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 Realismo/Naturalismo


RAUL POMPÉIA (cont.)

Aristarco, "monstro moral"

A síntese da dissolução de todos os valores é Aristarco, o diretor do colégio. Para Sérgio, ele encarna a perversidade do sistema. E o ódio, que o narrador-adulto guarda do internato, converge para sua figura caricatural e grotesca. Sem qualquer vislumbre humanista, dirige a escola como se ela fosse uma casa de comércio:

Aristarco todo era um anúncio. Os gestos, calmos, soberanos, eram de um rei - o autocrata*excelso dos silabários*; a pausa hierárquica do andar deixava sentir o esforço, a cada passo, que ele fazia para levar adiante, de empurrão, o progresso do ensino público.(...) A própria estatura, na imobilidade do gesto, na mudez do vulto, a simples estatura dizia ele: aqui está um grande homem...(...) Em suma, um personagem que, ao primeiro exame, produzia-nos a impressão de um enfermo, desta enfermidade atroz e estranha: a obsessão da própria estátua. Como tardasse a estátua, Aristarco satisfazia-se interinamente com a afluência dos estudantes ricos para o seu instituto. De fato, os educandos do Ateneu significavam a fina flor da mocidade brasileira.

Aristarco na visão crítica de Pompéia.
O sucesso de Aristarco origina-se dessa aparência de educador. Mantém-se graças ao pedantismo, ao brilho e à violência de sua retórica. O discurso encobre e mistifica a realidade, a linguagem serve ao poder:

"Um trabalho insano! [dizia Aristarco.] Moderar, animar, corrigir esta massa de caracteres, onde começa a ferver o fermento das inclinações, encontrar e encaminhar a natureza na época dos violentos ímpetos; amordaçar excessivos ardores; retemperar o ânimo dos que se dão por vencidos precocemente; espreitar, adivinhar os temperamentos; prevenir a depravação dos inocentes; espreitar os sítios obscuros; fiscalizar as amizades; desconfiar das hipocrisias; ser amoroso, ser violento, ser firme; triunfar dos sentimentos de compaixão para ser correto; proceder com segurança, para depois duvidar; punir para pedir perdão depois... (...) Ah, meus amigos, concluiu ofegante, não é o espírito que me custa, não é o estudo dos rapazes a minha preocupação... É o caráter! Não é a preguiça o inimigo, é a imoralidade!' Aristarco tinha para esta palavra uma entonação especial, comprida e terrível, que nunca mais esquece quem a ouviu de seus lábios. 'A imoralidade'.
E recuava tragicamente, crispando as mãos. 'Ah! mas eu sou tremendo quando esta desgraça nos escandaliza. Não! Estejam tranqüilos os pais! No Ateneu, a imoralidade não existe. Velo pela candura das crianças, como se fossem não digo meus filhos: minhas próprias filhas!

O adolescente Sérgio descobre a falsidade da linguagem de Aristarco. O adulto Sérgio - inventariando o passado no colégio - leva a hipocrisia das falas de Aristarco até os limites da sordidez. E o diretor nos é apresentado em toda a sua hipocrisia e vileza. Ele ama, sobretudo, a si mesmo, ou melhor, ele ama a imagem que fez de si. Os bajuladores, os que reforçam a imagem do "grande educador", são recompensados. Um professor chega a gritar: "Acima de Aristarco - Deus! Deus tão-somente; abaixo de Deus - Aristarco."

Na figura, caricaturada ao extremo por Sérgio, existe algo de megalomania. O seu narcisismo, o sonho com a eternidade de um busto, indica um comportamento anormal. Mas essa anormalidade (segundo o narrador) é institucionalizada pelo outros professores que acabam inaugurando festivamente o busto de Aristarco, perante ele mesmo.

* Autocrata: mandatário com poderes absolutos.
* Silabários: o conjunto que compõe a escrita silábica.


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