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Guia de leitura de Dom Casmurro- parte II
5- Há duas tendências interpretativas dominantes sobre a intensidade e a brutalidade dos ciúmes do protagonista. Uma, mais sociológica, aponta para o caráter de senhor patriarcal de Bento Santiago, que veria a mulher como propriedade sua; outra, mais psicológica, atribui-lhe uma insegurança doentia que o leva a desconfiar de todo e de todos. a- Na sua opinião, Bento age assim por causa do sentimento de posse nascido de sua visão patriarcalista? Ou a origem deste sentimento que o infelicita vem de uma personalidade enferma? Ou o seu ciúme é compreensível (e natural) face à paixão extrema que nutre por Capitu? Ou, ainda, a sua exasperação resulta da soma de todos estes fatores? b- Supondo que Capitu houvesse traído efetivamente o seu marido, você julga que as decisões de Bento e sua frieza sentimental (que o leva a comemorar o desaparecimento das testemunhas do suposto crime) não seriam – do ponto de vista ético – desproporcionais à gravidade de uma adultério? Ou, em síntese, a violência destruidora do protagonista não seria muito mais condenável do que a eventual traição de Capitu?
6- Como você deve ter percebido, as reações do protagonista frente aos seus dramas existenciais são diferenciados na fase adolescente e na maturidade. Sua inércia juvenil parece traduzir uma fraqueza de vontade e um coração subjugado pela ordem familiar conservadora. A ruptura com este posicionamento passivo dá-se através do casamento. A partir de então, Bento Santiago tenta, de forma desastrada, comandar a relação conjugal e administrá-la conforme o poder outorgado aos homens. Seu poder, no entanto, revela-se frágil e sem grandeza. a- Você lembra de episódios que explicitem estas diferenças no comportamento do protagonista? b- No período juvenil, quem toma as iniciativas tanto no relacionamento afetivo quanto nas respostas aos problemas gerais da vida? Cite um exemplo desta conduta dominadora.
7- A personagem Capitu é uma das maiores criações de Machado de Assis. Sua complexidade psicológica é visível mas, ao desvendar sua personalidade, o escritor cria mecanismos sutis que impedem a mesma de aparecer em sua totalidade, envolvendo-a em uma aura de mistério e tendências difusas. a- Na sua opinião, quem é Capitu? Uma arrivista esperta? Uma moça dominada pelo cálculo e pelo fingimento? Alguém que ama generosamente? Uma jovem que transforma a ânsia de viver no elemento decisivo de sua história pessoal? b- Aponte algumas das célebres metáforas com que Machado (in)definiu Capitu. c- Ainda adolescente, Capitu já nos é apresentada pelo narrador como mulher até a ponta dos dedos. Qual é o significado desta afirmativa? d- Como Capitu reage às suspeitas de Bento e a decisão deste em terminar com o casamento? e- No último capítulo, o narrador escreve que a Capitu menina estava dentro da adulta, como a fruta dentro da casca. O que ele quer dizer com isso?
8- Um dos aspectos centrais de Dom Casmurro (talvez até o mais importante) é o problema da impossibilidade de Bento Santiago chegar à verdade absoluta dos fatos e dos seres. Isso parece resultar das variações de pontos de vista e acúmulo de perspectivas divergentes que ele, o narrador, apresenta. Sua percepção – especialmente de Capitu – é descontínua, fragmentária, incompleta. Simultaneamente o olhar que dirige a si próprio também não encontra uma personalidade única e inteiriça. Quer dizer, todos seres são complicados, múltiplos e imprevisíveis. Sob este ângulo, o romance questiona a possibilidade do realismo traduzir a verdade, toda a verdade. E por isso mesmo, poderia ser considerado, inclusive, como um libelo contra a literatura realista mais convencional do século XIX a- Leia e reflita sobre o texto abaixo do crítico José Hildebrando Dacanal: Quando o leitor de Dom Casmurro aceita a impossibilidade de saber se Capitu traiu ou não traiu, a armadilha cai sobre ele. E no último parágrafo, como a divertir-se cruelmente com sua presa, o Autor/narrador demonstra absoluta segurança a respeito da verdade... Porque o enigma não é Capitu. O enigma é a realidade. Pois ficou provado que as categorias mentais que permitem conhecê-la – a visão racionalista – podem também ser utilizadas para distorcê-las ou ocultá-las... A estas alturas, coitados, Capitu e o leitor não passam de notas de rodapé! Quem tem o poder é o Autor/narrador... Isto, porém, não faz de Machado de Assis um suposto precursor da crise da narrativa real-naturalista clássica ocidental e/ou européia do século XX. Dom Casmurro é apenas a obra de um cínico/satírico – à maneira de Juvenal, Swift, Voltaire e Shaw – que exercita a sua genialidade artística sobre uma realidade opaca e impermeável ao racionalismo pedestre/positivista do século XIX: a realidade de uma falsa aristocracia num império de senzalas...
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