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Análise de Quincas Borba - parte II

O QUE OBSERVAR

A)Quincas Borba é o romance de Machado de Assis que mais se aproxima da tradição realista européia do século XIX. Narrado em terceira pessoa, a narrativa acompanha a trajetória ascensional de um modesto professor que se torna “capitalista”. Mas, ao contrário dos romances europeus, em que os personagens alçam-se através de ações de cálculo e de obstinação, a escalada de Rubião resulta de um mero golpe do acaso, a herança que Quincas Borba lhe deixou, sob a condição de cuidar do cachorro também chamado Quincas Borba.

B) Já no Rio de Janeiro para onde partiu em busca das luzes da capital, o matuto é vítima de duas terríveis atrações: a do amor, personificado em Sofia e a do poder, representado por Camacho, um jornalista inescrupuloso. Rubião não está preparado para a riqueza inesperada. Não tem percepção dos complexos mecanismos que regem os negócios na vida urbana e tampouco entende as sutilezas psicológicas que delimitam as relações pessoais na cidade. A sua progressiva loucura parece traduzir a estreiteza de sua consciência diante de um mundo que não compreende. É um protagonista passivo, incapaz de delimitar o seu próprio destino.

C)Apesar da ingenuidade que define a sua alama, Rubião é capaz de passar por cima de certas objeções éticas, mostrando que o seu móvel também é o interesse. Associa-se, por exemplo, a Palha, apenas para ficar mais próximo de Sofia e poder amá-la sem que a opinião pública levantasse suspeitas.

D) Um dos capítulos decisivos do romance é a festa promovida pelo casal Palha, em que Sofia flerta abertamente com o interiorano. Apaixonadíssimo, este se aproxima da mulher e lhe faz uma declaração amorosa, valendo-se de metáforas banais e ridículas. Sofia, para quem o flerte é apenas um direito natural de sua própria beleza, fica ofendida e foge de Rubião. Mais tarde, ela relata ao marido a declaração de amor do matuto mineiro. A primeira reação de Palha é de raiva. Em seguida, ele confessa à esposa a dívida significativa que contraíra com o novo amigo e de como desejava montar uma empresa com o mesmo. Portanto, esta amizade não podia acabar. Ainda que aborrecida, Sofia entende as razões do marido. Assim, o núcleo do romance – a exploração da fortuna de Rubião – é apresentado sem subterfúgios pelas ações e falas dos protagonistas.

E) Sofia é uma das grandes personagens femininas de Machado de Assis. Belíssima, charmosa, narcisista, exibida publicamente pelo marido que se compraz em vê-la encantar os homens, ela usa todas as técnicas possíveis de sedução, sem jamais chegar ao adultério. Esta dubiedade leva Rubião literalmente à loucura. No entanto, o prazer de ser vista e admirada produz em Sofia uma necessidade real de ser amada fora do âmbito doméstico: “Todas as imagens e nomes perdiam-se no mesmo desejo de amar.” E ela se apaixona por Carlos Maria, um galanteador fútil, e marca com ele um encontro erótico, a que o rapaz não comparece. Desta forma, contra a própria vontade, Sofia mantém-se fiel ao marido.

F) Na galeria de personagens do romance figuram também com destaque o jornalista Camacho, autêntico parasita, ambicioso e vulgar, que explora Rubião sem piedade, inventando para o matuto um improvável projeto político e tornando-o sócio de seu jornal, Atalaia. Igualmente interessante como protagonista secundária é Dona Tonica, filha do Major Siqueira, solteirona desesperada para casar-se e que vê no professor mineiro a chance de arrumar um marido. Suas tentativas, contudo são totalmente frustradas, pois Rubião não esmorece em seu desesperado amor por Sofia.

G) O final do romance é tipicamente machadiano: Sofia e Palha inauguram com um grande baile seu palacete em Botafogo. São os vitoriosos, os que recebem a consideração social, um por sua capacidade empreendedora, a outra por sua beleza e por suas virtudes conjugais. Já Rubião em companhia do cachorro Quincas Borba foge do hospital e volta para Barbacena completamente insano. Em seu delírio de grandeza acredita ser Napoleão III, repetindo de maneira incessante a frase-síntese do Humanitismo, que aprendera do filósofo Quincas Borba: “Ao vencedor as batatas.” Antes de morrer, ele ainda coloca sobre sua cabeça uma coroa imaginária: “...ele pegou em nada, levantou em nada e cingiu nada, só ele via a insígnia imperial, pesada de ouro...”

No último e curto capítulo, o narrador zomba sobre o título do livro, dizendo que ele tanto pode referir-se ao filósofo quanto ao cão. Convoca o leitor para o riso ou para a lágrima em função das mortes de Rubião e de Quincas Borba. E arremata, afirmando a absoluta indiferença da natureza a respeito da tragicomédia humana:

O Cruzeiro, que a linda Sofia não quis fitar, como lhe pedia Rubião, está assaz alto para não discernir os risos e as lágrimas dos homens.



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