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Com certeza O Ateneu supera a formulação tradicional do realismo, pois apresenta um narrador cheio de emotividade. O Sérgio-adulto gostaria de rememorar com isenção as experiências de menino, porém à medida em que submerge no passado, este começa a voltar com tamanha vibração dolorosa que a objetividade dilui-se. É como se o adulto fosse tragado pelas impressões do menino que teimam em persistir na sua alma. Assim, O Ateneu se converte na pura expressão das emoções de Sérgio: sofrimento do menino e desejo de vingança do adulto. Essa densidade das impressões impede que o romance seja objetivo ou neutro.
Teria ele então um caráter impressionista?
Ora, o Impressionismo é um estilo que tem o seu apogeu durante as últimas décadas do século XIX, principalmente no campo das artes plásticas. Seu princípio básico é o de que todo e qualquer conhecimento racional e objetivo da realidade é precedido de uma sensação. Ou seja, de uma impressão sobre essa realidade. E se até ali a arte concentrara-se na observação detalhada das múltiplas facetas do real, agora, ao inverso, a arte deve procurar reproduzir as impressões do sujeito perante determinados objetos. Delimitando historicamente o Impressionismo, diz Arnold Hauser:
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Rua Montorgueil embandeirada, de Monet, traduz uma explosão de cores e luzes, naquela que é considerada, por alguns críticos, a obra impressionista de maior esplendor.
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É uma arte citadina, por excelência, não só porque pinta a cidade, mas porque também vê o mundo com olhos de citadino, e reage ante as impressões exteriores com os nervos superexcitados do homem técnico moderno; é um estilo citadino porque descobre a versatilidade, o ritmo nervoso, as impressões súbitas, agudas, mas sempre efêmeras da vida na cidade. (...) Constitui o ponto culminante da tendência dinâmica e da dissolução da estática imagem medieval do mundo.
Ainda que alguma aproximação possa ser feita entre o estilo impressionista da pintura e o da literatura, e ainda que o relato de Raul Pompéia guarde um tom sensorial e emotivo, este rótulo parece tão inconveniente quanto os anteriores.
Não seria o caso de abandonarmos ciranda tão infernal de etiquetas e classificações, e conceber O Ateneu apenas como um romance extremamente singular em nossa literatura?
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