porto Alegre, acompanhado de sua jovem esposa. No início do ano seguinte, começou a trabalhar na Editora Globo como revisor e tradutor. Sua estréia literária deu-se em 1932, com o livro de contos Fantoches. Contudo, foram os romances, escritos posteriormente, que lhe deram fama. Em 1941, fez sua primeira viagem aos Estados Unidos, fixando-a no livro gato preto em campo de neve. Em 1943, retornou à América por dois anos para lecionar Literatura Brasileira na Universidade da Califórnia. Entre 1947 e 1948 escreveu O continente, que abria a trilogia O tempo e o vento, sua obra-prima, concluída apenas no início dos anos 60. A partir de então dividiu com Jorge Amado a condição de romancista brasileiro mais estimado pelo público no Brasil e no exterior. Morreu em Porto alegre no final de 1975, com 70 anos de idade. OBRAS PRINCIPAIS: I FASE: Clarissa (1933); Caminhos cruzados (1935); Música ao longe (1935); Um lugar ao sol (1936); Olhai os lírios do campo (1938); Saga (1940); O resto é silêncio (1943). II FASE: O tempo e o vento (O continente – O retrato – O arquipélago)(1949-1962); Noite (1954); O senhor embaixador (1967); Incidente em Antares (1971); Solo de clarineta (memórias, 1973). Além disso, Érico Veríssimo escreveu relatos de viagens (Gato preto em campo de neve, México, Israel em abril); biografias (A vida de Joana D´Arc); e literatura infantil.
A estréia do escritor deu-se com um medíocre livro de contos, Fantoches. O gênero curto não era o mais apropriado para um rapaz imaginativo e que trazia consigo a vasta memória de um mundo morto (o da oligarquia pastoril sul-rio-grandense). Erico encontrou-se no romance. Mais tarde, definiria modestamente a sua capacidade romanesca, dizendo ser apenas um contador de histórias. O CICLO DE CLARISSA CARACTERÍSTICAS DA I FASE Os relatos de Erico Verissimo agrupados sob o rótulo de I Fase revelam certas características comuns: a) Apresentam o domínio do espaço urbano. Quase todos localizam-se em Porto Alegre, com exceção de Música ao longe e da primeira parte de Um lugar ao sol cujas ações transcorrem em Jacarecanga, nome fictício de Cruz Alta, cidade natal do escritor. b) O registro da existência - valores e costumes - de uma pequena burguesia (classe média) que se tornava, pouco a pouco, o setor social mais representativo em Porto Alegre. Quase sempre esta camada aparece sob tintas favoráveis. É no círculo pequeno burguês – em que a pobreza não liquidou ainda o projeto de uma existência razoável e todas as interrogações a respeito do sentido da vida estão marcadas por preocupações éticas – que o autor se sente à vontade. c) Conflitos dramáticos centrados na ordenação familiar e na luta pela ascensão social. No âmbito familiar se refletem os valores conflituosos do universo social. O território da família é, ao mesmo tempo, o inferno e o espaço ideal de uma verdadeira comunidade humana. Para Erico os seres podem construir um reduto doméstico de confiança, respeito e amor. Também o problema da escalada social percorre os romances: ascender economicamente sem trair princípios éticos é o núcleo do drama interior de vários personagens. d) Uma visão de mundo liberal-humanista. A burguesia é questionada por seu desprezo pelos pobres e deserdados. Já o patriciado rural decadente nada mais tem a oferecer. Erico, porém, não crê nas ideologias em voga na época (comunismo e fascismo), defendendo a conscientização individual como saída. Apenas através da generosidade, os indivíduos poderiam enfrentar o egoísmo do mundo moderno. Esta concepção é resumida na fórmula do escritor Tônio Santiago, em O resto é silêncio: “Devemos criar um mundo de beleza e bondade”. e) A repetição de casais de personagens em várias narrativas. A dupla Clarissa-Vasco está presente em Música ao longe, Um lugar ao sol e Saga. Já a dupla Noel-Fernanda surge em Caminhos cruzados e reaparece também em Um lugar ao sol e Saga, estabelecendo amizade com o futuro casal Clarissa e Vasco. f) Notável habilidade técnica, manifesta por jogos temporais, pelo refinamento da montagem dos enredos e, sobretudo, pelo uso inovador da técnica do contraponto, desenvolvida pelo inglês Aldous Huxley, de quem Erico traduzira o famoso romance Contraponto. Esta técnica consiste em justapor uma série de protagonistas e situações, sem que haja no texto um centro narrativo, uma síntese para onde tudo convirja. Os “caminhos se cruzam”, mas não tomam a mesma direção, ao contrário do romance convencional. O contraponto foi utilizado em Caminhos cruzados e em O resto é silêncio. g) Uma linguagem elegante, mas tradicional, sem maiores inovações de ordem estilística, traço que permaneceria nos textos da II Fase.
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