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Machado de Assis- parte II
“Nada escapa ao naufrágio das ilusões” Obras: Memórias póstumas de Brás Cubas (1881); Papéis avulsos (contos-1882) Histórias sem data (contos-l884); Quincas Borba (1891);Várias histórias (contos-l886) Dom casmurro (1899); Esaú e Jacó (1904); Memorial de Aires (1908) Nestas quase três décadas de produção, Machado de Assis vai inventar o romance brasileiro. Ainda que reconheçamos a importância histórica de ficcionistas como José de Alencar e Manuel Antonio de Almeida, as diferenças entre eles e o autor de Dom Casmurro são infinitas. Nos primeiros há a cor local, o projeto de um romance nacional, a descrição dos costumes, o gosto pelo cenário, pela exterioridade. Em Machado, o Brasil é um sentimento íntimo, e o ser humano é visto, muitas vezes, além das circunstâncias históricas e geográficas. Entre as principais características desta sua segunda fase encontramos: A) DESTRUIÇÃO DA NARRATIVA LINEAR Uma impressionante revolução formal começa em Brás Cubas e prosseguirá nas obras seguintes, sobremodo em Dom casmurro. A história já não é o eixo exclusivo da narrativa, não segue mais uma linha ininterrupta, dissolve-se a sua linearidade. Textos fragmentados, capítulos curtos, multiplicidade de episódios, como se o ficcionista tivesse perdido o controle do romance. O aparente desgoverno da narração, estilhaça também os personagens que, em função dos sucessivos cortes na intriga, começam a dar a impressão de personalidades ambíguas, descontínuas, obrigando o leitor a complementá-las, preencher as suas lacunas, escolher um sentido para elas. É o caso de Sofia, de Capitu e de tantas outras. O modo de contar a história torna-se pois tão ou mais importante do que a própria história. A fala do narrador passa a ser a própria essência do romance. A todo instante ela se faz ouvir através de interrupções explícitas, digressões, comentários a margem do texto, pontos de vista contraditórios sobre o significado do livro, ironias ao leitor. Com tal procedimento, Machado prepara jogos e armadilhas, nos arrasta em uma ou outra direção, dilui todas as certezas e constrói um mundo onde tudo é movediço e relativo. A sutileza de seu humor atinge o próprio formular da obra, como nesta passagem de Memórias póstumas: Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho o que fazer; e realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu leitor. Tu tens a pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam á direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem...B) ANÁLISE PSICOLÓGICA A atenção do autor concentra-se em situações que desvelam a interioridade dos protagonistas. Os acontecimentos exteriores, a natureza e cenário são apenas descritos quando provocam reações psicológicas. A todo instante, encontramos sutis registros de mudanças na alma, múltiplas situações de descoberta interior, finas percepções sobre os mistérios do relacionamento humano psicológicas, surpreendentes observações sobre comportamentos, além de pequenas cenas com intensa força sugestiva, onde afloram emoções e sentimentos sempre tratados com delicadeza. No capítulo 33 de Dom Casmurro, temos um belíssimo exemplo: enquanto Bentinho penteia Capitu, as hesitações, a timidez e o erotismo dos adolescentes vão se evidenciando no texto: “Vamos ver o grande cabeleireiro”, disse-me rindo. Continuei a alisar os cabelos com muito cuidado, e dividi-os em duas porções iguais, para compor as duas tranças. Não as fiz logo, nem assim depressa, como podem supor os cabeleireiros de ofício, mas devagar, devagarinho, saboreando pelo tato aqueles fios grossos que eram parte dela. (...) Os dedos roçavam na nuca da pequena ou nas espáduas vestidas de chita, e a sensação era um deleite. Mas, enfim, os cabelos, iam acabando, por mais que eu os quisesse intermináveis. não pedi ao céu que eles fossem tão longos como os da Aurora(...), mas desejei penteá-los por todos os séculos dos séculos, tecer duas tranças que pudessem envolver o infinito por um número inominável de vezes.(...) Enfim, acabei as duas tranças. Onde estava a fita para atar-lhe as pontas? Em cima da mesa, um triste pedaço de fita enxovalhada. Juntei as pontas das tranças, uni-as por um laço, retoquei a obra, alargando aqui,, achatando ali, até que exclamei: - Pronto! - Estará bom? - Veja no espelho. Em vez de ir ao espelho, que pensais que fez Capitu? Não vos esqueçais que estava sentada de costas para mim. Capitu derreou a cabeça, a tal ponto que me foi preciso acudir com as mãos para ampará-la; o espaldar da cadeira era baixo. Inclinei-me depois sobre ela, rosto a rosto, mas trocados, os olhos de um na linha da boca do outro. Pedi-lhe que levantasse a cabeça, podia ficar tonta, machucar o pescoço. Cheguei a dizer que estava feia; nem esta razão a moveu. - Levanta, Capitu! Não quis, não levantou a cabeça e finalmente ficamos assim a olhar um para o outro até que ela abrochou* os lábios, eu desci os meus, e... Grande foi a sensação do beijo; Capitu ergueu-se, rápida, eu recuei até a parede com uma espécie e vertigem, sem fala, os olhos escuros. Quando eles me clarearam, vi que Capitu tinha os seus no chão. Não me atrevi a dizer nada; ainda que quisesse, faltava-me língua. Preso, atordoado, não achava nem ímpeto que me descolasse da parede e me atirasse a ela com mil palavras cálidas e mimosas...
Uma das idéias centrais de Machado de Assis é a de que existe uma descontinuidade entre a aparência, exigida pela opinião pública, e a essência mais íntima dos indivíduos. Disso nasce o seu método preferencial de análise que é o desmascaramento, como se os seus personagens vivessem continuamente uma impostura e precisassem representar papéis que não corresponderiam a sua alma interior. Entre os gestos públicos e a sua subjetividade, cada ser humano, - muitas vezes inconscientemente. - tece uma infinidade de véus, mentiras, logros e falcatruas. A tarefa do escritor é desnudar, eliminar os véus, deixar os personagens moralmente despidos. A grosso modo, poderíamos afirmar que este processo se dá assim: APARÊNCIA
REALIDADEAmor
Incapacidade para o amorSolidariedade
EgoísmoAutenticidade
DissimulaçãoMoralidade
AmoralidadeGenerosidade
AmbiçãoRacionalismo
InstintoOrdem
Desordem O fascinante em Machado de Assis é que sua análise não esgota a psicologia dos personagens. Há sempre algo de imponderável, de inexplicável nas ações humanas. Algo que o ficcionista não quer ou não pode decifrar, uma oscilação nebulosa, um ponto de vista difuso. Afinal, como definir Brás Cubas, Virgília, Bentinho, Flora? Mesmo nos relatos em que o autor parece onisciente, revelando quase tudo a respeito da existência de seus protagonistas, como em Quincas Borba ou em Esaú e Jacó, ficam zonas de obscuridade e mistério, à espera de interpretação. C) ANÁLISE DOS VALORES SOCIAIS A investigação e a posterior crítica do contexto social se erguem como pilares de sua ficção. Machado não foi apenas um fino analista de almas, mas alguém que compreendeu a estrutura profunda de sua época. Sua consciência da realidade histórica brasileira, da pequenez de nossa classe dominante - a quem tanto repugnava o trabalho quanto a ousadia empresarial - gerou personagens e situações reveladoras de inércia, mesquinharia e mediocridade. Sobre a escravidão deixou pelo menos duas obras-primas, os contos Pai contra mãe e O caso da vara. Também sobre o quadro político deixou algumas páginas inesquecíveis e sarcásticas, porém a maior contundência social de seus textos aparece de maneira implícita ou simbólica. Como entender, por exemplo, o bando de parasitas que cerca e explora este pobre milionário caipira, que é o professor Rubião, (do romance Quincas Borba) na Corte do Rio de Janeiro, sem entender a elite escravocrata, preguiçosa e incapaz que mandou no país pelo menos até a proclamação da República? Mesmo a “epopéia da tolice e da mesquinhez” que é a vida de Brás Cubas não precisa ser vista apenas como resultado inexorável da condição humana, mas também como reflexo de uma camada dirigente que sempre desconheceu a grandeza e a generosidade de um projeto nacional. O ciúme de Bentinho não é somente uma doença do indivíduo, porém o tormento de um senhor de linhagem patriarcal, derrotado em suas intenções de posse. De certa forma, a estrutura da sociedade persiste na existência íntima de cada personagem. Às vezes, contudo, as relações sócio-econômicas são apresentadas objetivamente. A ânsia parasitária das elites e classes médias nativas torna-se visível em Quincas Borba, quando todos procuram usufruir alguma coisa da fortuna do ingênuo Rubião: Tinham-se feito uma lenda. Diziam-no discípulo de um grande filósofo, que lhe legara imensos bens, - um, três, cinco mil contos. Estranhavam alguns que ele não tratasse nunca de filosofia, mas lenda explicava esse silêncio pelo próprio método filosófico do mestre, que consistia em ensinar somente aos homens de boa vontade. Onde estavam esses discípulos? Iam à casa dele, todos os dias, - alguns duas vezes, de manhã e de tarde; e assim ficavam definidos os comensais. não seriam discípulos, mas eram de boa vontade. Roíam fome, à espera, e ouviam calados e risonhos os discursos do anfitrião. Entre os antigos e os novos, houve tal ou qual rivalidade, que os primeiros acentuaram bem, mostrando maior intimidade, dando ordens aos criados, pedindo charutos, indo ao interior, assobiando, etc. Mas o costume os fez suportáveis entre si, e todos acabaram na doce e comum confissão das qualidades do dono da casa. Ao cabo de algum tempo também os novos lhe deviam dinheiro, ou em espécie, - ou em fiança no alfaiate, ou no endosso de letras, que ele pagava às escondidas, para não vexar os devedores. Quincas Borba (o cão) andava ao colo de todos. Dava estalinhos, para vê-lo saltar; alguns chegavam a beijar-lhe a testa; um deles, mais hábil, achou modo de o ter à mesa de jantar ou almoço, sobre as pernas, para lhe dar migalhas de pão. O olhar crítico sobre a sociedade do II Império, entretanto, não torna o escritor um realista comprometido com alguma causa. Até porque ele vai criar personagens que ultrapassam o ambiente e a luta entre as classes por possuírem uma natureza humana relativamente imutável. De certa maneira, para ele, a vida social apenas atualiza e intensifica as características que os seres carregam para sempre. Tal concepção lhe permite ser um escritor tipicamente carioca e brasileiro, e também o mais universal de todos os nossos artistas, por investigar a condição humana além de suas circunstâncias históricas. D) PESSIMISMO O pessimismo de Machado foi a decorrência lógica de sua lucidez. Depois de constatar as várias perversões da natureza humana e a degradação dos valores das elites brasileiras, sem que, em troca, vislumbrasse qualquer alternativa em outro grupo social, em outro sistema político, sem consolo religioso ou ideológico, restou-lhe somente a visão desencantada. O final de Memórias póstumas é o mais conhecido epílogo de um romance em toda a nossa história literária: Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais, não padeci a morte de Dona Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve nem míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quites com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulos de negativas: -- Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria. O ceticismo atinge e destrói qualquer perspectiva redentora para a humanidade. Esta concepção niilista (do latim, nihil, nada) aparece no famoso O delírio, também do romance Memórias póstumas de Brás Cubas, e do qual selecionamos este trecho significativo: Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que se passava diante de mim - flagelos e delícias -, desde essa coisa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com agulha da imaginação; e essa figura - nada menos que a quimera da felicidade - ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se como uma ilusão. Um relativismo radical O crítico Roberto Scharwz fala na “volubilidade do narrador” como elemento do pessimismo machadiano. Isto porque o narrador afirma determinada idéia e, em seguida, a destrói. Assim ele faz com todos os sistemas e filosofias, anulando a todos. Nenhuma verdade é absoluta, nada é eterno ou definitivo. Mesmo a idéia de Deus não passa de uma ausência, embora o autor valha-se de múltiplas referências bíblicas, especialmente as extraídas do desolador Livro dos Eclesiastes. As citações religiosas são tiradas de seu contexto espiritual e servem apenas para a análise existencial dos personagens ou meramente para os jogos irônicos do narrador. Já a ciência é arrasada com sua arrogância e pretensão em O alienista. Também as ideologias redentoras e as utopias sociais não passam de logros desprezíveis. Quanto a filosofia, geralmente considerada a forma suprema da atividade intelectual, nos é apresentada sob um manto de deboche e paródia, como por exemplo na figura de Quincas Borba e sua Teoria do Humanitismo. Tudo na vida de cada indivíduo depende de seus interesses. Eles são os móveis dos atos humanos. O egoísmo, a vaidade, o instinto sexual, a luta pelo dinheiro e a sede de poder impelem as criaturas a uma guerra surda contra os outros seres, contra a natureza e contra o tempo. Guerra inglória e sem grandeza. A maioria dos personagens não ultrapassa a mais deprimente mediocridade. Os generosos, como o doutor Simão Bacamarte, o médico dos alienados mentais de Itaguaí, em O alienista, talvez o sejam pelo desequilíbrio de suas faculdades mentais. Mas nenhum deles, vitoriosos ou derrotados, encontra um autêntico sentido para a existência.
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