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Machado de Assis- parte I

MACHADO DE ASSIS (l839-1908)

Vida
Joaquim Maria Machado de Assis nasceu no morro do Fluminense, no Rio de Janeiro, filho de um pintor de paredes e de uma lavadeira, sendo assim o nosso primeiro escritor a não proceder da elite rural ou da pequena burguesia urbana. Sua mãe morreu cedo e o pai casou-se desta vez com uma doceira. Alguns anos depois, morreu também o pai e a vida tornou-se bastante dura para o menino tímido e franzino. Aprendera a ler e a escrever com a madastra. Para sobreviver, vendia doces e caramelos na frente de colégios ricos. Uma infância difícil. Mais tarde procurou esquecê-la, borrá-la, aristocratizando-se silenciosamente, no dizer de um biógrafo. Ao renegar seu passado e assumir uma condição pequeno-burguesa, misturou-se aos letrados da classe senhorial. Exteriormente adaptava-se às elites, mas interiormente era um estranho naquele mundo.

Manuel Antonio de Almeida o auxiliou muito. Aprendiz de tipógrafo na Imprensa Oficial, dirigida pelo autor de Memórias de um sargento de milícias, tinha dezesseis anos ao receber conselhos literários, livros e cartas de apresentação. Logo depois, Machado começou a escrever poesias e a colaborar em vários jornais. Por algum tempo, este autodidata exerceu a função de revisor numa editora, entrando em contato com os círculos intelectuais do Rio. No ano de 1864 estreou com o volume de poemas: Crisálidas. Em seguida, iniciou a carreira de funcionário público, tornando-se um burocrata discreto e modelar. Em 1880, já era oficial-de-gabinete do Ministério da Agricultura. Depois, promoveram-no a Diretor- Geral do Ministério da Aviação, o ponto máximo que um funcionário de carreira poderia atingir.

Casou-se com dona Carolina de Novais, uma senhora culta e recatada, resultando daí uma relação harmoniosa. Os ciúmes e as traições conjugais seria relegados para a literatura. Contudo, no início de sua ficção, tratou de abrandar as crises morais e sociais dos personagens, conforme exigia o gosto romântico, ainda predominante. Seu primeiro livro de contos (Contos fluminenses) e seu primeiro romance (Ressurreição) sedimentaram a imagem de um escritor que utilizava com correção e propriedade a língua portuguesa e que preferia os relatos psicológicos às tramas de ação constante.

Entre as várias singularidades de Machado de Assis, encontra-se a surpreendente mutação ocorrida em sua narrativa. Após uma safra de romances e contos quase sempre medíocres, ele aceitou o convite de seu demônio interior, como bem observou Barreto Filho, e entregou-se a uma aventura literária de genialidade insuperável. Entre 1878, ano da publicação de Iaiá Garcia, que encerrou a sua primeira fase, e l880, ano que veio à luz, na imprensa, sob a forma de folhetim, o romance Memórias póstumas de Brás Cubas, algo se processou na subjetividade deste homem. Porque as mudanças em sua ficção foram tão profundas que parecem indicar algo mais que um amadurecimento intelectual. Em Machado houve uma verdadeira revolução.

Muitos historiadores literários tentam atenuar estas diferenças, vendo em suas obras-primas somente o desabrochar de características já latentes na fase inicial. Entre Helena, por exemplo, e Quincas Borba haveria uma certa linha de continuidade e assim por diante. Entretanto, quem lê esses dois romances julga que foram produzidos por autores distintos, tamanho o abismo que os separa. Já aqueles que defendem a idéia de uma grande ruptura na ficção machadiana têm dificuldades para explicá-la do ponto de vista biográfico.

Sabe-se pouco a respeito do que ocorreu com ele entre l878 a l880. A epilepsia que alguns apontam como causa dessa transformação não a explica pois de há muito já vinha se manifestando. Durante este período, é verdade, o escritor esteve muito doente e a proximidade da morte deve ter colocado em xeque as suas certezas. Outros partem para a tese fantasiosa de que este mestre da dissimulação, que conhecia tudo da hipocrisia humana, fingiu. Teria fingido durante toda a década de 1870, produzindo obras convencionais para ganhar prestígio e estima do público. No entanto, ninguém está seguro do que realmente aconteceu com este indivíduo tímido e silencioso que mudou para sempre a nossa literatura. No único texto que parece ter deixado a respeito da grande transformação, ele registrou:

Aos vinte anos, começando a minha jornada pela vida pública que Deus me deu, recebi uma porção de idéias feitas para o caminho. Se o leitor tem um filho prestes a sair faça-lhe a mesma coisa. Encha uma pequena mala com idéias e frases-feitas, abençoe o rapaz e deixe-o ir. Não conheço nada mais cômodo. Chega-se a uma hospedaria, abre-se a mala, tira-se uma daquelas coisas e os olhos dos viajantes faíscam logo, porque todos eles as conhecem desde muito, e crêem nelas, às vezes mais do que em si próprios. É um modo breve e econômico de fazer amizades. Foi o que me aconteceu. Trazia comigo nas malas e nas algibeiras uma porção dessas idéias definitivas. E vivi assim, até o dia em que por irreverência do espírito, ou por não ter mais nada que fazer, peguei de um quebra-nozes e comecei a ver o que havia dentro delas. Em algumas, quando não achei nada, achei um bicho feio e visguento.”

Nas décadas de 1880, 1890 e 1900, suas obras continuaram obtendo êxito, mesmo que os contemporâneos não lhe percebessem todo o teor corrosivo. Festejado, quase idolatrado, não foi difícil a este espírito antiacadêmico fundar e se tornar presidente perpétuo da Academia Brasileira de Letras, culminando uma trajetória marcada por honrarias, aplausos e contínua ascensão. Do menino pobre ao escritor consagrado, percebe-se a linha vertical de seu talento e de sua perseverança. Como disse Mário de Andrade, “tudo o que quis vencer, venceu”.

A PRIMEIRA FASE DA FICÇÃO

“Alguma coisa escapa ao naufrágio das ilusões”

Obras: Contos fluminenses (1870); Ressurreição (1872); Histórias da meia-noite (contos-1873); A mão e a luva (1874); Helena (1876); Iaiá Garcia (1878).

Após a publicação de um livro de contos inexpressivos e de fundo romântico, Machado de Assis lança o mais interessante relato de primeira fase: Ressurreição. Apesar do convencionalismo da linguagem, esse romance inaugural rompe com o nacionalismo literário, com a ênfase na descrição da natureza e dos costumes, com a novela histórica e indianista e com o regionalismo de superfície que tinham dominado a ficção brasileira durante o Romantismo. O prefácio do livro é bem ilustrativo da busca do autor por um novo caminho:

Não quis fazer romance de costumes; tentei o esboço de uma situação e o contraste de dois caracteres; com esses simples elementos busquei o interesse do livro.

Ao propor o esquadrinhamento da alma humana como alvo de sua narrativa, ele está anunciando um tipo de análise psicológica que apenas os realistas europeus vinham realizando. No entanto, seu projeto não se realiza adequadamente: a trama banal, cheia de fórmulas românticas derrota a investigação íntima dos personagens.

Nos romances seguintes da primeira fase, há um retrocesso. O contraste de caracteres - tentado em Ressurreição – cede lugar a um romantismo mal feito, porque o autor sequer possui um espírito verdadeiramente sentimental e idealizante da realidade. Nem realista, nem romântico, ele parece um escritor condenado à mediania e à relativa obscuridade.

Resumidamente, os seus principais defeitos são:

A) CONFORMISMO COM OS VALORES DA ÉPOCA

Ao aceitar e dar como justas as conveniências e hipocrisias que permitem a ascensão e o triunfo dos indivíduos, Machado acaba legitimando a maneira de viver das elites imperiais. Ocasionalmente, ele desconfia destes valores, mas em seguida, como que pedindo desculpas pela impertinência, os celebra e justifica. Gustavo Corção disseca bem esse conservadorismo moral:

É um autor que saboreia o sucesso produzido pela concordância com os padrões vigentes. Os quatro romances dessa época, os três últimos mais do que o primeiro são obras de um moralista que não se esconde, que intervém, e que dita ao leitor os princípios com que há de julgar as pessoas e as situações. Machado crê piamente nas instituições e na moral do século

B) ESQUEMATISMO PSICOLÓGICO

Tirando Félix, o personagem principal de Ressurreição, a maioria de seus protagonistas não apresenta uma análise psicológica mais complexa. Ao contrário da proposta do autor, seus tipos revelam uma tediosa linearidade de comportamentos, são bons ou maus – conforme a galeria convencional da época – e raramente revelam abismos interiores, mostrando caracteres bastante simplificados.

C) LINGUAGEM CARREGADA DE LUGARES –COMUNS

Há alguns bons momentos estilísticos em sua primeira fase, porém geralmente descobrimos um escritor que se compraz na repetição de frases feitas e imagens inexpressivas, quando não de mau-gosto, como neste trecho de Helena: “Estima-te, é certo; mas a estima é a flor da razão e eu creio que a flor do sentimento é muito mais própria no canteiro do matrimônio.” Também no plano da linguagem, ele está muito longe da segunda fase.



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