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Vinicius de Moraes- parteII

O cotidiano e o social


Ao englobar o “mundo material” em sua produção lírica, Vinícius compromete-se com o cotidiano. A banalidade da vida diária é surpreendida pelo olhar afável e por vezes irônico do poeta. Em textos célebres como Elegia desesperada, Balada do Mangue, Balada das meninas de bicicleta, Balada das arquivistas, Poema enjoadinho, O dia da criação e tantos outros, a prosaica realidade circundante é o motivo dominante dos versos. Mesmo na obra-prima de desolação que é a Elegia na morte de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, na qual evoca a morte do pai, há um predomínio do registro do cotidiano familiar:

(...) Era belo esperar-te, cidadão. O bondinho
Rangia nos trilhos a muitas praias de distância.
Dizíamos: “E-vem meu pai!” Quando a curva
Se acendia de luzes semoventes, ah, corríamos,
Corríamos ao teu encontro. A grande coisas era chegar antes
Mas ser marraio em teus braços, sentir por último
Os doces espinhos da tua barba.
(...) O barbante cortava os teus dedos
Pesados de mil embrulhos: carne, pão, utensílios
Para o cotidiano (e freqüentemente o binóculo
Que vivias comprando o com que te deixavas horas inteiras
Mirando o mar). Dize-me, meu pai
Que viste tantos anos através de teu óculo de alcance
Que nunca revelaste a ninguém? (...)

Também a questão social aflora em sua poesia. Exemplo é O operário em construção, parábola do operário que sempre dizia sim e um dia passou a dizer não, por entender que em todas as coisas do mundo havia a marca de seu trabalho. Apesar de certo tom populista, converteu-se no poema mais cultivado pela juventude universitária esquerdista da década de 1960. Outro carro-chefe do engajamento de Vinícius é A rosa de Hiroxima:

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.

O SONETO E A MÚSICA POPULAR

Escritor que sempre apresentou uma forte tendência íntima ao derramamento verbal, ao verso longo e excessivo, Vinícius de Moraes obtém seus melhores resultados quando esta falação incontida é podada pela rigidez formal do soneto e pelo enquadramento da letra nos limites de uma melodia.
Aliás a regeneração do soneto, depois das arremetidas libertárias de 1922, deve-se a ele. Como nenhum outro lírico moderno, soube explorar as possibilidades de junção do espírito do nosso tempo com uma antiga forma fixa de versificação que parecia condenada ao esquecimento. Este sabor simultaneamente contemporâneo e arcaico de seus sonetos e o caráter recitativo dos mesmos, oriundo tanto dos versos alexandrinos quanto da musicalidade inata da linguagem do poeta explicam-lhes o sucesso. Soneto da separação é um dos mais antológicos:

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

A partir de meados de 1950, Vinícius aproximou-se da música popular num processo que Antonio Candido chamou de “vasta musicalização da poesia” e que o transformou no grande letrista da Bossa Nova, deixando alguns clássicos de reconhecimento mundial como Chega de saudade, Felicidade, Se todos fossem iguais a você, Marcha da Quarta-Feira de Cinzas e Garota de Ipanema.



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