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Pablo Neruda- trinta anos
A morte de Pablo Neruda, há três décadas atrás (23/09/1973), estava impregnada de tantos sentidos simbólicos que uma comoção mundial seguiu-se à notícia de seu triste fim na célebre casa de Isla Negra, onde morava nos últimos anos. Semanas antes, seu amigo, Salvador Allende, havia sido deposto pelas Forças Armadas do Chile e (provavelmente) se suicidara no Palácio de La Moneda, em Santiago. Assim o desaparecimento do poeta parecia o desfecho mais eloqüente para a tragédia chilena. Era como se fundissem num só destino a esperança frustrada de um povo e o fim da existência de um escritor que, como nenhum outro, traduzira as possibilidades de prestígio e ressonância popular da lírica moderna. Apesar de tudo, esta morte não deixava de estar à altura de quem, com tamanha intensidade, entregara-se à uma vida voltada para a fruição dos prazeres mais concretos da condição humana: a apreciação das forças elementares da natureza, a entrega a toda sorte de paixões eróticas e espirituais, o gosto por vinhos e comidas, a celebração da fraternidade desperta pela observação da Guerra Civil Espanhola, na década de 1930, e que o tinha levado a um marxismo vulgar, mas também a uma autêntica aproximação com os desvalidos de seu país (o Chile era então um país muito pobre) e com os desvalidos do mundo inteiro. A partir daquele dia de setembro de 1973, a casa de Isla Negra virou centro de peregrinação dos opositores ao sanguinário general Pinochet. Homenagear Neruda era uma das poucas formas de protesto permitido pela ditadura. Depois, com a redemocratização, a casa passou a ser uma atração turística internacional: 500 a 600 pessoas visitam-na diariamente. Lá está ela, desafiando as ondas bravias do Oceano Pacífico, uma espécie de mansão austral, adornada em seu interior com os bizarros objetos que Neruda colecionava sem qualquer lógica aparente, garrafas, barquinhos, máscaras,conchas. Um palácio exótico, mas acolhedor. Lá está ela, ainda hoje, repleta de turistas, como metáfora de uma paixão (a mais avassaladora do século XX) entre um poeta e o seu público.
Em 1904, no lugarejo de Parral, Chile, filho de um modesto ferroviário nascia o menino Ricardo Neftalí Basoalto, que a partir de 1920 adotaria para sempre o pseudônimo de Pablo Neruda com o qual seria conhecido mundialmente e receberia o prêmio Nobel de Literatura de 1971. Neruda não chegou a conhecer a mãe porque esta morreu quando ele tinha um mês de idade: Parral se llama el sitio del que nació en invierno. Ya no existen la casa ni la calle: (...) y cayó el pueblo envuelto en terremoto. Me llevaron a ver entre las tumbas el sueño de mi madre. Y como nunca vi su cara la llamé entre los muertos, para verla pero, como los otros enterrados, no sabe, no oye, no contestó nada, e allí se quedó sola, sin su hijo, huraña y evasiva entre las sombras. (O sítio se chama Parral/ dele que nasceu o inverno./ E já não existem a casa nem a rua: / (...) e sumiu o povo/ engolido pelo terremoto./ Me levaram/ para ver entre as tumbas/ o sono da minha mãe./ E como nunca vi/ sua cara/ chamei-a entre os mortos, para vê-la/ mas, como os outros enterrados,/ não sabe, não ouve, não contestou nada,/ e ali ficou sozinha, sem seu filho,/ insociável e evasiva/ entre as sombras.)O pai se mudou para Temuco e casou-se de novo. O menino fez nesta cidade seus estudos básicos. Com 16 anos era presidente do Ateneu Literário do colégio de Temuco. Em 1921 mudou-se para Santiago a fim de seguir a carreira de professor de francês e começou a colaborar com revistas estudantis e literárias da época:
Y fue a esa edad... llegó la poesia a buscarme. No sé, no sé de donde salió, de invierno o de rio.(e foi nessa idade... chegou a poesia/ a me buscar. Não sei, não sei donde/ saiu, do inverno ou do rio.) Em 1923 lançou sua primeira obra, Crepusculário, que não chegou a alcançar maior êxito. Porém, no ano seguinte apareceu o livro Veinte poemas de amor y uma canción desesperada, um extraordinário fenômeno editorial, sendo provavelmente a obra poética mais lida nos últimos cem anos, pelo menos nos países ibéricos. Em 1927, Neruda foi nomeado cônsul em Rangum, na Birmânia. Depois em Colombo, no Ceilão. Mais tarde em Cingapura e, no ano de 1933, ocupou o consulado de seu país em Buenos Aires. Neste mesmo ano lançaria um de seus grandes livros, Residencia en la tierra, no qual tendências surrealistas reforçavam um desolada visão de mundo. Este livro teria mais uma parte publicadas em 1935 e uma espécie de continuação, saída em 1947, esta com título de Tercera residencia. Ainda em 33, Neruda conheceu e tornou-se amigo íntimo do grande lírico espanhol, Federico García Lorca. A Espanha foi o seu próximo posto diplomático e o poeta estava em Madrid, no ano de 1936, quando começou a Guerra Civil Espanhola, na qual os fascistas com apoio de Hitler derrotaram os republicanos. Escreveu então um célebre poema: España en el corazón: Generales traidores: mirad mi casa muerta, mirad Espana rota: pero de cada casa muerta sale metal ardiendo en vez de flores pero de cada hueco de España sale España (...) Preguntaréis por qué su poesia no nos habla del sueño, de las hojas, de los grandes volcanes de su país natal? Venid a ver la sangre por las calles, venid a ver la sangre por las calles, venid a ver la sangre por las calles!(Generais / traidores: / olhai a minha casa morta / olhai a Espanha rota / mas de cada casa morta sai metal ardendo / em vez de flores / mas de cada buraco da Espanha / sai Espanha. (...) Perguntareis por que a sua poesia / não nos fala do sonho, das folhas / dos grandes vulcões do seu país natal? / Vinde ver o sangue pelas ruas / vinde ver / o sangue pelas ruas / vinde ver o sangue / pelas ruas!) Ainda em 1936 Neruda foi destituído de seu cargo consular. Em 1937 regressou ao Chile onde desenvolveu intensa ação a favor dos refugiados espanhóis. Em 1940 voltou ao serviço diplomático, sendo nomeado para a cidade do México. Sua militância política tornara-se explicita: “Toda creación que no este al servicio de la libertad em estos dias es uma traición.” Em 1943 foi eleito senador pelo Partido da Unidade Popular, no Chile. E em 1945, ingressou festivamente no Partido Comunista. A partir de então, junto do brasileiro Jorge Amado, tornou-se uma espécie de porta-voz artístico e intelectual dos comunistas latino-americanos. Cassado como senador em 1948, foi impelido à clandestinidade. Neste meio tempo escreveu os poemas engajados de Canto general. Viajou pelo mundo inteiro e residiu em Capri no ano de 1952 quando escreveu Las uvas y el viento. Neste mesmo ano, retornou ao Chile, tendo entusiástica recepção popular. De certa forma, começava a estar acima do bem e do mal. Em 1959 veio à luz Cien sonetos de amor, outra obra de grande ressonância popular. Aproveitando-se do entusiasmo dos chilenos por sua figura carismática, os comunistas o lançaram candidato à presidência da República, nas eleições de 1970. Neruda, entretanto, renunciou a sua candidatura a favor de Salvador Allende que venceria o pleito. Allende nomeou-o já no primeiro dia de governo embaixador na França. Doente, o poeta abandonou o cargo nos primórdios de 1973. No dia 11 de setembro daquele ano um violento golpe militar acabou com a democracia chilena. No dia 30, abalado com as notícias do golpe, Pablo Neruda morreu.
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