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Machado de Assis- parte III


Os vários graus de pessimismo

O ceticismo próximo da zombaria e da frieza emocional, que encontramos em Memórias Póstumas e Quincas Borba, começa a ser alterado em Dom Casmurro. Aqui o escárnio cede lugar à amargura e ao sofrimento. Ao inverso dos demais romances e contos da segunda fase, o drama pessoal de Bentinho e Capitu já não desperta no leitor sorrisos irônicos. Há nesta obra-prima um certo acento trágico - a aparente inevitabilidade da destruição do casal - que nos comove e entristece. Em Esaú e Jacó o escritor não alcança o mesmo efeito dramático, contudo o pessimismo também é menos corrosivo.

Já em Memorial de Aires, a visão cética praticamente se desfaz em ternura humana e melancolia. A perda da esposa, Carolina, e a proximidade da morte arrastam o autor para uma concepção mais amena e quase poética da existência. Esta serenidade, revestida de leve tristeza, levou o crítico Augusto Meyer a julgar o referido romance como “obra produzida pelo tédio”. Outros críticos, no entanto, não endossam a sua opinião, vendo no Memorial um “fino e belo livro” (José Veríssimo).

E) HUMOR

Tanto as análises psicológica e social, mas principalmente a visão pessimista, se edificam a partir do sense of humour de Machado de Assis. Mais do que as indiscutíveis influências de Swift e de Sterne – ficcionistas ingleses admirados pelo brasileiro – a opção pelo humor é um traço peculiar de sua concepção de mundo e de literatura. Este gosto pela ironia permite-lhe um distanciamento e uma relativa neutralidade fase aos desatinos humanos e ao absurdo da existência. Em vez de ranger os dentes e gritar contra as circunstâncias que arrastam os indivíduos para o “grande vazio”, prefere a corrosão humorística. Diz as coisas mais terríveis em tom de brincadeira.

Assim, as discrepâncias entre a alma exterior e a alma interior, os interesses mesquinhos, as pequenas perversidades do cotidiano, a impossibilidade de ações com grandeza, a hipocrisia a vaidade e o caráter mistificador das ideologias – temas dominantes de sua segunda fase – são abordados através de uma concepção irônica de revelação e de desnudamento da realidade. Um crítico observou que em certas narrativas, como Memórias póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e O alienista, ri-se o tempo inteiro, porém, no final das mesmas, a impressão que fica é a de desolação.

O sutil humor do ficcionista atinge o próprio leitor, conforme a advertência no prólogo de Memórias póstumas: “A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se não te agradar, pago-te com um piparote e adeus.” Este humor é ampliado pela capacidade de Machado em produzir sentenças inesperadas a respeito das vivências de seus protagonistas:

Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis. (MPBC)
Conhecia as regras do escrever, sem suspeitar as do amar; tinha orgias de latiam e era virgem de mulheres. (DC)

F) PERFEIÇÃO EXPRESSIVA

A prosa de ficção de Machado de Assis só atinge a perenidade por apresentar uma linguagem inventiva, da qual o autor extrai todas as possibilidades de expressão, todas as nuanças e sutilezas.

Mais de um especialista notou que ele realiza uma síntese entre os recursos tradicionais de estilo – havia lido de forma exaustiva os clássicos portugueses – e as inovações da língua falada culta do Brasil, na segunda metade do século XIX. Daí o delicioso sabor de seu estilo, ora levemente arcaico, ora atualíssimo.
Se parte do vocabulário e algumas construções sintáticas parecem antigas, a sensação dominante é a de modernidade estilística. Seu repúdio à retórica, ao adjetivo banal, à retórica vazia e aos pormenores descritivos está próximo do gosto contemporâneo. A postura irônica que mantém frente às frases-feitas e os lugares-comuns da linguagem convencional antecipa a luta da geração de 1922 contra o academicismo.

Além disso, à precisão vocabular e ao rigor da frase, agrega um desconcertante poder de criação de imagens, entre as quais aquela que se refere aos “olhos de ressaca” de Capitu é a mais lembrada. De certa maneira, Machado alcança os limites do potencial semântico das palavras. Estas, com freqüência, abrem-se em constelação de significados e ajudam a ampliar o clima sinuoso e requintado dos relatos. Trata-se, pois, de um escritor que tem plena consciência do processo de seleção e ordenação vocabular e que luta incessantemente pela perfeição formal.

OUTROS GÊNEROS

A POESIA
Na poesia (Crisálidas, Falenas, Americanas) o escritor evoluiu do estilo romântico, que não se coadunava com sua personalidade, para um quase parnasianismo de duvidosa categoria. Não que fosse um mau poeta. Ao contrário, em seus poemas observa-se a marca do talento. Só que não é um talento complementado por autêntica sensibilidade poética, por uma carga emotiva e subjetiva que, afinal de contas, constitui a raiz da lírica.

Nota-se em Machado o equilíbrio entre forma e conteúdo, o domínio da técnica expressiva e a propriedade da linguagem. Contudo, estes recursos parecem acentuar ainda mais a carência de emoção e a insipidez existencial de seus versos, que são frios e bastante convencionais. Uma das poucas exceções é o soneto A Carolina, dedicado à esposa morta, cuja primeira estrofe transcreve-se aqui:

Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei; pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

A CRÍTICA LITERÁRIA

Machado de Assis exerceu de maneira eventual a crítica literária. Frutos de uma intuição profunda, seus comentários são quase sempre corretos, quando não brilhantes. Seu ensaio a respeito da literatura brasileira, Instituto de nacionalidade, sobressai-se como a mais arguta análise dos problemas e do significado de nossa produção literária, no século XIX.

Quem examina a atual literatura brasileira reconhece-lhe logo, como primeiro traço, certo instinto de nacionalidade. Poesia, romance, todas as formas literárias do pensamento buscam vestir-se com as cores do país, e não há negar que semelhante preocupação é sintoma de vitalidade e abono de futuro. As tradições de Gonçalves Dias, Porto Alegre e Magalhães são assim continuadas pela geração já feita e pela que ainda agora madruga, como aqueles continuaram as de José Basílio da Gama e Santa Rita Durão.
Escusado é dizer a vantagem deste universal acordo. Interrogando a vida brasileira e a natureza americana, prosadores e poetas acharão ali o farto manancial de inspiração e irão dando fisionomia própria ao pensamento nacional. Esta outra independência não tem Sete de Setembro nem campo de Ipiranga; não se fará num dia, mas pausadamente, para sair mais duradoura; não será obra de uma geração nem duas; muitas trabalharão para ela até perfazê-la de todo.(...)
Devo acrescentar que neste ponto manifesta-se às vezes uma opinião, que tenho por errônea: é a que só reconhece espírito nacional nas obras que tratam de assunto local, doutrina que, a ser exata, limitaria muito os cabedais da nossa literatura. Gonçalves Dias, por exemplo, com suas poesias, não seria admitido no panteão nacional: se excetuarmos Os Timbiras, os outros poemas americanos, e certo número de composições, pertencem os seus versos pelo assunto a toda a mais humanidade, cujas aspirações, entusiasmos, fraquezas e dores geralmente cantam (...) O mesmo acontece com os seus dramas, nenhum dos quais tem por teatro o Brasil. Iria longe se tivesse de citar outros exemplos de casa, e não acabaria se fosse necessário recorrer aos estranhos.
Não há duvida que uma literatura, sobretudo uma literatura nascente, deve principalmente alimentar-se dos assuntos que lhe oferece a sua região; mas não estabeleçamos doutrinas tão absolutas que a empobreçam. O que se deve exigir do escritor, antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço.

CRÔNICA E TEATRO

Machado de Assis também cultivou de maneira sistemática a crônica, na qual percebemos um observador irônico da vida cotidiana. Além disso, dedicou-se no início de sua carreira, ao teatro. Como dramaturgo, demonstrou certa incapacidade de dominar a carpintaria teatral. Suas comédias (Quase ministro, O protocolo, Os deuses de casaca) possuem um tom moralizante, são bem escritas, mas pecam por um excesso de retórica, isto é, pela falta de naturalidade nos diálogos. São mais para serem lidas do que representadas.



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