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Guia de leitura de Dom Casmurro- parte I

GUIA DE LEITURA DE DOM CASMURRO

Se você já leu o romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, tente discutir – consigo próprio ou com os colegas que também o leram - alguns dos elementos essenciais presentes no texto. Leve em conta que, nele, a realidade tem múltiplas faces, inúmeros significados, visões conflitantes. Portanto, trata-se de uma obra aberta, com várias possibilidades interpretativas. Cabe a você escolher uma entre elas. E é provável que seus amigos optem por outras linhas de análise. Tudo isso porque Dom Casmurro apresenta aquilo que escritor italiano Italo Calvino estabeleceu como princípio de todo o grande clássico: Um clássico é um livro que nunca termina de dizer aquilo que tinha para dizer.

1-Dom Casmurro é a história de um homem que supõe que sua esposa o traiu com o melhor amigo. Primeiramente, o narrador revira o passado mais remoto (o da juventude) em busca de provas que justifiquem a suposta tendência de Capitu à traição. Depois, no passado mais próximo (o da vida adulta), ele encontra e apresenta as provas, que entende como definitivas, do adultério. E, em função desta certeza, destrói o casamento.

a- Na sua opinião, Bento Santiago é um narrador totalmente insuspeito. Por quê?
Relembre as desconfianças do personagem em relação às ações de Capitu, na primeira parte do romance, que corresponde ao namoro juvenil. Quais as cenas onde isso fica mais visível?

b- Aponte as provas principais que Bento julga dispor, já depois de casado, do adultério (hipotético ou real) de Capitu.

2-Em sua exposição, Bento afirma o adultério, mas a narrativa apresenta tantos paradoxos e contradições que nada se esclarece totalmente para o leitor. Todos os elementos que compõem a acusação possuem aspectos nebulosos e dúbios. Há sempre uma forte relativização em tudo o que o narrador afirma, pois cada registro da traição remete à possibilidade contrária. É como se houvesse dois textos na composição do romance. No primeiro, Bento, o narrador, assegura ao leitor a existência do adultério. No segundo texto – menos explícito, e nem sempre perceptível– ele registra os seus ciúmes doentios e quase paranóicos. No primeiro texto, Capitu traiu. No segundo, provavelmente não.

a- Você concorda com aquilo que Bento declara a respeito do “crime” de Capitu ou com o aquilo ele deixa subentendido, isto é, a possibilidade de inocência da esposa?

b- Você seria capaz de identificar no romance passagens que evidenciam esta duplicidade do narrador, ou seja, uma revelação “definitiva” da traição sempre seguida, ou mesmo antecipada, por uma referência que coloca em xeque as suas próprias convicções?

3- A ambigüidade do romance está centrada também no confronto entre a aparência e a essência da alma humana. O que, em dado momento, é apresentado como verdade pode ser apenas uma ilusão, um engano de ótica. O mundo concreto é movediço e não tem um único sentido, uma única explicação. Por não conseguir perceber a interioridade dos demais, os indivíduos se vêem, muitas vezes, conduzidos por versões equivocadas a respeito das intenções e das ações dos outros.

a- Releia o capítulo CXXIV para perceber com clareza o que se afirmou acima.

b- Assinale algum outro exemplo no romance que confirme este jogo entre aparência e essência.


c- Comente o texto abaixo do crítico Antonio Candido:

Não importa muito se a convicção de Bento seja falsa ou verdadeira, porque a conseqüência é exatamente a mesma nos dois casos: imaginária ou real, ela destrói a sua casa e a sua vida.

4- O crítico Flávio Loureiro Chaves afirma que o tema de Dom Casmurro não é o adultério, e sim que este é apenas um pretexto para atingir numa região mais profunda das desgraças humanas, o problema do ciúme, entrevisto como deformação patológica. Segundo o mesmo crítico, Dom Casmurro é o romance da dúvida porque embora o personagem expresse a convicção de ter desvendado um crime, o acúmulo de ambigüidades no texto mantém a incerteza e o caráter nebuloso do acontecido.

a- Você concorda com a opinião do referido crítico? Por que?

b- Releia o capítulo CXXXV, onde Bento Santiago vai assistir a uma representação de Otelo. Influenciado pelo astucioso Iago, o mouro Otelo vive o tormento do ciúme sem qualquer base real, pois sua esposa Desdêmona o ama. Por se considerar vítima de uma traição, Otelo mata a mulher e depois se suicida. Qual é a conclusão que Bento tira da peça?

c- Você acha que o sofrimento do narrador é real, mesmo que a causa do mesmo possa ser imaginária? Exemplifique com alguma passagem do romance.

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