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Gênero Épico- parte III
Em torno deste motivo central aglutinam-se outros episódios, coerentemente estruturados, em que homens e deuses revelam suas paixões. Os heróis, entretanto, não são simples fantoches da vontade divina. Escolhem, dentro de certos limites, o seu próprio destino. Homero não simpatiza com os deuses e os conflitos entre eles são risíveis ou secundários. Alguns historiadores acusam a Ilíada de apresentar uma concepção de mundo totalmente aristocrática. O cantar heróico celebraria apenas príncipes e nobres, seus valores, seus costumes e seus ideais. Esta visão é muito limitada porque na epopéia processa-se não somente o elogio do individualismo guerreiro, mas também o registro de sentimentos universais como a ternura, a comiseração, a lealdade e a amizade. O que ali triunfa, de fato, são as circunstâncias humanas, que derrotam os deuses e a barbárie. Como diz o crítico Donaldo Schüler: “... no poema apenas a existência de cada indivíduo, ameaçada pela morte, é séria. Devemos buscar em Homero a raíz do humanismo ocidental.”
Ao concentrar os acontecimentos em limites temporais definidos, fugindo do caos narrativo que poderia ocorrer se contasse toda a história da guerra; ao selecionar as ações em função do tema central; ao limitar o espaço à região vizinha de Tróia; e ao enfatizar dramaticamente apenas alguns personagens, Homero, na Ilíada, estabeleceu os princípios fundamentais da épica. Princípios esses que encontramos até hoje, ao lermos um romance ou assistirmos a um filme ou a uma telenovela.
A outra epopéia atribuída a Homero é Odisséia. Nela ampliam-se o tempo, o espaço e a quantidade de ações relatadas. O tema é a longa viagem de retorno de Ulisses (em grego, Odisseus) à sua terra natal, Ítaca, após dez anos de aventuras no mar, e a posterior vingança contra os pretendentes de sua mulher Penélope. O poema é completamente dominado pela figura do astuto Ulisses que enfrenta obstáculos de toda a ordem na sua trajetória de regresso ao lar: o gigante Polifemo, com um único olho na testa; a ninfa Calipso, que o aprisiona numa ilha; a ninfa Circe, que pretende transformá-lo em animal e com a qual acaba mantendo um longo relacionamento amoroso; as sereias das quais resolve ouvir o canto fatal e para tanto se amarra no mastro de seu navio, etc. A bravura militar dos guerreiros da Ilíada acaba sendo substituída pela inteligência e pela astúcia do navegador que se sai bem de todos os obstáculos, terminando por matar os pretendentes da fiel Penélope. O sentido épico e aristocrático, tão evidente no primeiro poema, já é permeado na Odisséia por valores do sedentarismo, como por exemplo os encantos da vida doméstica. Fora isso, a temática da viagem incorpora-se à ficção ocidental como motivo-chave de obras narrativas de todos os tempos (retorno ao passado feliz, andança em busca de um sentido para a vida, procura do amor, da glória, da felicidade, etc.)
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