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Poesia- parte III
Há aqueles que argumentam contra a teoria da subjetividade poética, aludindo a textos que tratam da realidade objetiva e mantêm o caráter lírico. Quando Gonçalves Dias refere-se à sociedade indígena ou Jorge de Lima evoca aspectos da cultura popular nordestina, eles não estão exprimindo a sua vida interior e, no entanto, realizam versos de esplêndida força e sensibilidade. Estes exemplos, contudo, podem ser contestados porque se referem a mundos objetivos que ficam impregnados pela subjetividade do escritor. Isto é, são realidades objetivas que apenas se tornam poéticas quando particularizadas, interiorizadas e recriadas pelo eu-lírico. A falha na teoria da “subjetivização” como elemento estruturador do gênero não reside em que alguém faça versos sobre temas aparentemente impessoais, a falha nessa teoria é de outra ordem. Milhares de manifestações subjetivas (e emocionais) ocorrem a todo o momento, na vida das pessoas, e não se configuram como literatura. Além disso, explosões de interioridade surgem em outros gêneros – em especial no romance, no teatro e na crônica do século XX –, dificultando a sua utilização teórica. Por conseguinte, mais uma vez somos obrigados a voltar à questão da linguagem específica da arte literária.
O que diferencia um poema de um desabafo íntimo (ambos portadores de subjetividade) é a sua articulação verbal. É o esforço estético que preside o processo de seleção e ordenação das palavras. É o esmero formal que faz com que um texto sobressaia-se sobre uma profusão de outros e, assim, permaneça no tempo. Ressalte-se que nenhum outro gênero tem tamanha dependência da linguagem quanto o lírico. Por sua concentração semântica, por seu ritmo e musicalidade, pela procura dos efeitos sugestivos e simbólicos das palavras, pela fuga de tudo aquilo que represente lugar-comum ou obviedade lingüística, pela tentativa de criação de uma unidade de efeito, onde deve prevalecer a impressão de beleza e harmonia, a lírica obrigatoriamente transforma a linguagem na sua própria essência. Daí que a linguagem de um poema seja sempre “palpável”, opaca e insubstituível. No romance, pode acontecer o contrário. Durante décadas, os brasileiros só conseguiram ler os russos de primeira grandeza, Tolstoi e Dostoiévski, em traduções feitas do francês. Isso não impediu que a vitalidade dramática de suas obras deixasse de ser fruída por um expressivo conjunto de leitores. Mesmo chegando em terceira mão, os romancistas russos atingiram nossos corações, espantando-nos poderosamente com suas revelações acerca da vida e dos homens. Esta experiência, infelizmente, não é comum na poesia. A precisão vocabular, a sonoridade, a disposição das palavras nos versos, a sua possibilidade expressiva, enfim, encontra-se de tal modo conectada aos recursos de cada idioma que torna quase impossível a sua tradução. Veja-se o caso do ritmo: ele depende da prosódia que é variável de língua a língua. Numa tradução, tende a desaparecer.
Ao tentar definir a linguagem da lírica, o poeta Ezra Pound considera além da questão rítmica e do emprego exclusivo de palavras indispensáveis, o valor visual e emotivo das imagens. Se voltarmos ao soneto de Bilac, perceberemos os efeitos plásticos alcançados pela associação das estações com imagens específicas de cada uma. A primavera com flores, ninhos e o sol de outubro dourando a areia. O verão com o mar. O outono com o desfolhar dos roseirais. Em cada uma dessas estações, o amor é quase uma decorrência da natureza. Como resistir ao desejo, debaixo desse sol de outubro, ou sozinhos à beira-mar, ou vendo as roseiras perdendo as roupas, isto é, as folhas? As próprias imagens incitam ao pecado. Já o inverno – sem nenhuma referência concreta – funciona como antítese silenciosa, porque o seu frio gélido não impede que a carne de Branca arda no fogo vulcânico da paixão. Assim, intensificada pela magia das imagens, a linguagem poética cumpre sua função, suscitando nos leitores um estado de receptividade e encantamento. Além disso, a linguagem poética só realiza a sua função de “poesia pura” – na fórmula de Paul Valéry – quando apresenta “uma maneira inesperada de dizer as coisas”. Com efeito, basta lembrarmos de certos versos e concordaremos com o poeta francês. Em Tereza, Manuel Bandeira assinala a trajetória do conhecimento à paixão com surpreendentes imagens que começam com a estupidez das pernas da moça e terminam com uma espécie de convulsão apocalíptica, como se o amor tivesse um caráter surreal e divino: A primeira vez que vi Tereza Achei que tinhas pernas estúpidas Achei também que a cara parecia uma perna Quando vi Tereza de novo Achei que os olhos eram muito mais velhos do que o resto do corpo Da terceira vez não vi mais nada Os céus se misturaram com a terra E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.
A produção de imagens vincula-se a certos recursos lingüísticos utilizados pelos poetas: são as chamadas figuras. Entre as principais figuras de estilo sobressai-se a metáfora. A metáfora é uma comparação na qual o termo comparativo (“como”) desaparece. O português Antero de Quental, por exemplo, escreve: “Um dilúvio de luz cai da montanha...”. Na verdade, ele está dizendo: “A luz que cai da montanha é como um dilúvio”. Ao relacionar arbitrariamente o imenso fluxo de águas diluvianas com a torrente de luz que desce de um monte, ele amplia o significado poético do verso, criando uma energia sugestiva nova para as palavras dilúvio e luz. Esta potencialidade da metáfora de criar significados diferentes através de comparações originais abre caminhos para os poetas fugirem da repetição e da obviedade. Porque há certos motivos que vão se tornando redundantes na história do gênero. Um deles, com certeza, é a descrição elogiosa dos atributos físicos femininos. Desde os velhos gregos até a modernidade, canta-se a beleza corpórea das mulheres, a um ponto que nada de novo poderia ser dito sobre o assunto. Porém o mexicano Octavio Paz, como observamos em Corpo à vista, é capaz de reinventar liricamente a concretude física de sua amada, valendo-se de metáforas ousadas: E as sombras se abriram outra vez e mostraram um corpo: teu cabelo, outono espesso, queda de água solar, tua boca e a branca disciplina dos dentes canibais, prisioneiros em chamas, tua pele de pão apenas dourado e teus olhos de açúcar queimado, lugares onde o tempo não transcorre, vales que só os meus lábios conhecem, desfiladeiro da lua que ascende a tua garganta por entre os seios, cascata petrificada na nuca, alta planície de teu ventre, praia sem fim das tuas costas. Teus olhos são os olhos fixos do tigre e um minuto depois são os olhos úmidos do cão. Sempre há abelhas em teus cabelos. Tua espádua flui tranqüila debaixo de meus olhos como a espádua do rio à luz do incêndio. Águas adormecidas golpeiam dia e noite a tua cintura de argila e em tuas costas, imensas como os areais da lua, o vento sopra por minha boca e seu largo queixume cobre com duas asas cinzas a noite dos corpos. As unhas de teus pés estão feitas de cristais de verão. (...) Pátria de sangue única terra que conheço e me conhece única pátria em que creio única porta ao infinito.
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