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A obra de Sergio Faraco- parteII

UM LIVRO DE MEMÓRIAS

A evocação de sua passagem de quase dois anos pela extinta URSS, deu a Sergio Faraco a oportunidade de descer a um inferno pessoal que por largo tempo ele se sentira incapaz de enfrentar. Desse mergulho resultou a publicação de Lágrimas na chuva, talvez o texto literário mais importante publicado no Brasil em 2002.

Contemplado por uma bolsa política, o escritor com então 24 anos viaja cheio de ilusões para a “pátria do socialismo”, mas o que lá encontra é uma sociedade repressiva e estritamente vigiada. A curiosidade e a inquietude, normais em um jovem, levam-no a questionar as aulas medíocres e a vagar sempre que possível pelas ruas de Moscou. Encontra então uma jovem russa da qual se torna amante. Porém, na universidade o seu comportamento é considerado anti-comunista, o que desencadeia o seu internamento em um hospital de dissidentes. Aí Faraco vai conhecer os métodos de aniquilamento da individualidade, usados pelo Partido Comunista. Perde a noção de tempo e espaço, é obrigado a ingerir remédios que o entorpecem e o alienam e rapidamente se transforma num autômato, sem vontade, sem lucidez e sem forças. Um outro prisioneiro, mais velho, acaba salvando-o através do simples conselho de não tomar os comprimidos que lhe davam. Fortalecido, o jovem brasileiro será solto, retornando em seguida ao Brasil.

Uma das passagens mais emocionantes de Lágrimas na chuva é a despedida final (que ele não ousa fazer) de sua amada, a jovem russa Nina:

Naquele mesmo dia, antes do meio-dia, lá estava eu, uma vez mais, no canteiro central da Avenida Leningrado, esquina da Rua Armênia Vermelha, disposto a tornar real o sonho que sonhava no hospital. Que importava que logo ia embora? Que importava sofrer e fazer sofrer de novo? Uma palavra só que me dissesse, um sorriso, um olhar, um gesto de carinho, já bastaria.(...)
E a vi sair de casa, fechar o portão e vir caminhando apressadamente na minha direção. Olhava em frente, como se me visse na boca da rua. Com o movimento de carros e pedestres, era impossível, e mesmo assim estremeci. Imóvel, esperei que chegasse à esquina. E chegou, dobrou-a e seguiu pela calçada da avenida. Se pretendia falar com ela, era agora.
Era agora, mas não me movi.
Não me movi e lá se ia, com seus passinhos curtos, os cabelos dourados balançando sobre a gola de pele do casacão, a ninfa russa Nina Aleksandróvna Lavriêntieva, sem saber que, pouco antes das doze horas daquele dia gelado de fevereiro de 65, a poucos metros de distância, o homem que a amara se despedia dela para sempre.



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