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A obra de Sergio Faraco- parteI

VIDA E OBRA

Nasceu em Alegrete- RS, em 1940. Jovem, mudou-se para Porto Alegre. Entre 1963 e 1965 viveu na antiga URSS, tendo cursado Ciências Sociais em Moscou. Sobre esta experiência escreveu um relato impressionante: Lágrimas na chuva (2002). Voltou ao Brasil e formou-se em Direito, optando, mais tarde, pela carreira da magistratura. Estreou em 1974 com o livro de contos Depois da primeira morte. A partir daí lançou mais oito livros que confirmaram o seu nome como um dos maiores contistas brasileiros das últimas décadas.

Obras principais: Depois da primeira morte (1974); Hombre (1978); Manilha de espadas (1984); Noite de matar um homem (1986); Doce paraíso (1887); Majestic Hotel (1991); Dançar tango em Porto Alegre (1998); Rondas de escárnio e loucura (2000).

O conto foi sempre a única opção ficcional de Sergio Faraco. Na história curta sente-se à vontade, é nela que o seu apuro estético e a sua obsessão pela palavra exata podem melhor se exercitar. O anseio pela perfeição torna-se para o escritor, a exemplo de outros tantos companheiros de ofício, uma idéia-fixa, levando-o a reescrever continuamente os mesmos contos. Não é à toa que, em dado momento, Faraco anunciasse o fim de sua literatura, optando pelo silêncio, caminho natural dos que se entregam compulsivamente à luta com as palavras e a busca do esmero formal. Voltou atrás da decisão e os poucos textos que publicou depois disso tem grande vigor e beleza dramática.

OS TEMAS DOMINANTES

Pode-se falar em três núcleos temáticos básicos em sua obra:

1) -- Contos voltados para o universo agro-pastoril do Rio Grande do Sul, em sua região fronteiriça, de onde emergem personagens que tentam manter os valores de seus antepassados (o código gauchesco da lealdade, da coragem e da hombridade), em meio à decomposição da estrutura social, profundamente alterada e condenada pela modernização do país. Observe-se, contudo que é no plano interior, no drama íntimo dos protagonistas – e não na exterioridade superficial do pseudo tradicionalismo rio-grandense – que o contista registra o epílogo de uma cultura e de uma civilização.

Exemplo desta tendência encontra-se no conto Noite de matar um homem. Dois jovens recebem de seu chefe, um contrabandista, a incumbência de liquidar determinado sujeito que está invadindo o território de ação do grupo. O conto é breve e tenso. No final, consuma-se a execução, mas a reação dos rapazes é que constitui a chave da narrativa.

2) –Contos que registram o universo urbano e que captam – geralmente sob ótica melancólica – a solidão e a fragilidade do indivíduo na metrópole.

3) – Contos que desvelam, no dizer de Assis Brasil, “o universo fluido da infância e da adolescência”, ambas marcadas por fortes experiências emocionais e eróticas.
Isto pode ser melhor observado no conto a seguir, Não chore, papai, gentilmente cedido pelo autor para publicação dentro deste material.

Não chore, papai

Embora você proibisse, tínhamos combinado: depois da sesta iríamos ao rio e a bicicleta já estava no corredor que ia dar na rua. Era uma Birmingham que Tia Gioconda comprara em São Paulo e enlouquecia os piás da vizinhança, que a pediam para andar na praça e depois, agradecidos, me presenteavam com estampas do Sabonete Eucalol.
Na hora da sesta nossa rua era como as ruas de uma cidade morta. Os raros automóveis pareciam sestear também, à sombra dos cinamomos, e nenhum vivente se expunha ao fogo das calçadas. Às vezes passava chiando uma carroça e então alguém, querendo, podia pensar: como é triste a vida de cavalo.
Em casa a sesta era completa, o cachorro sesteava, o gato, sesteavam as galinhas nos cantos sombrios do galinheiro. Mariozinho e eu, você mandava, sesteávamos também, mas naquela tarde a obediência era fingida.
Longe, longíssimo era o rio, para alcançá-lo era preciso atravessar a cidade, o subúrbio e um descampado de perigosa solidão. Mas o que e a quem temeríamos, se tínhamos a Birmingham? Era a melhor bicicleta do mundo, macia de pedalar coxilha acima e como dava gosto de ouvir, nos lançantes, o delicado sussurro da catraca!
Tínhamos a Birmingham, mas era a primeira vez que, no rio, não tínhamos você, por isso redobrei os cuidados com o mano. Fiz com que sentasse na areia para juntar seixos e conchinhas e enquanto isso, eu, que era maior e tinha pernas compridas, entrava n’água até o peito e me segurava no pilar da ponte ferroviária.
Estava nu e ali mesmo me deixei ficar, a fruir cada minuto, cada segundo daquela mansa liberdade, vendo o rio como jamais o vira, tão amável e bonito como teriam sido, quem sabe, os rios do Paraíso. E era muito bom saber que ele ia dar num grande rui e este num maior ainda, e que as mesmas águas, dando no mar, iam banhar terras distantes, tão distantes que nem a Tia Gioconda conhecia.
Eu viajava nessas águas e cada porto era uma estampa do cheiroso sabonete.
Senhores passageiros, este é o Taj Mahal, na Índia, e vejam a Catedral de Notre Dame na capital da França, a Esfinge do Egito, o Partenon da Grécia e esta, senhores passageiros, é a Grande Muralha da China – isso sem falar nas antigas maravilhas, entre elas a que eu mais admirava, os Jardins Suspensos que Nabucodonosor mandara fazer para sua amada, a filha de Ciáxares, que desafeita ao pó da Babilônia vivia nostálgica das verduras da Média.
E me prometia viajar de verdade, um dia, quando crescesse, e levar meu irmãozinho para que não se tornasse, ai que pena, mais um cavalo nas ruas da cidade morta, e então vi no alto do barranco você e seu Austin.
Comecei a voltar e perdi o pé e nadei tão furiosamente que, adiante, já braceava no raso e não sabia. Levantei-me, exausto, você estava à minha frente, rubro e com as mãos crispadas.
Mariozinho foi com você no Austin, eu pedalando atrás e adivinhando o outro lado da ventura: aquele rio que parecia vir do Paraíso ia desembocar no Inferno.
Você estacionou o carro e mandou o mano entrar. Pôs-se a amaldiçoar Tia Gioconda e, agarrando a bicicleta, ergueu-a sobre a cabeça e a jogou no chão. Minha Birmingham, gritei. Corri para levantá-la, mas você se interpôs, desapertou o cinto e apontou para a garagem, medonho lugar dos meus corretivos.
Sentado no chão, entre cabeceiras de velhas camas e caixotes de ferragem caseira, esperei que você viesse. Esperei sem medo, nenhum castigo seria mais doloroso do que aquele que você já dera. Mas você não veio. Quem veio foi mamãe, com um copo de leite e um pires de bolachinha-maria. Pediu que comesse e fosse lhe pedir perdão. E passava a mão na minha cabeça, compassiva e triste.
Entrei no quarto. Você estava sentado na cama, com o rosto entre as mãos. “Papai”, e você me olhou como se não me conhecesse ou eu não estivesse ali. “Perdão”, pedi. Você fez que sim com a cabeça e no mesmo instante dei meia-volta, fui recolher minha pobre bicicleta, dizendo a mim mesmo, jurando até, que você podia perdoar quantas vezes quisesse, mas que eu jamais o perdoaria.
Mas não chore, papai.
Quem, em menino, desafeito ao pó de sua cidade, sonhou com os Jardins da Babilônia e outras estampas do Sabonete Eucalol não acha em seu coração lugar para o rancor. Eu jurei em falso. Eu perdoei você.



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