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  Romance de 30


Cyro dos Anjos

CYRO DOS ANJOS (1906 -1994)

Vida: Nasceu em Montes Claros, Minas Gerais, filho de um fazendeiro-professor e de uma mulher igualmente ilustrada que lhe possibilitaram uma educação qualificada. Ainda em sua cidade natal, fez seus estudos secundários. Depois, mudou-se para Belo Horizonte e bacharelou-se em Direito. Em seguida, entrou na vida burocrática na qual ocupaou cargos importantes na administração estadual mineira. Como intelectual conviveu com a geração de Carlos Drummond de Andrade, João Alphonsus e outros escritores de peso. Em 1937 lançou a sua mais importante obra, O amanuense Belmiro. Em 1946, transferiu-se para o Rio de Janeiro, sempre exercendo funções burocráticas elevadas, agora na administração federal. Passou um ano no México regendo a cadeira de Estudos Brasileiros na Universidade Autônoma. Exerceu idêntica função na Universidade de Lisboa. Ao voltar para o Brasil foi subchefe do Gabinete Civil do governo JK e, mais tarde, professor na Universidade de Brasília e membro do Tribunal de Contas do Distrito Federal. Morreu no Rio de janeiro em 1994.

Obras principais: O amanuense Belmiro (1937); Abdias (1945)

Cyro dos Anjos foi o romancista mais sutil e poético da geração de 30. Em meio a um conjunto de obras de denúncia social e impiedosos registros das contradições brasileiras, os romances deste autor mineiro – sobremodo O amanuense* Belmiro – destacam-se pelo lirismo e pela delicadeza de traços.

*Amanuense: Funcionário público de condição modesta.

O AMANUENSE BELMIRO

Argumento

Belmiro, burocrata solteiro de trinta e oito anos, habitante de Belo Horizonte, escreve um diário como forma de compensação pela mediocridade de sua vida pessoal. Em princípio, pretende relatar o seu passado na pequena Vila de Caraíbas, no interior mineiro. Sob um olhar francamente idealizante, ele se dispõe a evocar a grandeza dos Borbas – família oligárquica da qual é descendente fracassado. Simultaneamente – rememora o seu louco amor por uma jovem chamada Camila (que já morreu), e tudo aquilo que no tempo pretérito representava beleza e poesia. Contudo, as atribulações do presente acabam subjugando o passado, a tal ponto que este surge apenas em momentos esporádicos, como contraponto lírico às angústias atuais.

A função pública quase nada exige de Belmiro. Assim, pode dedicar-se aos amigos, às irmãs mais velhas que vivem com ele, e, principalmente, à sua própria interioridade, incessantemente mostrada. A análise excessiva parece condená-lo à paralisia frente à vida. No entanto, em sua subjetividade, ele cultiva ardente paixão platônica por uma jovem que o abraçara rapidamente em um baile de carnaval e depois desaparecera. Belmiro invoca então o “mito de Arabela”, donzela de suas leituras infantis, que vivia em uma torre de castelo e morria por amor. Esta imagem de uma inatingível deusa feminina, vinda da infância, e da qual ele jamais se livrou, parece justificar a sua incapacidade de relacionamento com as mulheres.

Mais tarde ele descobre – através de um amigo – que a moça era “real”, chamava-se Carmela e pertencia a uma família da elite econômica de Minas. Apesar das tentativas do amigo em apresentá-lo à jovem, Belmiro, ou por se sentir um “velho”, ou por inferioridade social, ou por timidez recusa-se a conhecer Carmela. Desta forma acaba, preferindo a mulher ideal à mulher concreta, conforme ele próprio anota em seu diário:

Já não reajo contra as visitas dessa doce imagem. Associei-me à minha vida, ela me pertence. A Carmela real, inatingível, será de outro, casará, terá filhos. Mas a que construí será sempre minha, e o tempo não exercerá sobre ela sua ação desagregadora, porque está fora dos domínios do tempo.

Este mergulho na vida interior não impede Belmiro de demonstrar interesse e piedade pelos seres que o circundam, abrindo um foco de ternura em meio a frieza da pura observação da existência. Os amigos com os quais se relaciona traduzem o limitado quadro humano e ideológico de uma pequena capital brasileira dos anos 30: Redelvim, o comunista ingênuo; Silvano, o intelectual simpatizante da ordem e da hierarquia; Jandira, uma espécie de feminista antes do tempo; Florêncio, um simplório pequeno burguês; Glicério, o jovem burocrata com pretensões literárias e aristocráticas.

No final do romance, Belmiro suspende definitivamente a escrita do diário, como se de certa forma a vida não pudesse lhe oferecer mais nada e restasse ao personagem-narrador apenas o remoer contínuo das coisas já passadas.

O QUE OBSERVAR

- O amanuense Belmiro é um texto em que a fineza psicológica e a captação amável da realidade atingem um nível incomum face aos demais relatos da década de 1930.

- Belmiro procede de uma família interiorana e patriarcal, destruída pelas crises das décadas de 1910 e 1920. É um protagonista inadequado ao mundo urbano. Sua saída, melancólica e acomodada, dá-se pela escrita: “Quem quiser que fale mal da literatura. Quanto a mim direi que devo a ela minha salvação. Venho da rua deprimido, escrevo dez linhas, torno-me olímpico...

- Há no texto uma tensão (sem maiores conflitos) entre o Belmiro lírico-sentimental e o Belmiro analista que tudo inventaria
- Em todos os amigos, Belmiro descobre valores humanos positivos que ultrapassam os limites de suas ideologias, estas sempre mesquinhas. Por isso, gosta deles, se interessa pelo seu destinos e em caso de necessidade – vencendo a sua impotência para a ação – os auxilia. Quando Redelvim é preso, após a Intentona Comunista, de 1935, o amanuense coloca em risco a própria carreira pública e mobiliza até um senador para libertar o amigo.

- Belmiro é um liberal ao mesmo tempo cético, ingênuo e impotente para a ação. Mistura, no dizer de Roberto Schwarz, perspicácia e banalidade. Vê a vida passando, sem possibilidades de realizar qualquer coisa de importante. Volta-se então para a criação de mitos (Carmela, Arabela, Jandira, Camila), com os quais suporta a existência, ainda que não acredite verdadeiramente neles. e ironiza. Por isso, o lirismo contínuo é dissolvido pela ironia, também contínua do amanuense. O final do romance remete para um grande vazio.

Esta mesma tendência analítica e introspectiva ressurgiria no outro romance de Cyro dos Anjos, Abdias, em que também sob a fórmula de um diário o narrador apresenta comentários líricos e reflexivos sobre a sua vida pessoal.

    
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