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O conto de Machado de Assis- parte II
Os relatos curtos confirmam o que já se sabia a respeito dos romances: Machado não é apenas um fino esquadrinhador de almas, mas alguém que compreende a estrutura profunda de sua época. Ao contrário de Balzac, Stendhal, Tolstói, Dostoiévski, Eça de Queiroz, Zola e outros notáveis realistas que participam ativamente das lutas sociais e políticas de seu tempo ou que, no mínimo, atiram-se a uma vida agitada e multiforme, e assim experimentam na própria pele o turbilhão do século, o autor de O alienista tem uma existência aparentemente banal, quase pequeno-burguesa. Não fossem a infância e a juventude em condições muito humildes e a cor mulata – que ele fez questão de esquecer –, sua vida poderia ser rotulada de cinzenta. O discreto burocrata jamais se tornaria campeão de qualquer causa, fosse estética ou ideológica, evitando a tribuna, o discurso e, sobretudo, aquela ênfase tão ao gosto dos nossos letrados. Tampouco ousaria envolver-se em outras atividades. A fundação da Academia Brasileira de Letras (1896), da qual se torna presidente perpétuo, deve-se mais àquilo que nele era convencionalismo, gosto pelo reconhecimento público, criação de uma máscara. Sua “alma exterior“ satisfaz-se com os aplausos das elites imperiais (e depois, republicanas). Trata de retribui-los com amabilidades e sorrisos. Por dentro, como observa José Veríssimo, “aristocratiza-se silenciosamente”. Opta pela solidão espiritual e pela literatura. Aceita e busca as honrarias, porém continua, de certa maneira, um sujeito à margem do sistema dominante. Em função disso, conseguiria ver, simultaneamente por fora e por dentro, a engrenagem afiada da sociedade brasileira. Não a retrata de maneira direta. Ela surge, evocada sob a forma de repressão moral, nas histórias de amor (Uns braços, Missa do galo); sob a moldura do patriarcalismo e de sua feroz pedagogia (O caso da vara, Conto de escola); e, em especial, sob a luta que os pobres ou os dominados precisam travar contra a fraternidade e a compaixão, transformando-se em criaturas insensíveis diante dos horrores da escravatura (O caso da vara, Pai contra mãe). Entretanto, ao contrário dos prosadores do real-naturalismo, ele não crê que os homens sejam mero produto das circunstâncias. Constrói personagens que vão além do ambiente e das classes sociais, por possuírem uma natureza humana relativamente imutável. Esta natureza humana que atravessa os séculos, com seus sonhos e seus terrores, seus ideais e suas mesquinharias, sua bondade e sua violência, sua grandeza e sua banalidade, é o grande questionamento, o grande motivo, o tema fundamental da ficção de Machado de Assis. A vida social apenas atualiza e intensifica as características que os seres carregam pelos tempos. Tal concepção lhe permite ser um escritor tipicamente carioca e brasileiro (sem tornar-se um mero retratista de costumes) e, por outro lado, ser também o mais universal entre todos os nossos artistas, à medida que investiga a condição humana, além de suas contingências históricas.
A partir de sua segunda fase, iniciada na década de 1880, e da qual fazem parte todos estes contos, Machado revela uma visão cética e desencantada da realidade. Ao revirar tudo pelo avesso, depara-se com a corrupção dos valores, como o menino de Conto de escola. Os indivíduos parecem agir impulsionados apenas por seus interesses pessoais: vaidade, ambição, sede de ouro e de poder. Assim, o egoísmo é o principal móvel da humanidade. Os protagonistas que possuem valores positivos, como Deolindo e a última safra dos “loucos”, recolhidos pelo doutor Simão Bacamarte a seu hospício particular, farão a aprendizagem que os despirá da generosidade, do amor, da tolerância e de outras virtudes. Machado não se identifica tampouco com qualquer filosofia regeneradora; arrasa com o cientificismo e o positivismo; usa e abusa de citações bíblicas, mas tem dúvidas sobre a existência de Deus e o sentido das religiões; despreza a política como possibilidade de mudança e considera as ideologias como fraudes. Diante disso, deveria, talvez, ranger os dentes e gritar contra o destino. Prefere o sorriso crítico, o humour, a ironia sutil. Um crítico, escrevendo a respeito de O alienista, observou que a gente ri o tempo todo dos delírios classificatórios do médico dos loucos, das reações ambivalentes dos moradores da cidadezinha, das rebeliões contra o sábio, etc. mas que, no conjunto, a história nos transmite uma sensação de desolação. Isso é muito comum em suas obras: o riso converte-se em desconforto e reflexão critica. Nesta seleção de contos, optamos por alguns que mostram uma face menos áspera e irônica do escritor. Missa do galo, Uns braços e Noite de almirante substituem a amargura por uma doce melancolia. As lembranças dos amores perdidos constituem uma fonte recorrente de sua ficção e elas lhe permitem uma pontuação lírica bem pouco usual em seus textos. Esta mesma poesia dolorida encontramos, por além da fúria de Bentinho, em Dom Casmurro, e sobremodo no romance Memorial de Aires, servindo para revelar que o ceticismo de Machado de Assis não apagou de todo, em sua obra, a chama de ternura e comiseração pela humanidade.
A prosa de ficção de Machado de Assis só atinge a perenidade artística por apresentar uma linguagem de máxima inventividade, de onde extrai todas as possibilidades expressivas, todas as nuanças e sutilezas. Mais de um especialista observou que o escritor realiza uma síntese entre os recursos tradicionais do estilo – havia lido de forma exaustiva os clássicos portugueses – e as inovações da língua falada culta do Brasil, na segunda metade do século XIX. Daí o sabor delicioso de seu texto, ora levemente arcaico, ora atualíssimo. Se parte do vocabulário e algumas construções sintáticas parecem, às vezes, antigas, a impressão dominante no espírito do leitor é a de modernidade estilística. Próximo do nosso gosto contemporâneo está, por exemplo, seu repúdio à retórica, à metáfora vazia, ao adjetivo banal e aos pormenores descritivos. A postura irônica que mantém frente aos lugares-comuns e aos clichês da linguagem antecipa o deboche da geração de 1922 ao academicismo. Além disso, à precisão vocabular e ao rigor da frase, agrega um desconcertante poder de criação de imagens, entre as quais as referentes aos olhos de Capitu são as mais lembradas. De certa maneira, alcança os limites do potencial semântico das palavras. Estas, com muita freqüência, abrem-se em uma constelação de significados e ajudam a ampliar o clima sinuoso e requintado das narrativas. Machado tem plena consciência do processo de seleção e ordenação vocabular. No conto Uns braços, ele quer insinuar a importância que determinado domingo terá na vida dos personagens: “O dia estava lindíssimo. Não era só um domingo cristão; era um imenso domingo universal.” Ao retirar o caráter “cristão” do domingo e atribuir-lhe a condição de “imenso” e, em seguida, a de “universal”, destrói a idéia de um domingo comum, de culto religioso e obediência às convenções. Ao inverso, anuncia um novo domingo, amplo, aberto a todas as alternativas humanas e, quem sabe, a todas as transgressões. Apenas três adjetivos – aparentemente vagos – preparam o excitante acontecimento do beijo da mulher casada no empregado adolescente.
Os leitores dos contos de Machado talvez possam utilizá-los como um outro caminho, uma nova via de acesso a esta obra singular no panorama de nossa literatura. Uma obra que ultrapassa as instâncias de sua época e fabrica o espelho onde o homem brasileiro se observa integralmente. Pela primeira vez, a imagem refletida não será apenas a do luminoso filho dos trópicos, e sim a do homem ocidental com toda a sua carga de sonhos e tormentos. (Introdução ao livro Contos definitivos, de Machado de Assis, Ed. Leitura XXI / Novo Século.)
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