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Vinícius de Moraes - parteI

VINÍCIUS DE MORAES (1913-1980)

VIDA: Nasceu na cidade do Rio de Janeiro, filho de uma família de classe média intelectualizada e com gosto artístico. Estudou com os jesuítas, no Colégio Santo Inácio que lhe deixou fortes marcas religiosas. Na adolescência já interessava-se por música popular, compondo inclusive algumas canções. Em 1930 ingressou na Faculdade de Direito na qual se formaria em 1933. Foi colega de figuras que, mais tarde, seriam importantes da política brasileira. Seu maior amigo, Octávio de Faria, influenciou-o decisivamente, reforçando-lhe o pensamento católico e direitista. Estreou com O caminho para distância, obra filiada a uma poética mais simbolista do que moderna. Em 1938, foi agraciado com uma bolsa do Conselho Britânico para estudar língua e literatura inglesa em Oxford. A estadia na Europa foi de curta duração dada a eclosão da II Guerra Mundial. De volta ao Brasil, acompanhou (1942) o escritor marxista norte-americano Waldo Frank em uma longa viagem pelo Norte e pelo Nordeste, onde constatou a miséria e a indiferença das elites pela pobreza de seu povo. Em função desse contato direto com a realidade brasileira, suas idéias até certo ponto reacionárias foram substituídas por uma visão de mundo progressista.
Em 1943 ingressou na carreira diplomática. Nos anos seguintes, serviu em várias cidades do exterior, sem jamais perder suas ligações com o país. Em 1958, participou do grupo fundador da Bossa Nova ao lado de Tom Jobim, João Gilberto e outros. A partir de então a música popular ocuparia cada vez mais espaço no seu trabalho de criação. Durante as décadas de 1960 e 1970 – no embalo do crescimento da indústria cultural que se espalhava por todo o país – o nome de Vinícius, sobremodo junto ao público jovem, tornou-se uma espécie ícone da liberação amorosa e da qualificação poética da canção popular.


OBRAS PRINCIPAIS: Ariana, a mulher (1936); Novos poemas (1938); Cinco elegias (1943);
Poemas, sonetos e baladas (1946); Orfeu da Conceição (teatro-1956); Livro de sonetos (1957); Para viver um grande amor (crônicas-1962)
.
A obra de Vinícius de Moraes, conforme ele mesmo afirma no prefácio de sua Antologia poética, divide-se em duas fases que traduzem posturas diferentes frente à vida e à criação lírica.

PRIMEIRA FASE

Correspondendo à sua formação religiosa, os dois primeiros livros inserem-se numa linha que poderia ser designada como neo-simbolista. Intensas
conotações místicas, desejo de transcendência, busca do mistério e um confronto entre as solicitações da alma e as do corpo
impregnam estes textos de um fervor espiritual nebuloso e rebuscado. O romancista católico Octávio de Faria disse que o poeta oscilava entre “a impossível pureza e a inaceitável impureza”. Na primeira estrofe do poema Ânsia, percebe-se este clima de “perdição” representado pelo amor físico:

Na treva que se fez em torno a mim
Eu vi a carne.
Eu senti a carne que me afogava o peito
E me trazia à boca o beijo maldito.
Eu gritei.
De horror eu gritei que a perdição me possuía a alma (...)

Por outro lado, a linguagem solene, excessiva, centrada em versos longos (que remetem aos versículos da Bíblia) e no uso de adjetivação farta e de longas enumerações confere aos poemas um caráter retórico e um tom de falsidade que os tornam hoje quase ilegíveis.

SEGUNDA FASE

A partir de 1943, com Cinco elegias, a poesia de Vinícius começa a mudar. Nela - segundo o próprio autor – “estão nitidamente marcados os movimentos de aproximação do mundo material, com a difícil mas consciente repulsa ao idealismo dos primeiros anos”. Esta vinculação à realidade mais imediata dá-se esquematicamente em três planos:
- o canto do amor concreto e a exaltação da mulher;
- a valorização do cotidiano e a abertura para o social;
- a utilização da linguagem coloquial.

UM POETA DO AMOR

Ao rejeitar a idéia da separação entre corpo e alma e ao buscar fundi-los numa única esfera, o poeta converte-se no grande intérprete da modernidade amorosa brasileira. A sua evolução humana e literária corresponde às mudanças que viriam a ocorrer no país: o fim dos valores patriarcais nas relações afetivas, a destruição dos complexos de culpa em relação ao corpo e ao sexo, a quebra do mito da eternidade dos sentimentos (“... que seja infinito enquanto dure”).
Como ninguém, Vinícius sabe cantar com naturalidade esta nova concepção amorosa, mais aberta, mais livre de preconceitos, mais atenta à mulher. Seus poemas abrangem o amor em múltiplas manifestações: saudade, carência, paixão, espanto, desejo. Em muitos desses poemas, há uma abertura para a sensualidade, para a louvação da graça corpórea e para a realização física. O poeta, contudo, sempre supera o mero erotismo. Para ele, há algo mais poderoso que o prazer sexual. Há o afeto (várias vezes combinado com um humor meigo) que dá aos relacionamentos uma outra dimensão e confere à existência um sentido. Daí o caráter quase que religioso atribuído à mulher. E com ela e apenas com ela que o homem pode enfrentar a solidão e a morte. Observe-se este magnífico Soneto da devoção no qual o vínculo carnal do poeta com uma prostituta ultrapassa a sexualidade e situa-se numa esfera ambígua de reconhecimento e ternura:

Essa mulher que se arremessa, fria
E lúbrica em meus braços, e nos seios
Me arrebata e me beija e balbucia
Versos, votos de amor e nomes feios.

Essa mulher, flor de melancolia
Que se ri dos meus pálidos receios
A única entre todas a quem dei
Os carinhos que nunca a outra daria.

Essa mulher que a cada amor proclama
A miséria e a grandeza de quem ama
E guarda a marca dos meus dentes nela.

Essa mulher é um mundo! – uma cadela
Talvez... – mas na moldura de uma cama
Nunca mulher nenhuma foi tão bela

A simplicidade expressiva de Vinícius, aliada à musicalidade de seus versos e ao gosto pelo soneto (muito fácil de ser lembrado e recitado) garantiram-lhe uma popularidade que nenhum outro poeta moderno teve no país. É difícil encontrar algum brasileiro, medianamente informado, que não conheça o Soneto da fidelidade:

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Não menos conhecido é Receita de mulher. Relembremos alguns de seus versos:

As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso (...)
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora. (...)
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem; mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então
Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mais do que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume nas coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto sensível à carícia em sentido contrário. (...)
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, em não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
De sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.

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