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Poesia- parte II

A rima

Embora desconhecida na literatura antiga, a rima tornou-se - a partir do início da Idade Média – um elemento fundamental da lírica. Ela reforçava os aspectos sonoros e musicais dos versos, além de estabelecer algumas correspondências de sentido entre eles. A rima nasce de uma semelhança ou de uma igualdade de sons em dois ou mais versos: calor / amor; remédio / tédio; etc. Geralmente, ela se dá no final dos versos, de forma alternada (AB/AB), como nesta estrofe de um poema de Vinícius de Moraes:

Distante o meu amor, se me afigura (A)
O amor como um patético tormento (B)
Pensar nele é morrer de desventura (A)
Não pensar é matar meu pensamento.(B)

As rimas também podem aparecer duas a duas (AA/BB/CC), sendo conhecidas como rimas emparelhadas. Existe também as que ocorrem entre o primeiro e o quarto versos, o segundo e o terceiro (AB/BA), recebendo o nome de rimas entrelaçadas . Há também uma rima interior, quando uma ou mais palavras que coincidem sonoramente estão no interior do verso. Veja-se este exemplo de Fernando Pessoa:

E há nevoentos desencantos
Dos encantos dos pensamentos
Nos santos lentos dos recantos
Dos bentos cantos dos conventos
Prantos de intentos, lentos, tantos
Que encantam os atentos ventos.

Durante o século XVIII, os autores do Arcadismo, em nome dos antigos clássicos, combateram duramente a rima na poesia. Instituiu-se então o verso branco, onde as semelhanças ou identidades de fonemas não apareciam. No século seguinte, a rima ressurgiu com força, em especial nos autores do Romantismo e do Parnasianismo. Já no século XX, ela quase desapareceu diante do verso livre (sem rima e sem métrica), utilizado pela maioria dos poetas contemporâneos.

A questão da subjetividade

Uma das definições mais largamente utilizadas para a lírica é a de que ela expressa a subjetividade. No soneto Última página, por exemplo, a voz interior do poeta evoca um punhado de lembranças intensas. São os amores que já se foram – identificados em sua brevidade com a ciranda implacável das estações –, sem que o grande amor, o Amor com maiúscula, tivesse sido alcançado.

O que o nosso maior parnasiano faz neste poema é confessar a sua vida íntima (real ou fictícia), assinalada por várias experiências eróticas e por doloroso fracasso afetivo. Com este antagonismo entre o prazer da carne e insatisfação da alma, ele desperta no leitor uma imediata cumplicidade emotiva e o encarcera com o charme de seus versos.

É inquestionável que o poeta lírico expressa, sobretudo, o seu mundo subjetivo. Alceu e Safo – já no século VII a.C. – versavam sobre temas pessoais, com acento nas paixões individuais. A própria história do gênero mostra o predomínio da revelação íntima: medos e certezas, êxtases e ilusões, gozos e tormentos, esperanças e decepções.

A base da lírica parece constituída por esse extravasamento da alma. Exatamente por isso, por ser a expressão das disposições íntimas do poeta, é que ela se concentra com tamanha intensidade. Em Andorinha, Manuel Bandeira enuncia uma breve reflexão que condensa todas as suas vivências:

Andorinha lá fora está dizendo:
-‘Passei o dia à toa, à toa!’

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa...

Subjetividade e emoção

É de observar também que a subjetividade liga-se intimamente aos componentes emotivos da personalidade. Daí a vinculação bastante aceitável entre a lírica e a vibração sentimental, estabelecendo – no senso comum dos leitores – a idéia de que a poesia é uma mensagem centrada no registro das emoções.

Embora haja incontáveis poemas voltados para uma análise mais cerebral e filosófica dos destinos humanos, não se pode objetar que a relação entre o subjetivo e o afetivo seja em larga escala dominante. A maioria dos poetas, que conhecemos e amamos, tende ao confessionalismo, quer dizer, ao desnudamento de seus sentimentos mais profundos, como neste fragmento de Álvares de Azevedo:

Passei como Don Juan entre as donzelas.
Suspirei as canções mais doloridas
E ninguém me escutou...
Oh! Nunca virgem flor das faces belas
Sorvi o mel, nas longas despedidas...
Meu Deus! Ninguém me amou!

O sentido do eu-lírico

Poemas como esse estabelecem uma eterna confusão entre a obra e a biografia do escritor. A crença na sinceridade desse último – em parte justificada – leva à conclusão de que todo o criador de versos é simultaneamente um amante voraz, um alucinado dos sentidos, um melancólico exasperado, um sonhador incorrigível, etc. Quer dizer, um ser humano muito distinto dos demais de sua espécie, um ser tocado pela divindade ou pela maldição, como pensavam o filósofo grego Platão e, muito tempo depois, os românticos e os simbolistas.

Contrariando o mito romântico, podemos assegurar que vivências dramáticas e radicais não asseguram a qualidade artística de qualquer obra. Carlos Drummond de Andrade, por exemplo, teve (pelo menos aparentemente) uma vida insípida, uma “vida besta” como gostava de sublinhar em seus textos, e apesar disso é a grande voz da lírica brasileira.

Na verdade, inúmeros poetas têm uma existência absolutamente rotineira e vulgar, são pacatos funcionários ou respeitáveis pequenos burgueses que produzem os versos mais ardentes de pijamas, chinelos de plástico e gorrinhos de dormir. A criação resulta neles da percepção sensível das coisas que os rodeiam e não da intensidade de suas biografias.

Para fugir da embrulhada (biografia e poema), os críticos vêm usando o termo eu-lírico – que corresponderia, de certa forma, ao narrador de um romance. O eu-lírico pode ou não expressar as vivências efetivas do poeta, mas a validade estética do texto independe da sinceridade pessoal do autor.

Não importa se Bilac tenha de fato se relacionado fisicamente com uma mulher, chamada Rosa, sob o sol do outono. Ou se Álvares de Azevedo não tenha sido amado por ninguém. Ou se, no fundo de seu coração, Bandeira realmente tenha concluído que sua vida pessoal não valeu nada. O que importa é que o eu-lírico nos convença – com emoção e beleza de imagens – desses acontecimentos e sensações.

Em Autopsicografia, Fernando Pessoa, o mais notável dos escritores portugueses do século XX, traduz a ambigüidade do sujeito poético:

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

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