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O Romance- parte II
A palavra romance apareceu pela primeira vez na Europa, durante a Idade Média. Inicialmente o termo identificava a língua corrente que resultava da progressiva transformação do latim vulgar do período anterior. Em seguida, passou a designar certas composições literárias de caráter narrativo e escritas em versos, já que deveriam ser recitados por menestréis e trovadores. Os referidos romances – que alguns chamam de épica medieval – apresentavam enredos complicados, conceitos idealistas e aristocráticos e, portanto, pouco marcados pelo realismo. Esta forma literária acabou se consolidando em duas tendências básicas: - o romance de cavalaria - o romance sentimental Ainda nos primórdios do Renascimento, obteve grande sucesso o romance pastoril, uma variação do romance sentimental, em que pastores expressam sua visão sobre o amor e a vida. Todas estas formas iniciais de narrativa desapareceram junto com a Idade Média, cedendo lugar a um novo gênero que logo encantaria o Ocidente.
O romance – como hoje o entendemos – nasceu entre meados do século XVI e início do XVII, no momento em que os valores cortesãos, guerreiros, aristocráticos e galantes – de caráter nitidamente feudal – eram destruídos pelo surgimento dos estados modernos e pela complexidade crescente do universo mercantil-burguês. O prestígio da classe senhorial entrou em declínio e o capitalismo, mesmo que em sua forma primitiva, consagrou outros ideais como a ascensão social e a constituição da riqueza individual. A forma literária da épica medieval – cuja derradeira manifestação eram os relatos de cavalaria – tornou-se igualmente o registro de algo morto: aquele passado mítico, feito de cavaleiros audazes e damas eternamente à espera do grande amor e do gesto audaz, não tinha mais sentido a partir do Renascimento e da expansão mercantil burguesa. Paradoxalmente, o romance irrompeu na gloriosa Espanha dos descobrimentos e das conquistas de terras, prata e ouro americanos; na Espanha, cujo ideal de cavalaria e honra parece ainda se manter após séculos de lutas contra os árabes; na Espanha arrogante, e que, apesar da notável grandeza de seu poder e seus feitos, afundara em melancólico crepúsculo no século XVI. Segundo Darcy Ribeiro, em As Américas e a civilização, existiam na Espanha quase dois milhões de mendigos em uma população que atingia de oito milhões de almas. O número de fidalgos e agregados girava em torno de trezentos mil. E da população adulta, pelo menos um quinto compunha-se de religiosos: padres, freiras, monges, seminaristas, etc. Era um cenário desolador. Mendigos lutava pela sobrevivência, nobres arruinados tentavam refazer sua fortuna, sacerdotes brandiam as palavras de ordem da Santa Inquisição e aventureiros e marginais amealhavam riquezas saqueando as civilizações indígenas latino-americanos. Dessa vertiginosa mistura, desses contrastes entre a riqueza e a miséria, entre a grandeza e a sordidez brotaram as férteis circunstâncias para o desenvolvimento de uma nova forma literária, desvinculada de tradições e esquemas preconcebidos.
Em 1554, de autor desconhecido, apareceu o precursor dos romances modernos, Vida de Lazarilho de Tormes, suas desgraças e adversidades. Lazarilho, um personagem pobre e sem perspectiva, narra, em tom humorístico, a sua existência, desde a infância até a idade adulta, existência sempre condicionada pela miséria e pela hostilidade do meio. Ele era o que se chamava de pícaro, isto é, alguém de origem humilde, filho de pais desonrados que se vê obrigado a perambular pelo mundo e a servir a vários amos. No contato com esse enorme conjunto de patrões – um cego, um padre, um fidalgo arruinado, um pintor, um capelão, um oficial de justiça, etc. – o pícaro vai aprendendo a realidade áspera e enganosa da vida. A percepção de que o mundo de seus amos é centrado em aparências e que, atrás delas, se escondem a corrupção e a perversidade, leva-o à desconfiança e à permanente atitude defensiva. Aos poucos, seus princípios morais vão se afrouxando, o que o leva, por exemplo, a roubar quando a fome aperta. Aliás, o pícaro é um pobre vagabundo, sempre faminto, que usa de todo o seu engenho para sobreviver. A presença de um personagem vulgar contando a própria vida, a sátira a fidalgos, padres e mendigos, o relativismo ético – que se expressa estilística no humor da narrativa – e a simplicidade quase chocante do texto garantiram o sucesso fulminante da obra. Sentido-se atingida, a Igreja católica resolveu colocá-lo no Index (lista de livros proibidos) porém várias edições clandestinas, muitas delas feitas fora do território espanhol, continuaram alimentando o público com as aventuras do jovem pícaro. As cômicas e infelizes aventuras de Lazarilho de Tormes foram superadas, meio século depois, tanto em qualidade quanto em densidade narrativa, pelo Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. Mesmo assim, o anônimo autor de Lazarilho continua sendo considerado como o iniciador do gênero romanesco. E sua influência é visível em várias obras-primas da novelística ocidental.
Em 1612 veio à luz o Dom Quixote de la Mancha. Entre as singelas narrativas medievais de entretenimento - centradas em torno de incidentes amorosos ou de peripécias de cavalaria – e a obra-prima de Cervantes, um mundo inteiro desaparece (num único golpe) e outro nasce de seus escombros. A obra de Cervantes é um sarcástico e comovente atestado de óbito dessa antiga forma de narrativa. Dom Quixote – embriagado pelas histórias de cavalaria – julga-se um herói à moda antiga e lança-se em aventuras extravagantes. Para ele, os seus sonhos é que são a realidade; e a realidade objetiva não passa de um reino de demônios e inimigos. Sua interioridade alucinada é, no entanto, destruída pelo frio mundo que o circunda. Do choque nasce o riso. Mas nasce também uma grandeza patética de um pobre homem, que parece ter dormido enquanto a história européia se modificava, e que, ao acordar, tenta impor as suas ilusões nobres e cavalheirescas sobre a sordidez da vida cotidiana. Em sua obra, Cervantes mescla o antigo ao novo, criando uma síntese original em que: - incorpora ao romance a estrutura da poesia épica e da narrativa medieval, a sucessão de episódios unificados por um protagonista-viajante (Quixote) e seu escudeiro (Sancho Pança); - mostra nas ações desses personagens – em particular nas do Quixote – o desenvolvimento de uma visão interior dos acontecimentos, inaugurando assim, ainda que de maneira ingênua, a sondagem psicológica.
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