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Mestres do conto do Século XIX - Machado de Assis
Machado de Assis nasceu em 1839, no Morro do Livramento, na cidade do Rio de Janeiro. Era mulato, filho de pais humildes e mal freqüentou a escola — sua trajetória pessoal é, por isso mesmo, impressionante. Auxiliar de tipógrafo, contínuo de repartição, funcionário público, jornalista, cronista, tradutor, o escritor fez-se do nada e sobreviveu ao destino sombrio reservado aos pobres no Brasil do século XIX. Pela qualidade de sua obra, tornou-se uma celebridade ainda em vida. Sua ficção (romances e contos) apresenta duas fases. A primeira, ainda comprometida com certos elementos caros ao Romantismo, é prejudicada pelo esquematismo psicológico, pelo convencionalismo das situações e pelos lugares-comuns estilísticos. Já a segunda fase, iniciada na década de 1880, registra uma revolução: os caracteres das personagens aprofundam-se; o narrador, dominado por uma visão pessimista a respeito das ações humanas, encara o mundo com ironia sutil, provocando um refinamento do estilo e uma mescla na linguagem, simultaneamente clássica e moderna. Ao contrário de seus romances, assinalados por comentários paralelos e digressões contínuas que estabelecem uma espécie de ziguezague narrativo, os contos de Machado de Assis obedecem aos princípios básicos do gênero: concisão, rapidez e unidade dramática. Nada supérfluo ao desenvolvimento da trama interessa ao contista; por isso, todos os seus relatos curtos transcorrem sob certo clima de tensão, sob certo pulsar nervoso, dotando os acontecimentos de uma forte intensidade. Mestre inquestionável da história curta, o escritor carioca experimentou todos os tipos de conto — desde o conto tradicional, à Maupassant, calcado no final surpreendente, até o conto moderno, como os de Tchecov, centrados na criação de uma atmosfera. Desenvolveu também o chamado conto de caracteres (ou psicológico), em que se apresentam tipos humanos atormentados por idéias fixas e angústias obsessivas. Produziu ainda contos alegóricos cujas histórias servem para ilustrar simbolicamente as concepções do autor a respeito da existência. Trabalhou mais raramente com o conto social, questionando, por meio do relato da vida de indivíduos simples, o reflexo brutal da ordem vigente no país. Todas essas classificações, no entanto, são insuficientes — se não inúteis — diante da grandeza literária de tais relatos.
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