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Poesia Lírica- parte I
A primeira percepção que temos da poesia lírica (ou simplesmente poesia, como hoje a chamamos) diz respeito ao aspecto que ela, em geral, se apresenta: o verso. Em princípio, verso é cada uma das linhas que compõem o texto poético. Tomemos como exemplo um verso de Olavo Bilac: Primavera. Um sorriso aberto em tudo. Os ramosA disposição tipográfica já indica que o verso é comparativamente mais breve que um texto em prosa. (Prosa, por seu turno, é toda e qualquer frase, um conjunto de frases ou texto de extensão indeterminada que não possua nem métrica nem rima. Prosa, portanto, é quase toda a linguagem escrita.) A brevidade do verso origina-se tanto do esforço de síntese expressiva – que a maioria dos poetas persegue – como pela efeitos sugestivos de musicalidade e de regularidade rítmica. As últimas características, aliás, remetem o verso para os primórdios da criação literária, quando os poemas líricos eram recitados com acompanhamento de instrumentos musicais, entre os quais se destacava a lira. Esta unidade ordenada em sons, ritmo e sentido de um verso, por mais bela que seja, parece não estar completa em si própria, exigindo uma continuação correspondente. Uma seqüência no pensamento e uma repetição no ritmo. Forma-se então a estrofe – que é um grupo de versos – freqüentemente repetida até o fim do poema.
No transcorrer da história literária, certas maneiras de dispor os versos e as estrofes acabaram se universalizando e se constituíram em formas fixas de grande aceitação e prestígio. A mais conhecida e estimada é o soneto, cuja invenção deu-se na Itália do século XIII e foi consolidado no século posterior por Francesco Petrarca (1304-1374). Construído obrigatoriamente por quatro estrofes (dois quartetos e dois tercetos), totalizando quatorze versos, o soneto se propagou durante o Renascimento, apareceu com muita força no Barroco, ressurgiu durante o Parnasianismo e o Simbolismo, e continuou com surpreendente vitalidade na poesia contemporânea. O verso que indicamos acima, de Olavo Bilac, é o começo de Última página, um de seus mais famosos sonetos: Primavera. Um sorriso aberto em tudo. Os ramos Numa palpitação de flores e de ninhos. Doirava o sol de outubro a areia dos caminhos (Lembras-te, Rosa?) e ao sol de outubro nos amamos.Verão. (Lembras-te, Dulce?) Á beira-mar, sozinhos Tentou-nos o pecado: olhaste-me... e pecamos; E o outono desfolhava os roseirais vizinhos, Ó Laura, a vez primeira em que nos abraçamos...Veio o inverno. Porém, sentada em meus joelhos, Nua, presos aos meus os teus lábios vermelhos, (Lembras-te, Branca?) ardia a tua carne em flor...Carne, que queres mais? Coração, que mais queres? Passam as estações e passam as mulheres... E eu tenho amado tanto! E não conheço o Amor!
Ainda que o verso seja a unidade sonora, rítmica e semântica da maior parte dos poemas, ele se mostra incapaz de abarcar a totalidade do gênero lírico. Em primeiro lugar, porque dispor em versos uma receita médica ou um relato histórico ou qualquer outro texto não lhes garante o caráter poético. Em segundo lugar, porque alguns poetas escrevem poemas em prosa, renunciando ao verso. Mesmo assim, nós sabemos que seus textos possuem uma dimensão lírica. É o que ocorre com este curto poema de Mário Quintana: Uma formiguinha atravessa em diagonal a página ainda em branco. Mas ele, aquela noite, não escreveu nada. Para quê? Se por ali já havia passado o frêmito e o mistério da vida... Além disso, a definição da poesia pelo uso do verso esbarra num problema histórico. Na Antiguidade Clássica, todos os gêneros (lírico, épico e dramático) eram estruturados em versos metrificados. A Ilíada (Homero) e Édipo rei (Sófocles), por exemplo, obras-primas do épico e do dramático, foram escritas em versos. Atribui-se ao filósofo Gorgias a frase de que o “poético (no caso, o “literário”) é todo o discurso composto em forma métrica”. Apesar da opinião equivocada, percebe-se com clareza o fato de que o componente métrico – próprio do verso –, presente em todas as obras inaugurais e fundadoras da literatura, indicava a forte proximidade que ainda havia entre a linguagem – falada ou escrita – e a música.
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