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Pablo Neruda
Autor fecundíssimo, Neruda parece marchar contra a principal tendência da lírica do século XX: o despojamento verbal. Com efeito, o alvo da grande maioria dos poetas contemporâneos é dizer o máximo com o mínimo de palavras. Neruda, ao contrário, “assombra com o impacto do monstruoso” de seu dilúvio verbal, conforme a fina observação do crítico Arrigucci Jr. O paradoxal é que este escritor que nem sempre se contenta em registrar o essencial e o sugestivo, consiga em inúmeros momentos uma tal grandeza altissonante de imagens, um tal sopro épico ou dramático que seus versos tornam-se inesquecíveis. Sua poesia caudalosa aproxima-se da de Victor Hugo e da de Walt Whitman. Herda também destas duas grandes vozes retóricas e metafóricas a idéia de que a literatura interfere na realidade e pode modificá-la para melhor. O poeta recebeu dos deuses o fogo libertador da humanidade. Sua missão é transmiti-lo aos gritos com fé e audácia. Isso é puro romantismo. E Neruda, como já o perceberam muitos estudiosos, é o último dos grandes românticos, apenas que temperado por um estilo barroco. Didaticamente podemos perceber na sua produção poética quatro momentos: 1 -Centrado em Crepusculario e, sobretudo em Veinte poemas de amor y una canción desesperada, com visíveis influências do Simbolismo hispano-americano chamado de Modernismo. 2- O poeta incorpora as experiências vanguardistas, sobremodo as do Surrealismo. È quando escreve Residencia en la terra. 3- A Guerra Civil Espanhola abre-lhe a dimensão histórico-social da vida. Neruda engaja-se politicamente e escreve o Canto general. 4 – Momento variado de poemas de inspiração social com poemas de amor e poemas sobre o cotidiano. A linguagem – ainda que continue metafórica – torna-se mais simples. É a época de Odas elementales, Cien sonetos de amor, La barcarola, etc.
Veinte poemas de amor y una canción desesperada foi a Bíblia amorosa de gerações de jovens no mundo inteiro. O poeta – conforme a observação de Vicente Tusón - apresenta “momentos distintos de vários amores” . O amor aparece em suas incontáveis manifestações: o amor físico e o espiritual, a ausência da amada e a sua presença, a saudade e o desejo, o gozo e o desencanto. O amor é para o jovem Neruda a única oportunidade do indivíduo salvar-se da angústia existencial e do isolamento, mas, ao mesmo tempo, ele, muitas vezes, é destruição: Èse fue mi destino y en él viajó mi anhelo, Y en él cayó mi anhelo, todo en ti fue naufragio!(Este foi o meu destino, nele viajou o meu anseio, / e nele caiu meu anseio, tudo em ti foi naufrágio!) Mário Vargas Llosa assinalou o que este livro representou em sua juventude: “Quando jovem, muitas vezes o li, o aprendi de memória, o recitei, o admirei, antes ainda de ter o que se chama “o uso da razão”. Minha mãe guardava escondido um exemplar de Veinte poemas de amor y uma canción desesperada, que me proibira ler. Eu não apenas os li como os decorei todos, incluídos aqueles incompreensíveis versos escabrosos (“Mi cuerpo de labriego salvage te socava / Y hace saltar el hijo del fondo de la tierra”) Mais tarde, com El joven monarca e outros poemas de Residencia en la tierra me apaixonei e de desapaixonei e me apaixonei sabe Deus quantas vezes, nesta pré-história pessoal em que a poesia e o amor se confundiam como “vento e folhas.” (Desafios a la libertad). Um dos poemas mais conhecidos de Neruda é Puedo escribir los versos... Puedo escribir los versos más tristes esta noche.Escribir, por ejemplo: “La noche está estrellada, y tiritan, azules, los astros, a lo lejos”.El viento de la noche gira en el cielo y canta.Puedo escribir los versos más tristes esta noche. Yo la quise, y a veces ella también mi quiso.En las noches como ésta la tuve entre mis brazos. La besé tantas veces bajo el cielo infinito.Ella me quiso, a veces yo también la queria. Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos.Puedo escribir los versos más tristes esta noche. Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.Oír la noche inmensa, más inmensa sin ella. Y el verso cae al alma como al pasto el rocio.Qué importa que mi amor no pudiera guardala. La noche está estrellada y ella no está conmigo.Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos. Mi alma no se contenta com haberla perdido.Como para acercala mi mirada la busca. Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.La misma noche que hace blanquear los mismos árboles. Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise. Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.De otro. Será de otro. Como antes de mis besos. Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero. Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos, mi alma no se contenta com haberla perdido.Aunque éste sea el último dolor que ella me causa, Y éstos sean los últimos versos que yo le escribo. (Posso escrever os versos mais tristes esta noite./ Escrever, por exemplo: “a noite está estrelada/ e tiritam, azuis, os astros, na distância”./ O vento da noite gira no céu e canta/ Posso escrever os versos mais tristes esta noite./ Eu a quis, e ela, às vezes, também a mim./ Em noites como esta a tive entre meus braços./ A beijei tantas vezes debaixo do céu infinito./ Ela me quis, como algumas vezes eu também a ela./ Como não ter amado seus grandes olhos fixos./ Posso escrever os versos mais tristes esta noite./ Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi./ Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela./ E o verso cai na alma como o sereno no pasto./ Que importa que meu amor não pôde mantê-la comigo./ A noite está estrelada e ela não está comigo./ Isso é tudo. Alguém canta lá longe. Muito longe./ Minha alma não se conforma por tê-la perdido./ Como para aproximá-la, meu olhar busca por ela./ Meu coração busca por ela, e ela não está comigo./ A mesma noite que faz branquear as mesmas árvores. / Nós, os daquela época, não somos mais os mesmos./ Já não a amo, é certo, mas quanto a quis./ Minha voz buscava o vento para tocar seu ouvido./ De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos./ Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos./ Já não a amo, é certo, mas talvez ainda a ame. / É tão curto o amor, e tão longo o esquecimento./ Porque em noites como esta a tive em meus braços, minha alma não se conforma por tê-la perdido./ ainda que esta seja a última dor que ela me causa. E estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.)
O segundo momento da obra nerudiana abre-se com este livro célebre. Surrealista na expressão, com versos longos (versículos), em séries enumerativas, com imagens inovadoras e estranhas, mostra um poeta submerso num universo de dores e escombros, ameaçado pelo caos interior e pela falta de sentido da existência. Um forte erotismo percorre os poemas, porém ao inverso, de seus primeiros textos, o amor concreto não responde às questões básicas da vida humana. No fragmento abaixo de Tango del viudo (Tango do viúvo) percebe-se o sofrimento infinito do eu-lírico: Oh, maligna, ya habrás hallado la carta, ya habrás llorado de fúria y habrás insultado el recuerdo de mim madre llamándola perra podrida e madre de perros, ya habrás bebido sola, solitaria, el té del atardecer mirando mis viejos zapatos vacíos para siempre, (...)Maligna, la verdad, qué noche tan grande, qué tierra tan sola! He llegado otra vez a los dormitorios solitarios, a almorzar en los restaurantes comida fria, y otra vez tiro al suelo los pantalones y las camisas, no hay perchas em mim habitación, ni retratos de nadie en las paredes. Cuánta sombra de la que hay en mi alma daria por recobrarte, y qué amenazadores me parecen los nombres de los meses, y la palabra invierno qué sonido de tambor lúgubre tiene. (Oh maligna, já terás achado a carta, já terás chorado de fúria / e terás insultado a memória de minha mãe, / chamando-a de cadela suja e mãe de cachorros, / já terás tomado sozinha, solitária, o chá do entardecer / a espiar os meus velhos sapatos vazios para sempre (...) Maligna, em verdade, que noite tão grande, que terra tão só! / Cheguei mais uma vez aos dormitórios solitários, / a almoçar comida fria nos restaurantes, e uma vez ainda / atiro no chão as calças e as camisas, / não há cabides no meu quarto, nem retrato de ninguém nas paredes. / Quanta sombra da que existe em minha alma não daria para recobrar-te, / e que ameaçadores me parecem os nomes dos meses, / e a palavra inverno tem um som de tambor lúgubre.)
A obra de Neruda não foi tão lida no Brasil como na América Hispânica, pelas razões óbvias do idioma, mas exerceu forte influência na poesia brasileira. A maioria dos poetas modernistas sofreu, em maior ou menor grau, o influxo do protesto social e do estilo metafórico do escritor chileno. A rosa do povo, de Carlos Drummond de Andrade, por exemplo, é nerudiana no engajamento e na linguagem altissonante de muitos poemas. “Que Neruda me dê sua gravata chamejante” –grita o poeta de Itabira. Este mesmo grito está implícito na poesia de Vinícius de Moraes que, em certo sentido(excessos verbais, registro do social, canto do amor concreto, gosto pelo soneto, identificação com o público jovem) é o nosso Neruda. Nos anos de 1960, entre os poetas participantes e politizados como Ferreira Gullar, Thiago de Melo, Geir Campos e Affonso Romano de Sant’Anna, a presença do escritor chileno era visível. Assim como na poesia de Carlos Nejar, cuja força metafórica se assemelha, às vezes, a de seu mestre. O QUE LER Salvo melhor juízo, as traduções de sua obra foram poucas.A versão mais abrangente para a língua portuguesa de sua poesia deu-se apenas a partir da década de 1980, através da Editora LPM, que usando tradutores do porte de Paulo Mendes Campos, Olga Savary e Carlos Nejar realizou um belo empreendimento editorial. Hoje, infelizmente, a maior parte destas obras encontra-se fora de catálogo, à exceção de Cem sonetos de amor, A barcarola e Últimos poemas. Publicados sob a forma de livros de bolso, custam menos de 10 reais cada um. Os cem sonetos são desiguais em qualidade, mas pelo menos umas duas dezenas deles cristalizam com perfeição o gosto pelas imagens surpreendentes e a exaltação do sentimento amoroso, tão a gosto do poeta. Não deixe de lê-los. Infelizmente não existe atualmente no mercado edição dos Vinte poemas de amor e uma canção desesperada, publicada originalmente pela Jose Olympio. Você pode encontrá-la, no entanto, em sebos da própria LPM. Apesar das restrições de alguns críticos, se você, leitor, é jovem, gosta de poesia e está apaixonado (ou desiludido ou solitário) não deixe de ler esta obra. Ela vai falar diretamente a seu coração e os mesmos frêmitos, a mesma exaltação e a mesma melancolia que milhares de rapazes e moças vem experimentando há 80 anos se repetirão com você. Contudo, para quem deseja uma mínima visão de conjunto de Pablo Neruda existe a Antologia Poética de Pablo Neruda, R$ 32,50, da José Olympio, com a ótima tradução de Eliane Zagury. Agora se você consegue ler em espanhol, a Losada, da Argentina e a Anaya, da Espanha, têm boas antologias e relativamente baratas. Você pode comprá-las pela Internet. Todos já sabem que poesia boa é aquela lida no original. Há ainda, é claro, um filme extremamente simpático O carteiro e o poeta, de grande êxito internacional, baseado no romance de Antônio Skármeta, originalmente intitulado Ardente paciência, mas, em função do sucesso cinematográfico, foi reeditado no Brasil com o mesmo nome do filme. Ainda que o cenário do filme não seja o mesmo do romance (troca-se o Chile pela Itália) o resultado é positivo. Ambos o induzirão à leitura da poesia de Neruda.
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