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Erico Verissimo - parte III
A segunda fase do escritor é aberta com a publicação de O tempo e o vento, sua obra-prima e, possivelmente, o mais importante romance histórico brasileiro. Composto por três livros (O continente, O retrato e O arquipélago) publicados entre os anos de 1949 a 1961, o relato de mais de 2.000 páginas obtém reconhecimento do público e da crítica. 1-CONCEPÇÃO GERAL Através dos dramas individuais localizados na sucessão de várias gerações das famílias Terra e Cambará – que se entrelaçam duas vezes – Erico Verissimo realiza uma investigação da história rio-grandense, conotando os destinos de seus personagens com os momentos decisivos da formação da província sulina.
2- ABRANGÊNCIA TEMPORAL O continente tem a duração de cento e cinqüenta anos, iniciando com um episódio nas Missões Jesuíticas, em 1745, e terminando com o fim do cerco ao sobrado dos Cambarás, em junho de 1895. Já O retrato e O arquipélago somados duram apenas cinqüenta anos, pois O tempo e o vento acaba cronologicamente em 1945, com a queda de Getúlio Vargas, que representa o crepúsculo da dominação dos estancieiros gaúchos sobre o país. Em seu conjunto, portanto, o romance abrange exatamente dois séculos. A idéia dominante é a do romance cíclico, conforme atesta a epígrafe que abre a obra, retirada do Eclesiastes:
Uma geração vai, e outra vem; porém a terra para sempre permanece. E nasce o sol, e põe-se o sol, e volta ao seu lugar donde nasceu. O vento vai para o sul, e faz o seu giro para o norte; continuamente vai girando o vento, e volta fazendo seus circuitos.
3.O SENTIDO DOS TRÊS LIVROS A palavra “continente” significa no romance, em primeiro lugar, o território conquistado a ferro e fogo durante os séculos XVIII e XIX. A conquista dá-se simultaneamente por ação privada e por ação estatal. A primeira, iniciada nos Campos de Cima da Serra, e comandada por aventureiros sorocabanos e lagunenses, estende-se rumo ao oeste e ao sul da região, em busca de planícies férteis para o pastoreio. A segunda é mais litorânea, através da imigração açoriana e do estabelecimento de fortificações militares, pelo Estado português. Ambas confluem e se unificam, no entanto, em um grande objetivo comum: a tomada da “terra de ninguém” e do gado alçado – vacum e eqüino – que vagava às centenas de milhares pelos campos da Serra e da Campanha. Em segundo lugar, o “continente” significa, no romance, o tempo histórico da conquista e da consolidação do poder dos estancieiros na região, associado à solidificação do núcleo familiar, originando os primeiros clãs dominantes. Aqui, “continente” significa aglutinação, coesão, esforço familiar num sentido comum. Bem diferente de “arquipélago” que traz a idéia de desintegração, fim do clã, estilhaçamento, isolamento dos indivíduos. Se O continente traça a origem da sociedade rio-grandense, sob o controle de uma elite audaciosa e guerreira (e também machista e sanguinária) – forjada em lutas fronteiriças e revoluções fratricidas – a partir de fins do século XVIII e durante todo o século XIX; O retrato – já centralizado nas primeiras décadas do século XX – registra o momento em que os velhos oligarcas são substituídos por caudilhos ilustrados, a exemplo do Dr. Rodrigo Cambará; por fim, O arquipélago mostra não apenas a derrocada da família dirigente e a decadência política dos estancieiros gaúchos como também a emergência vitoriosa dos novos grupos sociais, especialmente o dos alemães e dos italianos.
4.O SENTIDO FILOSÓFICO DA TRILOGIA Em seu conjunto, O tempo e o vento não é apenas o mais notável romance histórico brasileiro, tampouco uma criação artística centrada exclusivamente sobre a formação social rio-grandense e suas origens épicas e míticas, passando pela longa hegemonia política e econômica dos estancieiros até sua derrocada, na década de 1940. É mais do que isso, é uma sutil discussão sobre o significado da existência. Verifica-se isso no confronto estabelecido dentro da narrativa entre duas forças antagônicas: Tempo: passagem, corrosão, destruição, morte versus Vento: repetição, continuidade, permanência. Pode-se dizer que o tempo está associado aos homens, na medida em que estes antecipam o trabalho daquele, contribuindo, através da violência sistemática, com a força destruidora a que o tempo tudo submete. Já o vento relaciona-se simbolicamente com as mulheres porque estas representam a resistência humana contra as guerras e o instinto da morte. Para isso, Ana Terra, Bibiana Terra e Maria Valéria Terra valem-se da memória (sempre deflagrada em noites de vento). Atiçada pelas ventanias, a memória feminina restabelece lembranças dos que já partiram e, ao evocá-los, injeta neles um sopro de vida. Lembrar é, pois, resistir ao sem-sentido do tempo e protestar contra a morte. Por isso, no final da trilogia, o escritor Floriano Cambará – sentindo-se mais próximo das recordações femininas que da arrogância guerreira dos homens – resolve salvar a memória que as mulheres conservaram de todas as experiências fundamentais da família Terra-Cambará. E registra, então, sob a forma de um romance, o mundo passado que o tempo, inexoravelmente, transformaria em pó, em nada. Para o escritor, só a arte responde à falta de significado da vida humana. Só a arte tem o poder de resistir à voragem do tempo. As primeiras páginas do romance de Floriano Cambará terminam O tempo e o vento: “Era uma noite fria de lua cheia. As estrelas cintilavam sobre a cidade de Santa Fé, que de tão quieta e deserta parecia um cemitério abandonado.” 5. O CONTINENTE SEGUNDO FLÁVIO LOUREIRO CHAVES
Uma crônica de sangue pontuada por sucessivas guerras, eis o cenário onde brota a gênese da Província de São Pedro. Ao início de O continente, no episódio de Ana Terra, o espaço físico foi inteiramente destruído após um ataque dos castelhanos que massacraram todos os homens válidos da fazenda de Maneco Terra. Sobre a imensidão do campo, duas mulheres e duas crianças sepultam os seus mortos. Desses escombros surge a personagem de Ana Terra, armada de uma confiança absurda em si mesma, que se integra na caravana pioneira para fundar, muito distante, a vila de Santa Fé. Com ela segue o filho, que será o pai de Bibiana ; e assim fica assegurada a continuidade da vida. A mesma intriga, distribuída por diferentes níveis da temporalidade, repete-se várias vezes na sucessão de gerações de Terras e Cambarás.(...) Essa é a dialética originária que rege o universo ficcional de O continente, reduzido à ação daqueles elementos primordiais que definem a natureza, o ser humano e seu lugar na História: o esforço para preservar um mundo continuamente desfigurado pela violência, fazendo-o ressurgir com redobrado vigor. Na personagem Ana Terra se reedita o primeiro dia da criação, a imagem primitiva da fecundação, enquanto antítese do instinto da morte: 'penso nela como uma espécie de sinônimo de mãe, ventre, terra, enquanto verticalidade, permanência, paciência, espera, perseverança, coragem moral.'(...) Há um estranho paradoxo em O continente. Essa epopéia, cuja linha episódica foi traçada no encadeamento dos efeitos guerreiros, parece ter sido escrita para reafirmar a insanidade da guerra. Enquanto a seqüência cronológica avança mediante lutas fratricidas de Cambará e Amarais, gestos heróicos de Licurgo e Cambará (Rodrigo), a visão de mundo do autor, sua crença nos valores permanentes, da vida, está expressa na saga de Ana Terra, nos silêncios de Bibiana. (CHAVES, Flávio Loureiro. Erico Verissimo: realismo e sociedade. 2 ed. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1982.)
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