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A Crônica- parteII

A popularidade do gênero

A quantidade de cronistas escrevendo na imprensa brasileira atesta a grande repercussão do gênero. Para eles, trata-se de uma indispensável fonte de sobrevivência e de prestígio social. Para os seus leitores, um momento de quebra do aspecto meramente informativo da comunicação
jornalística. Aliás, essa é a maior das contradições da crônica: elaborada por alguns dos grandes escritores do país, ela aparece num meio impresso de absoluta fugacidade. O jornal de hoje - como disse um crítico - no dia seguinte servirá apenas para embrulhar peixe. A revista da semana passada só sobreviverá nos consultórios de dentista.

Por isso, no desejo de resistir ao caráter descartável do jornalismo, vários cronistas selecionam alguns de seus textos, que parecem menos perecíveis, para editá-los sob a forma de livro. Tal providência, por seu turno, não garante a perenidade da obra pois como a crônica submerge nos acontecimentos diário, corre o risco de perder seu interesse exatamente na medida em que aqueles fatos se tornarem passado e deixarem de atrair a atenção.
Assinale-se também que a crônica – por decorrer das necessidades dos jornais e das revistas – não é praticada fora das salas de redação, desconhecendo-se escritores importantes que a tenham composto apenas para publicação em livro, a exemplo das outras espécies literárias.

Os vários tipos de crônica

A rigor, podemos falar na existência de três tipos de crônica, que muitas vezes se confundem:

Crônica lírica ou poética
Caracteriza-se pelo flagrante de aspectos sentimentais, nostálgicos ou de simples beleza da vida urbana, especialmente do Rio de Janeiro. Seu maior expoente é Rubem Braga, seguido por legítimos poetas-prosadores como Carlos Drummond de Andrade, Antônio Maria, Paulo Mendes Campos e outros. Este tipo de comentário poético parece em desuso, provavelmente devido à violência e a degradação na vida das grandes cidades brasileiras. Veja-se este fragmento da crônica Procura-se, de Rubem Braga:

Procura-se aflitivamente pelas igrejas e botequins, e no recesso dos lares e nas gavetas dos escritórios, procura-se insistente e melancolicamente, procura-se comovida e desesperadamente, e de todos os modos e com muitos outros advérbios de modo, procura-se junto a amigos judeus e árabes, e senhoras suspeitas e insuspeitas, sem distinção de credo nem de plástica, procura-se junto às estátuas e na areia da praia e na noite de chuva e na manhã encharcada de luz, procura-se com as mãos, os olhos e o coração um pobre caderninho azul que tem escrito na capa a palavra endereços e dentro está todo sujo, rabiscado e velho.
Pondera-se que tal caderninho não tem valor para nenhuma outra pessoa, a não ser seu desgraçado autor. Tem este autor publicado vários livros e enchido ou bem ou mal centenas de quilômetros de colunas de jornal e revista, porém sua única obra sincera e sentida é esse caderninho azul, escrito através de longos anos de aflições e esperanças, de negócios urgentes e amores contrariadíssimos, embora seja forçoso confessar que há números de telefone que foram escritos em momentos em que um pé do cidadão pisava uma nuvem e outro uma estrela e os outros dois... – sim, meus concidadãos, trata-se de um quadrúpede. Eu sou um velho quadrúpede. E de quatro joelhos no chão peço que me ajudeis a encontrar esse objeto perdido
.

Crônica de humor
Procura basicamente o riso, com certo registro irônico dos costumes. Apresenta-se, como já vimos, tanto sob a forma de um comentário quanto de um relato curto, próximo do conto. Do primeiro caso tem-se como exemplo um trecho de O flagelo do vestibular, de Luis Fernando Veríssimo:

( ...) Nunca tive que passar pelo martírio de um vestibular. É uma experiência que jamais vou ter, como a dor do parto. Mas isso não impede que todos os anos, por essa época, eu sofra com o padecimento de amigos que se submetem à terrível prova, ou até de estranhos que vejo pelos jornais chegando um minuto atrasados, tendo insolações e tonturas, roendo metade do lápis durante o exame e no fim olhando para o infinito com aquele ar de sobrevivente da Marcha da Morte de Batan. Enfim, os flagelados do unificado. Só lhes posso oferecer a minha simpatia. Como ofereci a uma conhecida nossa que este ano esteve no inferno.
– Calma, calma. Você pode parar de roer as unhas. O pior já passou.
- Não consigo. Vou levar duas semanas para me acalmar.
– Bom, então roa as suas próprias unhas. Essas são as minhas.
– Ah, desculpe. Foi terrível. A incerteza, as noites sem sono. Eu estava de um jeito que até calmante me excitava, e quando conseguia dormir sonhava com escolhas múltiplas: A) fracasso, B) vexame, C) desilusão. E acordava gritando: Nenhuma destas, nenhuma destas. Foi horrível.
– Só não compreendo porque você inventou de fazer vestibular a esta altura da vida...
– Mas quem é que fez vestibular? Foi meu filho! E o cretino está na praia, enquanto eu fico aqui, à beira do colapso.
Mãe de vestibulando. Os casos mais dolorosos. O inconsciente do filho às vezes nem tá: diz pra coroa que cravou coluna do meio em tudo e está matematicamente garantido. E ela ali, desdobrando fila por fila o gabarito. Não haveria um jeito mais humano de fazer a seleção para as universidades? Por exemplo, largar todos os candidatos no ponto mais remoto da floresta amazônica e os que voltassem à civilização estariam automaticamente classificados? Afinal, o Brasil precisa de desbravadores. E as mães dos reprovados, quando indagadas sobre a sorte do filho, poderiam enxugar uma lágrima e dizer com altivez:
– Ele foi um dos que não voltaram...
Em vez de:
– É um burro!

Crônica-ensaio

Apesar de ser escrita em linguagem literária, ter uma veia humorística e valer-se inclusive da ficção, este tipo de crônica apresenta uma visão abertamente crítica da realidade cultural e ideológica de sua época, servindo para mostrar o que autor quer ou não quer de seu país. Aproxima-se do ensaio, do qual guarda o aspecto argumentativo Nelson Rodrigues é o grande nome dessa linha, mas devemos citar também Paulo Francis, Arnaldo Jabor, Carlos Heitor Cony e, em alguns textos, Luís Fernando Veríssimo. Observe este fragmento da crônica de Arnaldo Jabor, O carnaval virou uma paisagem de nádegas:

Hoje é carnaval e como ando numa onda nostálgica sou arremessado para 1950, no colo de
meu pai, na Avenida Rio Branco, vendo passar as sociedades carnavalescas. Eram grandes carros
alegóricos, cheios de rodas moventes, de estátuas de papel e massa, toscas e épicas com grandes
rostos, estrelas, engrenagens brilhantes, sóis, luas, cobertos de mulheres provocantes. Meu pai me
lavava pela mão e eu olhava um imenso carro (seria grande mesmo ou era a escala de minha
infância?) que era um despotismo de cachos de bananas, com uma lindíssima mulher morena e nua
no alto. Os pais de família, as mães de família (todo mundo era de família...) diziam: "Olha a
Elvira Pagã! Olha a Elvira Pagã!". Elvira Pagã era apenas uma vedete, mas, naquele ano remoto,
ela queria provar alguma coisa. Algumas mulheres como ela (Luz del Fuego e outras)
transcendiam o palco e viravam o símbolo vivo de alguma loucura no ar, de algum desejo
reprimido no coração das famílias. Eu olhava em volta e via nas senhoras distintas a inveja infinita
e escandalizada e via no meu pai um olhar que eu não conhecia, voltado para a Elvira Pagã (que
nome anticristão e nu!). Havia naquela nudez uma coragem que não vejo nos tempos libertinos de
agora. Hoje, as mulheres das escolas de samba não tem mais o que despir. Travam uma
competição frenética de coxas e bundas e seios. Mas que mostrarão no futuro? Que querem elas
provar do alto de sua imensa euforia? Querem nos levar para o fundo do mar como sereias?
Querem provar que o sexo sem limites poderá resolver os problemas do Brasil? Querem provar
que nossas vidas são escuras e mesquinhas?
Há qualquer coisa de agônico e lancinante nestas mulheres nuas. As mulheres alegóricas de
hoje se oferecem numa violência de curvas e rebolados, numa ostensiva volúpia, num excesso de
ofertas que inviabilizam qualquer tesão. Há uma certa angústia nesta oferta panorâmica de sexo.
(...) A ruptura total de todas as barreiras tirou da nudez seu traço de liberdade. Choca-me (ouso
dizê-lo) fazer parte de um país cujo símbolo é o rabo de nossas mulheres. Choca-me ver nossas
filhas esfregando o sexo nas lentes da tevê. Que é isso? É o ato sexual da globalização? Não há
francesas, americanas ou alemãs fazendo este elogio infinito do desejo, inclusive mentiroso, porque
ninguém é tão sexy assim. Nós viramos uma espécie de curiosa Sodoma subdesenvolvida.

EVOLUÇÃO

A crônica teve um desenvolvimento específico no Brasil, não faltando historiadores literários que lhe atribuem um caráter exclusivamente nacional. Com efeito, a crônica como a entendemos, um pequeno comentário lírico ou irônico sobre fatos insignificantes, ou ainda uma história curta de fundo humorístico, não é comum na imprensa de outros países. Justifica-se assim a dimensão brasileira desse gênero menor.

A partir da era romântica, surgiu nos jornais do Rio de Janeiro um rodapé conhecido como folhetim, (o mesmo nome atribuído aos romances que apareciam em capítulos nos diários da época), onde um autor conhecido escrevia um artigo, comentando as questões do dia, fossem as artísticas, fossem as sociais. José de Alencar e Machado de Assis, entre outros, ocuparam este espaço de variedades, legítima matriz da crônica moderna. Aliás, Machado sintetizou com precisão o gênero que estava nascendo:
Uma fusão admirável do útil e do fútil, o sério consorciado com o frívolo...

Além dos dois maiores romancistas brasileiros do século XIX, também o poeta Olavo Bilac tornou-se um adepto do comentário ligeiro acerca do cotidiano. Já no início do século XX, Lima Barreto e João do Rio se destacaram; o primeiro pelo tom caricatural e veemente de suas crônicas; o segundo por se converter no porta-voz do espírito da "belle époque" carioca. Mas foi a partir das décadas de 1940 e 1950, com as obras de Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Antônio Maria e outros que a crônica ganhou o status de literatura, passando a receber especial estima do grande público.

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