Literatura Brasileira
  Lit. Conquistadores
  Barroco
  Arcadismo
  Romantismo
  Real/Naturalismo
  Parnasianismo
  Simbolismo
  Pré-Modernismo
  Modernismo
  Poesia Moderna
  Romance de 30
  Lit. Contemporânea
  Aula Virtual
  Livro do Mês
  Tema do Mês
  Textos Comentados
  Resumão




  Poesia Moderna


Analise da poesia de Carlos Drummond de Andrade

As características da poesia de Drummond

No poema Consolo na praia algumas das principais características da poesia de reflexão existencial de Carlos Drummond de Andrade são evidenciadas, Neste poema aparece também o ceticismo de um autor que foge das soluções fáceis e busca o enfrentamento com o sem-sentido da existência.

CONSOLO NA PRAIA

Vamos, não chores...
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.
Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?
A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.

ANÁLISE

À primeira leitura, verificamos que o poema se compõe de vinte e quatro versos, divididos em seis estrofes de quatro versos cada uma, indicando já uma espécie de paralelismo na elaboração do texto. Mais tarde veremos que este paralelismo reforça os aspectos semânticos da obra.

Se escandirmos os versos, notaremos – exceção feita à primeira estrofe – uma situação constante e peculiar: os três primeiros versos de cada estrofe são mais longos que o último, criando assim uma oposição métrica similar a uma oposição de significado.

Quanto à acentuação, o único ponto constante é um deslocamento: acentos na segunda, terceira e quarta sílabas nos três versos iniciais de cada estrofe são deslocados para a primeira sílaba nos últimos versos, reafirmando assim a oposição interna dentro de cada estrofe.
Quanto à dimensão semântica, o poema começa com um verso que só será complementado na última estrofe:

Vamos, não chores...

Qual a razão do choro ou do não-choro? A identificação entre a forma imperativa e indicativa transfere-se para o significado. Trata-se de uma ordem, de um conselho, de um pedido? Finda a exploração do texto, veremos a extraordinária importância deste primeiro verso que funcionará como um índice do despojamento mítico-sentimental operado no poema.

Os versos seguintes remetem para os motivos do pranto (lamento):

A infância está perdida.
A mocidade está perdida.

Nota-se de imediato a supressão dos nexos que estabeleceriam uma relação visível entre os versos: desaparecem conjunções e preposições, num processo comum a toda poesia contemporânea, que é uma poesia elíptica , fragmentária.

Nota-se também a idéia da perda – um dos pólos básicos do poema – delimitada em dois estágios cronológicos da travessia humana: a infância e a juventude. Duas idades tornadas míticas na tradição literária ocidental, principalmente a partir do Romantismo, na medida em que simbolizam um tempo idílico, de inocência ou de fantasia, tempo de um mundo organizado e límpido. Contudo, estas implicações não são dadas explicitamente, elas fazem parte das experiências do leitor, ou seja, elas iniciam no texto e se prolongam na dimensão contextual. Galvano Della Volpe chamou, com propriedade, este processo de “polissemia lítero-contextual”.

O verso seguinte, através do papel opositivo dado pela adversativa mas, cria um campo ideológico adverso ao da perda, instaurando um debate que se radicalizará no texto até que a síntese seja alcançada:

Mas a vida não se perdeu.
Vida, em estado de dicionário, estaria ligada à subsistência orgânica. No poema, além do sentido denotativo, traz consigo a idéia de resistência, sobrevivência ao naufrágio de certas ilusões, possibilidade existencial.

Tomemos a segunda estrofe:

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

O paralelismo é evidente: são quatro versos simétricos, reforçados pela reiteração do verbo passar no pretérito perfeito, em oposição ao verbo continuar do último verso, que funciona como um presente contínuo. Este paralelismo parece indicar uma dimensão de paródia à realidade que possibilitava uma escrita regular e cheia de harmonia. O próprio verbo passar não é “ingênuo”, à proporção que se relaciona com o elemento amor, o qual, dentro da tradição patriarcalista e familiar brasileira, deve ser eterno, isto é, não deve passar.

A repetição da passagem do amor confere ao mesmo um caráter de brevidade dolorida. A essa fluidez contrapõe-se à continuação do coração. Grande metáfora universal da camada afetiva, coração é um símbolo zero em nossa consciência. E o coração continua como contraponto. Nesta estrofe, como na anterior, e como nas demais, percebemos um claro movimento:

a) Afirmações sobre a perda;
b) Afirmação final sobre o que prossegue (a não-perda).

O modelo de composição é reiterado, estrofe após estrofe, até que a última inverta tanto o paralelismo das anteriores, como a sua polarização ideológica.

Observemos a terceira estrofe:

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.
O “melhor amigo” representa não apenas uma individualidade, mas o próprio sentido da amizade. Polissemia clara, presente também no segundo verso, quando “viagem” é muito mais do que uma locomoção de um ponto a outro; na dimensão da imagística ocidental, viagem vincula-se às idéias de mudança, transformação da existência, aventura, rompimento com o cotidiano.

O mesmo ocorre com os elementos indicados no terceiro verso: “casa, navio, terra”, que além da denotação, incorporam ao texto a idéia de propriedade (lembremos o valor da mesma numa sociedade de classes). Há uma seqüência valorativa: casa-propriedade. Já o navio – ponto móvel entre duas realidades fixas e enraizadas – pode representar a grandeza máxima do capital (quem afinal possui um navio, senão os milionários?) ou se relacionar com a idéia de mudança e suas implicações.

Esta terceira estrofe é caracterizada, ao inverso das demais, por formas verbais negativas: “não tentaste..., não possuis”. No caso de “não tentaste qualquer viagem”, poderíamos supor que a perda seria apenas relativa, pois uma viagem é uma ação simples. Mas a situação do verso no texto e sua relação com o verso anterior e posterior acabam por invalidar a dúvida (não seria a viagem a solução?), já que a não-acão (não viajar) é precedida por uma ação destrutiva (perder o amigo) e seguida por uma ação não explicitada (não possuir). De onde se infere que há uma concomitância de fracasso e corrosão tanto naquilo que foi feito como naquilo que não foi feito.

Resta o cão: “mas tens um cão.” Este cão ordinário, tornado antítese do conjunto amizade/aventura/propriedade, degrada e relativiza o próprio valor da perda. Estabelecer uma equivalência, ainda que por oposição, entre aquele conjunto e um cachorro é pôr em questão todos os fundamentos do mundo.

A quarta estrofe começa com uma sinestesia vulgar: “palavras duras” – logo “desviada” por uma expressão também coloquial – “em voz mansa”. No entanto, colocadas lado a lado criam uma antítese sugestiva que aponta, talvez, para a idéia de desvelamento que impera em todo o texto (atrás da voz mansa vem a palavra dura).

Nunca, nunca cicatrizam”– a repetição do advérbio enfatiza o efeito do ferimento causado pelas palavras. Ênfase aliás presente na alteração de tempo verbal: diante do acontecido (golpearam), algo que tem uma continuidade infinita (cicatrizam, em vez de cicatrizaram). Todavia, em continuidade da forma verbal “cicatrizam” e das palavras duras que ferem, coloca-se o “humour”. Negação dos versos anteriores, “humour” aqui significa distância, neutralidade, maneira de assimilar e superar os golpes da vida corrosiva. “Humour” como afirmação da liberdade.

Na estrofe cinco, encontramos uma reflexão sobre a relação entre o indivíduo, a sociedade e a História: “A injustiça não se resolve.” Ou seja, a injustiça é inerente a toda construção humana e isso tornaria inútil qualquer tentativa de mudança do universo social.

No entanto, como se vê nos versos 29 e 30 cabe ao homem o protesto, até porque é da sua condição a luta contra o destino inexorável. Verdade que o murmúrio é a voz da incerteza ou do medo, e o protesto – sendo tímido – pouco significa; contudo, o poeta sabe que virão outros. O seu pensamento não se fecha na confissão do fracasso. Há sempre uma abertura, um caráter prospectivo, infenso à utopia e à demagogia. Outros virão, mas isso necessariamente não alterará o real.

A ambivalência desta formulação (necessidade e inutilidade do protesto) traduz simbolicamente o conflito nuclear do poema, que, a partir do verso-desencadeador: “Vamos, não chores...”, poderia ser esquematizado da seguinte maneira:

Motivos do choro(Perda)
- o amor
- a amizade, a aventura e a propriedade
- a violência dos outros
– a injustiça e o fracasso pessoal em resolvê-la

Motivos para não horar (Não-perda)
– a infância, a mocidade
--- a continuação da vida
– a continuação do coração
- o cão
– o “humour”
– o futuro


Trava-se no interior do texto, estrofe após estrofe, um debate entre os valores destruídos e aqueles que resistiram a tal destruição. Há um pólo de corrosão e um pólo de resistência e determinação. O movimento entre tese e antítese é pendular, embora haja uma aparente vitória do discurso positivo: algo ultrapassa o lamento, algo resiste à desintegração. Contudo, a última estrofe define a posição do poeta frente à existência:

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.

Observe-se a ocorrência de uma quebra no modelo, tanto por sua irregularidade métrica, como pela supressão da adversativa mas, que era o índice do sistema opositivo imperante. Na estrofe, realiza-se uma adição (“Tudo somado...”), e esta adição tem por parcelas uma série de perdas (tese) e uma série de não-perdas (antítese), resultando daí uma nova realidade que já não é a tese e tampouco a antítese. A primeira fora negada pela segunda que, por sua vez, seria negada por uma nova e última postura perante o real. Logo:

a- Lamento pelos valores perdidos;
b- Ausência de lamento pelo surgimento de novos princípios;
c- Dissolução final (negação do lamento e negação da ausência de lamento).

Não se trata de escolher entre A e B, pois se não faz sentido lamentar os valores mortos, não faz sentido igualmente projetar outros valores. No final, tudo se dilui, dupla negação. Estrutura-se toda uma ordem de dissolvência (“Precipitar-te, de vez, nas águas”); um tornar-se liquido, acentuado pelo tom sibilante dos vocábulos; uma dissolução natural, areia e vento, elementos fluídos, nos quais se agita uma nudez com toda a sua simbologia: despojamento, essência, miséria, verdade; até que o imperativo do verso final (“Dorme, meu filho.”) – falso acalanto – reafirme a integração do ser com o nada, porque dormir é apagar a consciência, diluir-se nas sombras noturnas, extinguir-se.

Voltemos ao verso inicial do texto: “Vamos, não chores...”. É uma proposição de continuidade. Subjacente ao relacionamento perda x não-perda, este verso prossegue silenciosamente em toda enunciação do poema, até se conjugar com a frase final da última estrofe.

Vamos, não chores...
[...]
Dorme, meu filho.
O poema – apresentado como uma travessia em que são desveladas as ilusões vigentes (infância, amor, propriedade, etc.) e as ilusões do reconforto (vida, coração, humour, etc.) – retorna, ainda que substancialmente alterado, ao seu ponto de partida: “não chores...”. Este não-choro, porém, amplia-se: mais do que uma solução conformista (conforme o traçado do poema quase até o seu final), é uma forma de impotência perante a esmagadora força do nada. Tudo se corrói. Tudo se nadifica. Portanto, não há saídas para o ser humano.



    
 Compras
 Mais Educação


» Língua Portuguesa

» Relações
    Internacionais


» História do Brasil

» História por
    Voltaire Schilling


» Almanaque

» Virtual Books

» Atlas Universal



 
 » Conheça o Terra em outros países Resolução mínima de 800x600 © Copyright 2003,Terra Networks, S.A Proibida sua reprodução total ou parcial
  Anuncie  | Assine | Central de Assinante | Clube Terra | Fale com o Terra | Aviso Legal | Política de Privacidade