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Cecília Meireles- parte I
Vida: Nasceu na cidade do Rio de Janeiro e muito cedo ficou órfã de pai e mãe, sendo educada pela avó materna. Formou-se na Escola Normal, tornando-se professora. Em 1922, casou-se com o artista plástico português Fernando Dias com quem teve três filhas e do qual enviuvou em 1935. Casou-se novamente em 1940. Cecília Meireles teve intensa atividade profissional se levarmos em conta as limitações profissionais que as mulheres sofriam no país. Além de educadora e grande poeta, foi jornalista e tradutora. Criou a primeira biblioteca infantil no país, fez pesquisas folclóricas e lecionou Literatura e Cultura Brasileira na Universidade do Texas, USA. Faleceu no Rio de Janeiro, aos sessenta e três anos, após longa enfermidade.
Viagem (1939); Vaga música (1942); Mar absoluto (1945); Doze noturnos de Holanda (1952); O romanceiro da Inconfidência (1953); Metal rosicler (1960); Crônica trovada da cidade de São Sebastião (1964). Muito jovem ainda, Cecília Meireles participou da revista Festa, produzida por um grupo literário católico, conservador e antimodernista que no final da década de 1920 teve alguma repercussão na antiga capital federal. Desta vinculação, herdou, possivelmente, o gosto pela tradição lírica do passado, sobretudo a tradição simbolista, que aparece tanto em seu estilo quanto em sua temática. A poética de Cecília Meireles, no entanto, não é anacrônica. Apesar das influências passadistas, os seus versos situam-se além das escolas do século XIX, não se enquadrando em qualquer conceito muito rígido. São versos delicados, intimistas, subjetivos. O crítico Otto Maria Carpeaux delimitou assim esta obra tão pessoal: A poesia de Cecília Meireles embora pertencendo a nós o e ao nosso mundo, é uma poesia de perfeição intemporal.
No plano estilístico – ao contrário do coloquialismo dos poetas modernos – há em sua obra uma tendência à linguagem elevada, sempre carregada de musicalidade. A música, algumas vezes, parece ser mais importante que o próprio sentido dos versos. Também a exemplo dos simbolistas, as palavras para a autora mais sugerem do que descrevem. Daí a força das impressões sensoriais em seus poemas: imagens visuais e auditivas sucedem-se a todo momento: O rumor de suas penas era um rumor de fontes brancas em tardes morenas. Ressalte-se que certas palavras que aparecem continuamente em seus versos, tais como música, areia, espuma, lua e vento, acabam, por sua repetição obsessiva, adquirindo uma dimensão metafórica. Simbolizam o efêmero, aquilo que passa (em geral, os sentimentos do eu-lírico). Opõem-se, por exemplo, à palavra mar, que é a grande metáfora daquilo que permanece (em geral, o sofrimento).
Igualmente no plano dos assuntos, a poesia de Cecília Meireles revela ligações com várias estéticas tradicionais, especialmente o Simbolismo. Entre os seus motivos dominantes figuram: - O registro de estados de ânimo vagos e quase incorpóreos. Neles predomina uma difusa melancolia e uma noção de perda amorosa, abandono e solidão. - Uma aguda consciência da passagem do tempo, da brevidade enganosa de todas as coisas, sobremodo dos sentimentos. A atmosfera de dor existencial que emana dos poemas de Cecília Meireles é centrada na percepção de que tudo passa e de que o fluir do tempo dissolve as ilusões e os amores, o corpo e mesmo a memória. Um exemplo desta visão sofrida é Retrato: . Eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios, nem o lábio tão amargo. Eu não tinha estas mãos sem força, tão paradas e frias e mortas; eu não tinha este coração que nem se mostra. Eu não dei por conta esta mudança, tão simples, tão certa e fácil: Em que espelho ficou perdida a minha face? O crítico Flávio Loureiro Chaves anotou que a poesia de Cecília Meireles vive “engolfada na torrente do tempo”, em meio a uma grande angústia, imersa num “deserto opaco”, sem passado e sem futuro. “Não há passado / nem há futuro. / Tudo que abarco / se faz presente” – diz a poeta. Sua experiência é, portanto, uma experiência do vazio, já que ela não encontra possibilidade de comunicação com o mundo circundante. Nisto residiria o vínculo da autora com a modernidade estética, já que esta tem entre suas características ideológicas as sensações do absurdo e da falta de sentido da vida contemporânea. Diante da “navegação sem estrelas”, que é a trajetória humana, resta à Cecília apenas o canto, isto é, a celebração do ato de criação poética, único enfrentamento da artista contra um universo despossuído de significado. Observe-se o poema Aceitação: É mais fácil pousar o ouvido nas nuvens e sentir passar as estrelas do que prendê-lo à terra e alcançar o rumor dos teus passos. É mais fácil, também, debruçar os olhos no oceano e assistir, lá no fundo, ao nascimento mudo das formas, que desejar que apareças, criando com teu simples gesto o sinal de uma eterna esperança. Não me interessam mais nem as estrelas, nem as formas do mar, nem tu. Desenrolei de dentro do tempo a minha canção: não tenho inveja às cigarras: também vou morrer de cantar. Outro exemplo encontra-se em Motivo: Eu canto porque o instante existe e a minha vida esta completa. Não sou alegre nem sou triste: sou poeta. Irmão das coisas fugidias, não sinto gozo nem tormento. Atravesso noites e dias no vento. Se desmorono ou se edifico, se permaneço ou me desfaço, não sei, não sei. Não sei se fico ou passo. Sei que canto. E a canção é tudo. Tem sangue eterno a asa ritmada. E um dia sei que estarei mudo: - mais nada.
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