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O Romance- parte I

GÊNEROS LITERÁRIOS

As obras literárias são classificadas em vários grupos que correspondem a sua estrutura de composição e à forma como se apresentam, revelando a atitude do escritor perante a realidade artística que está criando. São os chamados gêneros literários.
O grego Aristóteles, no século V. a.C., estabeleceu uma divisão entre os gêneros que persiste até hoje:
- gênero épico (ou épica);
- gênero lírico (ou lírica)
- gênero dramático (ou dramática)

A grosso modo, diríamos que quando um eu registra sua subjetividade e emoções, trata-se da lírica; quando nos é contada alguma história, trata-se da épica; mas se atores, através de gestos e falas, representam uma ação no palco, trata-se da dramática.
Esquecida durante muitos séculos, a divisão estabelecida por Aristóteles foi retomada durante o Renascimento e transformada em códigos rígidos e regras invioláveis. Séculos depois, os românticos revisaram e até mesmo questionaram estes conceitos. No século XX, chegou-se a propor a abolição das fronteiras entre eles e, inclusive a declará-los inválidos ou inúteis.
Por outra parte, recentemente, no Brasil, alguns críticos têm afirmado que a crônica (textos curtos, em prosa, com linguagem literária, geralmente abordando temas do cotidiano e publicados em jornais e revistas) seria um novo gênero literário.

ROMANCE

Herdeiro direto da estrutura narrativa da epopéia clássica, o romance emerge – como o concebemos hoje – entre meados do século XVI e início do século XVII, especialmente na Espanha, expandindo-se em seguida pela Inglaterra, França e Alemanha. Já no século XVIII, o romance havia se transformado na mais popular de todas as formas literárias.
Em relação à epopéia, o romance traz importantes novidades:
- A metrificação (verso) é abandonada e a prosa de tom relativamente coloquial torna-se uma característica da linguagem narrativa.
- Por se estruturar a partir da dissolução da epopéia clássica e do declínio das novelas pastoris, galantes e de cavalaria da Idade Média, o romance emerge sem regras fixas ou modelos a serem obedecidos. Por isso, por não ter uma passado a guardar, ele se tornou a mais aberta de todas as formas literárias.
- Os personagens centrais – os heróis – deixam de ser o aristocrata guerreiro ou o grande homem de aventuras e conquistas, com os seus rígido códigos de honra e seus valores típicos da nobreza. Ao contrário, o que temos agora são homens comuns, normalmente de origem burguesa ou plebéia, e que vivem dramas corriqueiros. Suas ações já não lhes proporcionam fama e poder, mas giram em torno de fatos relativamente insignificantes: complicações sentimentais, sociais e financeiras, comuns a maioria das pessoas.
Os romances representam – já no século XVIII e XIX, mas particularmente no século XX – um verdadeiro mergulho no cotidiano, como podemos constatar em Moll Flandres, de Defoe, em Germinal, de Zola, ou em Os ratos, de Dyonélio Machado. Nesta última obra, aliás, toda a trama é concentrada na questão do pagamento de uma conta de leite, que o protagonista precisa saldar em vinte e quatro horas.

- Os personagens do romance já não são personalidades inteiriças e perfeitas. Agora a interioridade se dissocia da aventura e a alma fica fraturada entre os desejos íntimos e a realidade quase sempre hostil. Por viverem tal dualidade, os protagonistas apresentam uma complexidade maior. Portanto, a sondagem interior, mais tarde conhecida como análise psicológica, nasce com o romance.
- Os conflitos que embasam a epopéia clássica colocam em oposição apenas os personagens e a realidade exterior. No romance, ao inverso, ocorrem também dentro dos próprios protagonistas. É o chamado conflito interior. Isso não impede o choque dos indivíduos com o mundo, expressos sobretudo na lua dos mesmos contra as normas e os preconceitos sociais.
- Este último confronto torna-se clássico no romance: um indivíduo com valores autênticos tenta impô-los à realidade. Sede de amor, de justiça e de dignidade humana impelem-no ao desejo de mudança de um mundo, geralmente insensível e injusto. No entanto, o resultado desse esforço é, no mais das vezes, o fracasso. Desamparado, o personagem ou adere à ordem opressiva ou sucumbe à desilusão, à loucura e até à morte. Por isso, inúmeros romances se apresentam como um verdadeiro inventário de ilusões perdidas.

- Contudo, em muitas obras do gênero, há um triunfo do herói comum, seja pela realização de seus afetos ou de seus ideais, seja pela satisfação de suas exigências de escalada social, às vezes alcançada graças à sua esperteza e à sua flexibilidade ética.

- Estas diferenças entre a epopéia e seu mais ilustre descendente levaram o filósofo alemão Hegel, nos primórdios do século XIX, a cunhar a célebre afirmação: “O romance é a epopéia de um mundo sem deuses”, ou seja, o romance é a epopéia do cotidiano.

A busca da verossimilhança

Desde o seu início, o romance apresenta, em maior ou menor escala, uma forte índole realista pois os escritores buscaram elaborar uma síntese entre os dois elementos fundamentais do gênero:
- Personagens fictícios que vivem acontecimentos imaginários.
- O contexto histórico e as circunstâncias reais (costumes, espaço físico-geográfico, vida cotidiana, etc.) em que esses personagens se movimentam.

Dar ao leitor a impressão de que o enredo é um reflexo da realidade, fornecendo-lhe uma sólida e consistente descrição de múltiplos aspectos da existência humana, constitui o objetivo da expressiva maioria dos romancistas. No prólogo do ciclo de relatos que constituem A comédia humana (1830-1850), Balzac define sua tarefa como uma espécie de historiador do cotidiano:

Ao fazer o inventário de vícios e virtudes, ao reunir os principais feitos das paixões, pintar os caracteres, eleger os principais acontecimentos da sociedade, compor tipos mediante a fusão de vários traços de caráter, quem sabe eu poderia chegar a escrever essa história esquecida pelos historiadores, a história dos costumes.

Este pacto de verossimilhança (semelhança com a verdade) foi rompido apenas durante a era romântica pela emergência do chamado romance gótico, na Inglaterra. O gótico apresenta atmosferas aterradoras e cenas carregadas de mistérios e eventos sobrenaturais que desafiam a racionalidade e a ordem lógica do mundo. É o caso de O castelo de Otranto, de Horace Walpole, que dá início a narrativa de tipo noir, uma espécie de literatura das sombras, onde pesadelos, visões, fatos estranhos e horrores se confundem Esse tipo de ficção às vezes traduz simbolicamente certas pulsações brutais dos seres humanos e por isso tem grande força dramática. Outras vezes, porém, esta ficção não produz mais do que obras curiosas ou até mesmo completamente tolas.

Modernamente, alguns autores como Kafka, Buzzati e outros, rompem com o triunfo avassalador da narrativa realista, introduzindo em seus relatos elementos simbólicos, místicos e alegóricos. Nestas novelas e romances, a realidade fáctica já não se apresenta de maneira direta, obrigando os leitores a traduzir o universo literário de sugestões para o seu próprio universo concreto.

A partir de 1950 e 1960, na América Latina, surge também uma forma singular de realismo, conhecido como realismo mágico. Em romances como Pedro Páramo (1955) do mexicano Juan Rulfo; Grande sertão: veredas (1956), de João Guimarães Rosa; e Cem anos de solidão (1967) , de Gabriel García Marquez, fatos e situações aparentemente inverossímeis – mortos que falam, visões premonitórias, surgimento do diabo, etc. – nos são apresentados como absolutamente reais e verdadeiros.
Como já foi observado, estas obras refletem a existência de sociedades arcaicas no interior latino-americano, onde a consciência mágica e pré-racional é, ou era, uma realidade, pois tais regiões não foram, ou ainda não tinham sido, atingidas pela modernidade e pela tecnologia.



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