No quadro da cultura grega, o apogeu da lírica corresponde a mais ou menos dois séculos, culminando com o brilhante século V a.C., o século de Péricles, quando acodem a Atenas todos os sábios, todos os poetas, todos os artistas, todos os oradores, numa culminância de gênios que nunca mais se repetirá na evolução social. O que resta de tal período são contribuições individuais – geralmente fragmentárias – mas que, no dizer de um historiador, “constituem um quadro vigoroso pela intensidade emotiva, pela pintura social e pela riqueza de vivências”.
Com o transcurso do tempo, os poetas líricos afastam de seu foco de interesse as circunstâncias históricas e sociais imediatas, preferindo uma elaboração mais voltada para a interioridade ou para a generalização de experiências individuais. Forma-se então um conjunto de temas “universais”, configurando o que se chama “tradição lírica ocidental”, vigente até nossos dias.
Entre tais assuntos (menos subordinados ao vaivém dos séculos), figuram o canto amoroso, a interrogação sobre o sentido da vida e da morte, a consciência da brevidade da existência, a meditação sobre o valor dos gestos humanos, o questionamento religioso, a louvação da natureza, etc.
De acordo com o seu assunto, linguagem e visão de mundo desenvolvem-se, na Grécia, tipos diferenciados de poesia lírica, que constituem uma espécie de subdivisão ou subgênero como, por exemplo, a:
- Ode: poema mais ou menos longo que expressa sentimentos tratados com elevação e profundidade, tendo muitas vezes um caráter de celebração e de elogio.
- Elegia: poema que traduz sentimentos melancólicos ou de dor profunda diante de um drama existencial ou da própria morte.
- Sátira: poema que ironiza vícios, defeitos e costumes dos indivíduos ou das coletividades
Durante dois mil e setecentos anos o gênero lírico sobreviveu, estabelecendo uma cumplicidade emocional, primeiro com seus ouvintes, depois com seus leitores. Outros gêneros não possuem a mesma resistência e se transformam continuamente. O fato da poesia permanecer por cerca de três milênios quase sem modificações atesta o quão necessária ela foi e é para a humanidade, tornando meramente retórica a ironia do poeta francês Jean Cocteau:
“A poesia é indispensável. Se eu ao menos soubesse para quê...”