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Erico Verissimo - parte II
Apesar da construção precária de personagens e da superficialidade de muitas de suas idéias, havia nas obras da I Fase de Erico Verissimo momentos expressivos a indicar a possibilidade de um grande romancista. Certas passagens se tornaram inesquecíveis como o célebre encontro do jovem estudante de Medicina, Eugênio, com o seu humilde pai, o alfaiate Ângelo, que sacrificara a si e a toda família para que o filho pudesse estudar. Esta cena de humilhação da figura paterna está em Olhai os lírios do campo:
Eugênio viu um vulto familiar surgir a uma esquina e sentiu um desfalecimento. Reconheceria aquela figura de longe, no meio de mil... Um homem magro e encurvado, mal vestido, com um pacote no braço, o pai, o pobre Ângelo. Lá vinha ele subindo a rua. Eugênio sentiu no corpo um formigamento quente de mal-estar. Desejou - com que ardor, com que desespero! - que o velho atravessasse a rua, mudasse de rumo. Seria embaraçoso, constrangedor se Ângelo o visse, parasse e lhe dirigisse a palavra. Alcebíades e Castanho ficariam sabendo que ele era filho dum pobre alfaiate que saía pela rua a entregar pessoalmente as roupas dos fregueses...Haviam de desprezá-lo por isso. Eugênio já antecipava o amargor da nova humilhação. Olhou para os lados pensando numa fuga. Inventaria um pretexto, pediria desculpas, embarafustaria pela primeira porta de loja que encontrasse. ouvia a voz baixa e calma de Castanho “...o conceito hegeliano...” Podia entrar naquela casa de brinquedos e ficar ali escondido, esperando que Ângelo passasse...Hesitou ainda um instante e quando quis tomar uma resolução, era tarde demais. Ângelo já os defrontava. Viu o filho, olhou dele para os outros e o seu rosto se abriu num sorriso largo de surpreendida felicidade. Afastou-se servil para a beira da calçada, tirou o chapéu. - Boa tarde, Genoca! - exclamou. O orgulho iluminava-lhe o rosto. Muito vermelho e perturbado Eugênio olhava para a frente em silêncio, como se não o tivesse visto nem ouvido. Os outros também continuaram a caminhar, sem terem dado pelo gesto do homem.
Aliás, Olha os lírios do campo representou a consagração pública de Erico Verissimo. Quase um milhão de exemplares foram vendidos em pouco tempo, tornando o autor nacionalmente conhecido. O romance começa com Eugênio viajando de sua propriedade rural rumo à cidade que dista três horas de automóvel. Ele é um médico rico e abonado. O chamado veio de um hospital onde outra médica, Olívia, está morrendo. Enquanto o carro corta o princípio da noite, Eugênio, em sucessivos “flashbacks”, retoma um passado que parecia morto. Evoca, então, a infância infeliz, dada à pobreza do pai alfaiate, e o desejo que o acometera de tornar-se um homem rico e livrar a família de todas as vergonhas geradas pela miséria. O estudos foram a sua saída. Graças ao sacrifício dos pais, pudera fazer ótimos colégios, inclusive um internato de alto nível. E assim chegara ao curso de Medicina, sempre odiando a humildade da família e aspirando a uma posição de riqueza. Um ano antes de sua formatura, o pai morrera. E na noite em que se formava, tinha conhecido Olívia, colega de faculdade, tão pobre como ele. O relacionamento amoroso entre os dois tornou-se inevitável. Mas, em nenhum momento, Eugênio assumira qualquer compromisso com Olívia. Esta, no entanto, ao receber um convite para clinicar por alguns meses numa pequena cidade do interior rio-grandense, resolvera partir. Eugênio permanecera em Porto Alegre e conhecera Eunice, filha de um grande empresário. com quem se casaria apenas por interesse. Antes disso, escrevera uma carta a Olívia para comunicar-lhe o fato. A jovem médica vem a capital e aceita resignadamente o casamento do seu amado. Mais tarde, quando ela retornar definitivamente para Porto Alegre, revelará a Eugênio que ele é pai de uma menina: Anamaria O casamento de Eugênio como Eunice logo entrara em corrosão. O rapaz pensava em assumir Olívia e a filha, mas o fantasma da pobreza mais uma vez o afastaria da mulher que amava. Agora, o carro aproximando-se do hospital onde a jovem agoniza, Eugênio dá-se conta do vazio de sua existência. Quando entra no hospital, recebe a notícia da morte de Olívia. Encerra-se assim, a primeira parte do romance. Na Segunda parte, bastante convencional, Eugênio rompe o casamento e assume a filha e passa a ser um médico de pobres, encontrando então a harmonia interior. Sua visão de mundo resume-se na solidariedade e na tentativa de criação de um mundo melhor. O ÚLTIMO ROMANCE DA PRIMEIRA FASE No final de O resto é silêncio, última obra da I Fase, o escritor Tônio Santiago, alter-ego do romancista, imagina um texto que, certamente, seria a base de O tempo e o vento. Erico Verissimo começava a encontrar o seu caminho: No princípio eram as coxilhas e planícies desoladas por onde os índios vagueavam nas suas guerras e lidas. Depois tinham vindo os primeiros missionários; mais tarde, os bandeirantes e muitos anos depois os açorianos. Sob o claro céu do Sul processara-se a mistura de raças. Travaram-se lutas. Fundaram-se estâncias e aldeamentos. Ergueram-se igrejas. Surgiram os primeiros mártires, os primeiros heróis, os primeiros santos...
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