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O conto de Machado de Assis- parte I

Um mundo de sortilégios

O jovem estudante que ler os contos de Machado de Assis terá possivelmente uma grande e positiva surpresa. Nos colégios e cursos de Letras há uma tendência natural de privilegiar os romances do autor, especialmente Memórias póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro. São textos geniais, originalíssimos, e colocam a narrativa brasileira em um lugar de destaque na literatura mundial. Mas são também textos complexos, não só pela fascinante ambigüidade de seus protagonistas, como pelos jogos e armadilhas que o narrador de cada um deles prepara, levando o leitor de um lado para outro, desfazendo todas as certezas, relativizando tudo e criando um mundo ficcional no qual o modo de contar a história é tão ou mais importante do que a própria história. Os capítulos curtos, as fragmentações, as contínuas digressões, as ironias e os comentários paralelos de Brás Cubas e Bentinho constituem o verdadeiro núcleo desses relatos.

Daí a dificuldade que alguns jovens leitores experimentam diante dos romances machadianos. Inexiste neles uma linearidade narrativa, uma trama facilmente acompanhável, uma intriga de folhetim. Ao contrário, apresentam alto grau de exigência e os leitores, para compreendê-los, precisam de amadurecimento psicológico e conhecimento de suas requintadas técnicas de narração. O resultado desse choque entre a complexidade dos romances e a inexperiência humana e estética de seus jovens fruidores é um terrível mal-entendido: Machado de Assis passa a ser visto como um escritor intransponível.

Certamente os professores deveriam começar a escalada da montanha pelo sopé e não pelo cume. Os contos machadianos são tão magníficos quanto os próprios romances e apresentam uma vantagem suplementar para os rapazes e moças que vão iniciar o seu contato com o maior de nossos escritores: não oferecem dificuldades técnicas para o seu entendimento. Mesmo um adolescente sem maiores informações literárias penetrará prazerosamente neste reino de sedução.

ALGUNS CONTOS DEFINITIVOS

Diferentemente do que faz nas narrativas longas, Machado de Assis obedece, nas histórias curtas, aos princípios essenciais do gênero: concisão, rapidez e unidade dramática. O maior dos contistas, o russo Tchecov, dizia que, se num conto aparecesse uma espingarda pendurada em alguma parede, ela deveria disparar imediatamente, sob pena de não fazer sentido a sua presença naquele relato. Esta exigência de brevidade e concentração é seguida à risca pelo autor de Missa do galo. Nada que não seja fundamental ao desenvolvimento da trama ou à criação da atmosfera interessa. Por isso – exceção feita de O alienista, que para alguns é uma novela – todos os seus contos transcorrem dentro de certo clima de tensão, de certo pulsar nervoso e de uma forte intensidade dos acontecimentos.

Mestre inquestionável do gênero, Machado de Assis experimentou as diferentes possibilidades de construção do relato curto. Há o conto tradicional, também conhecido como anedótico, calcado na história de final surpreendente, e cuja conclusão é o elemento mais importante do processo narrativo. Esse modelo clássico aparece em A cartomante.

Existe também um tipo de conto chamado moderno, que se concentra na criação de uma atmosfera, de um fugaz momento na vida de alguma pessoa ou de um simples flagrante do cotidiano. Nesta forma de relato, as repercussões psicológicas de ações e fatos concretos são muito mais significativas do que a construção de enredo bem arquitetado e de desfecho imprevisto. Missa do galo é a maravilhosa obra-prima de tal tendência, mas Conto de escola também figura em qualquer antologia dos melhores textos curtos brasileiros de todos os tempos.

Não podemos esquecer, por outro lado, o conto de caracteres, que procura fixar tipos humanos atormentados por angústias obsessivas e cujo comportamento é determinado por uma idéia fixa, como nos casos de Pestana, o infeliz compositor de polcas, de Um homem célebre, de Romão, o artista impotente que aparece em Cantiga de esponsais, e Jacobina, que só se sente alguém ao usar a farda de alferes, em O espelho.

O alienista situa-se na esfera do conto alegórico, na medida em que a história (pouco verossímil, num sentido estritamente realista) parece mais uma ilustração corrosiva – tanto da loucura cientificista, que assaltou os meios intelectuais, na segunda metade do século XIX, quanto da arbitrariedade daqueles que detêm alguma forma de poder – do que propriamente a investigação de uma alma opressa pela doença interior. Enquanto Pestana e Jacobina são personalidades complicadas, o doutor Simão Bacamarte (O alienista) é uma hilariante caricatura de médico e de ditador científico.

Teoria do medalhão, um dos mais deliciosos libelos do escritor contra a mediocridade intelectual e social, é o conto satírico por excelência, lembrando a ironia filosófica dos relatos curtos de Voltaire. Praticamente sem ação, seu núcleo temático gira em torno de uma exposição de idéias cínicas, através do diálogo entre pai e filho.

Em outros contos, como em O caso da vara e Pai contra mãe, avulta um Machado quase desconhecido: o ficcionista social, capaz de interrogar, na ação concreta dos homens, o que nelas é reflexo brutal da ordem vigente. Tudo isso sem panfletarismo, sem populismo, sem concessões demagógicas. A cena do aborto da escrava, em Pai contra mãe, vale por mil discursos contra a escravidão.

No entanto, é preciso sublinhar que todas essas classificações são insuficientes, se não inúteis, diante da grandeza dos contos que Machado de Assis criou, quase todos redigidos na fase de maturidade do escritor, entre 1882 (Papéis avulsos) a 1906 (Relíquias da casa velha).

A ANÁLISE PSICOLÓGICA

Uma das maiores inovações de Machado de Assis foi abandonar o gosto pela descrição, tanto da natureza, ao estilo romântico, quanto dos costumes e do ambiente, à moda naturalista. A Machado sempre interessou o contraste de caracteres e a sondagem dos sentimentos e idéias íntimas de seus protagonistas. Os acontecimentos e o cenário só têm relevância quando provocam reações psicológicas. Claro que a densidade de sua análise resulta de um formidável senso de observação dos indivíduos e de um não menos vibrante conhecimento da vida social. Ambos lhe permitiram concluir que há uma descontinuidade, se não uma ruptura completa, entre as aparências, exigidas pelo mundo exterior, e a interioridade dos sujeitos.

Portanto, o seu método preferencial é o do desmascaramento, como se os indivíduos agissem continuamente sob a necessidade da impostura e da mentira, representando papéis que não corresponderiam à sua verdadeira essência. Sob este ângulo, o conto O espelho exemplifica a tese pelo seu contrário: Jacobina apenas se realiza ao “vestir” a alma exterior, isto é, o fardamento de alferes que lhe dá segurança, sensação de poder e respeitabilidade. Sem ela, o rapaz sente-se desamparado e medíocre. Como disse Alfredo Bosi, “O espelho é o aprendizado das aparências”.

As situações de desmascaramento servem também para que os personagens, especialmente os mais jovens, tenham uma noção dolorida dos valores degradados que regem, muitas vezes, a existência. Este mergulho nas sombras ocorre com o menino-narrador de Conto de escola e com o marujo Deolindo, de Noite de almirante, que vê sua paixão aviltada pela traição e pelo esquecimento da amada, numa das mais líricas e pungentes narrativas de Machado.

Contudo, nem sempre o escritor desvenda todos os véus que cobrem os seres humanos. Especialmente no caso das mulheres, permanece uma região obscura, que o ficcionista não quer ou não pode decifrar, algo de inexplicável, uma oscilação nebulosa, um gesto difuso, um olhar ambíguo. Como entender ou definir a Conceição de Missa do galo, que cria, insufla e, ao mesmo tempo, reprime o fantástico clima de erotismo e cumplicidade estabelecido com o adolescente Nogueira, numa sala patriarcal, hora antes da missa natalina? E aquela outra senhora, de Uns braços, cuja confusão de sentimentos e desejos arrasta-a em direção ao quarto do garoto, que é empregado da família? Será sempre aflitiva e nevoenta a educação sentimental de homens e mulheres?

Os registros psicológicos feitos por Machado de Assis surpreendem pela variedade: a galeria de seus tipos é infinita, e a cada tipo, dependendo de origem, idade, sexo, profissão e classe, adequa-se uma intimidade distinta e sempre carregada de verossimilhança, o que é o supremo dom dos grandes narradores. Estes registros podem ser mais determinados e explícitos ou mais fragmentários e dúbios, porém nos remetem sempre a um escritor que se entregou – no dizer de Augusto Meyer – à volúpia de uma única e terrível paixão: a paixão da análise.



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