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Mestres do conto do Século XIX - Anton Tchecov

ANTON TCHECOV (1860-1904)

Anton Tchecov nasceu em 1860 na Ucrânia — então pertencente à Rússia tsarista —, filho de uma família humilde; seu avô havia sido servo da gleba e seu pai era um pequeno comerciante. Mesmo assim, com muitos sacrifícios realizou estudos secundários e ingressou na Faculdade de Medicina de Moscou, para onde se transferira com todos os familiares. A profissão de médico lhe proporcionou um grande conhecimento da vida e do ser humano, e o sucesso imediato de seus primeiros contos (humorísticos, em geral) e a recepção futura de toda a sua obra, especialmente peças teatrais de enorme aceitação pública, permitiram-lhe viver de sua produção literária. Em 1898, casou-se com uma célebre atriz do teatro russo e, em 1904, atacado pela tuberculose, veio a morrer na Alemanha, para onde fora em busca de melhora em seu estado de saúde. Tinha então 44 anos.

Tchecov inventou uma nova forma de escrever contos: “um mínimo de enredo e o máximo de emoção”. Às histórias intrigantes, de desfecho inesperado, que predominavam entre os praticantes do gênero, ele preferiu criar atmosferas, registrando situações abertas que não se encerravam no fim dos relatos. É o que chamamos hoje de conto moderno. Com uma visão de mundo ora humorística, ora poética, ora dramática, Tchecov captou momentos ocasionais da realidade, fatias de vida, pequenos flagrantes do cotidiano, estados de espírito da gente comum. A genialidade de sua arte está em transformar uma série de incidentes laterais e de pormenores aparentemente insignificantes da existência individual em representações perfeitas do destino humano.

No conjunto (incluindo-se até mesmo as histórias cômicas), a obra de Tchecov é profundamente melancólica. Tédio, vazio e falta de sentido corroem a alma de quase todas as personagens, cujas ilusões são desfeitas no dia-a-dia, na banalidade em que tudo (amor, ideal, busca do prazer ou do triunfo) se converte. A vida, no campo ou na cidade, nas províncias ou na capital, é sempre a mesma: comum, medíocre, desalentadora. Não importa se os protagonistas dos contos são aristocratas ou burgueses, funcionários ou artistas, operários ou camponeses, homens ou mulheres: o que os aguarda é a mesma tristeza miúda, o mesmo bocejo, a mesma amargura. Um véu cinzento cobre a tudo e a todos. Apesar disso, como observaram vários estudiosos, sobra em Tchecov um núcleo de compaixão pelos seres humanos que confere a seus textos uma doçura e uma beleza insuperáveis. É literatura das maiores que já se fizeram em qualquer época.



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