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Poesia- parte IV
Especialmente a partir do Romantismo e do Simbolismo, ambos no século XIX, a obra poética começa a tender para a polissemia, isto é, para a criação de uma realidade que possui vários sentidos, podendo ser lida e interpretada sob múltiplos ângulos. A principal responsável pela abertura semântica do texto poético é ainda a metáfora. Quando Castro Alves, em A queimada, resolve transpor o significado do incêndio numa floresta para outras palavras, ele diz: “Incêndio – leão ruivo ensangüentado”. A portentosa imagem acaba sugerindo uma tal rede de sentidos que, na linguagem denotativa, o escritor necessitaria de dezenas de vocábulos para obter o mesmo efeito. Vejamos o que esta metáfora oferece: - o próprio símbolo do incêndio: a imagem do leão ferido representa o ferimento do fogo na mata; - a proporção do evento: ao compará-lo a um leão, o rei dos animais, a metáfora comunica a idéia de grandeza e terrível majestade do incêndio; - a cor das chamas: o “ruivo ensangüentado” transmite as colorações cambiantes do fogo; - o movimento das chamas: o “ruivo ensangüentado” da a impressão de um animal ferido que se agita e se contorce desesperadamente. Outra manifestação clássica de polissemia do gênero lírico é Estrela da manhã, de Manuel Bandeira: Eu quero a estrela da manhã Onde está a estrela da manhã? Meus amigos meus inimigos Procurem a estrela da manhãEla desapareceu ia nua Desapareceu com quem? Procurem por toda a parteDigam que sou um homem sem orgulho Um homem que aceita tudo Que me importa? (...)Virgem mal-sexuada Atribuladora dos aflitos Girafa de duas cabeças Pecai por todos pecai com todosPecai com os malandros Pecai com os sargentos Pecai com os fuzileiros navais Pecai de todas as maneiras Com os gregos e troianos Com o padre e o sacristão Com o leproso de Pouso AltoDepois comigo Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples Que tu desfalecerásProcurem por toda a parte Pura ou degradada até a última baixeza Eu quero a estrela da manhã. Ao afirmar que precisa dessa estrela e ao apontá-la como incansável pecadora, o poeta retira da palavra o seu sentido comum, saindo do campo astronômico e ingressando no plano da ambigüidade simbólica. Quem é a estrela da manhã? Uma prostituta? A amante adúltera? A própria vida que, por razões de saúde, o escritor não consegue assumir concretamente? Neste caso, cada leitor deve escolher, entre os vários significados possíveis, o que melhor corresponde a sua visão do poema.
Como última observação, devemos frisar que muitos poetas contemporâneos rejeitam o uso de imagens e metáforas em sua lírica, optando por uma linguagem exata e rigorosa – freqüentemente áspera pela intencional anti-musicalidade. Mesmo assim, elaboram poemas de notável qualidade. Com isso demonstram que, em nossa era, já não há nenhuma receita ou cânone* universal para a produção artística.
Talvez fosse possível delimitar o gênero lírico como aquele que abarca obras de natureza breve, normalmente de dimensão subjetiva e de intensa emotividade, escritas em versos por causa dos efeitos rítmicos e sonoros das palavras, que apresentam uma linguagem inesperada e sugestiva, no mais das vezes centrada em imagens, e que têm como objetivo último despertar ressonâncias emocionais em seus leitores.
As manifestações mais primitivas da poesia estão vinculadas ao canto nas festas religiosas, instituindo-se como um tipo de poesia coral. Suas origens perdem-se nas sombras do tempo. Já o processo de individualização da lírica ocorre a partir do século VII a.C., na Grécia, quando artistas de efetiva originalidade cantam seus versos, sempre acompanhados por um instrumento musical chamado lira. Mais tarde, também a flauta seria usada para tal fim. Há, portanto, uma idéia de espetáculo: os poemas são interpretados para o público com seu adequado apoio instrumental. Em seus primórdios, o gênero lírico se assenta em duas estruturas, o iambo e a elegia. O iambo, bastante ligado à fala cotidiana, apresenta uma dimensão mais cômica e satírica. A elegia, porém, formada por estrofes de apenas dois versos, aproxima-se de um sentido mais subjetivo e geralmente melancólico, refletindo estados anímicos com os quais os poetas parecem se identificar: o amor, a morte, a esperança, a dor, etc. O surgimento e posterior difusão do gênero na Grécia correspondem ao declínio da nobreza fundiária que se vê ultrapassada por uma nova classe, a burguesia comercial. Esta se origina do vasto comércio estabelecido pelos gregos – desde o século VII a.C. – com reinos asiáticos e as populações costeiras do Mediterrâneo. Opera-se uma revolução econômica sem precedentes, da qual um dos reflexos é a cunhagem de moedas. Logo os novos setores dominantes começam a se afastar dos valores da aristocracia terratenente e militar. A epopéia – que traduzia em seus versos o culto do heroísmo exemplar, do passado legendário e a celebração dos mitos e dessa maneira justificava a superioridade moral da nobreza – cede lugar ao canto emotivo do presente e aos sentimentos exclusivos do poeta.
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