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 Livro do Mês - O continente


3. O SENTIDO DOS TRÊS LIVROS

A palavra "continente" significa no romance, em primeiro lugar, o território conquistado a ferro e fogo durante os séculos XVIII e XIX. A conquista dá-se simultaneamente por ação privada e por ação estatal. A primeira, iniciada nos Campos de Cima da Serra, e comandada por aventureiros sorocabanos e lagunenses, estende-se rumo ao oeste e ao sul da região, em busca de planícies férteis para o pastoreio. A segunda é mais litorânea, através da imigração açoriana e do estabelecimento de fortificações militares pelo Estado português. Ambas confluem e se unificam, no entanto, em um grande objetivo comum: a tomada da "terra de ninguém" e do gado alçado - vacum e eqüino - que vagava às centenas de milhares pelos campos da Serra e da Campanha.

Em segundo lugar, o "continente" significa, no romance, o tempo histórico da conquista e da consolidação do poder dos estancieiros na região, associado à solidificação do núcleo familiar, originando os primeiros clãs dominantes. Aqui, "continente" significa aglutinação, coesão, esforço familiar num sentido comum. Bem diferente de "arquipélago", que traz a idéia de desintegração, fim do clã, estilhaçamento, isolamento dos indivíduos.

Se O continente traça a origem da sociedade rio-grandense, sob o controle de uma elite audaciosa e guerreira (e também machista e sanguinária) - forjada em lutas fronteiriças e revoluções fratricidas - a partir de fins do século XVIII e durante todo o século XIX; O retrato - já centralizado nas primeiras décadas do século XX - registra o momento em que os velhos oligarcas são substituídos por caudilhos ilustrados, a exemplo do Dr. Rodrigo Cambará; por fim, O arquipélago mostra não apenas a derrocada da família dirigente e a decadência política dos estancieiros gaúchos, como também a emergência vitoriosa dos novos grupos sociais, especialmente o dos alemães e dos italianos.

4. O SENTIDO FILOSÓFICO DA TRILOGIA

Em seu conjunto, O tempo e o vento não é apenas o mais notável romance histórico brasileiro, tampouco uma criação artística centrada exclusivamente sobre a formação social rio-grandense e suas origens épicas e míticas, passando pela longa hegemonia política e econômica dos estancieiros até sua derrocada, na década de 1940. É mais do que isso, é uma sutil discussão sobre o significado da existência. Verifica-se isso no confronto estabelecido dentro da narrativa entre duas forças antagônicas:

Tempo: passagem, corrosão, destruição, morte
versus
Vento: repetição, continuidade, permanência

Pode-se dizer que o tempo está associado aos homens, na medida em que estes antecipam o trabalho daquele, contribuindo, através da violência sistemática, com a força destruidora a que o tempo tudo submete.

Já o vento relaciona-se simbolicamente com as mulheres, porque estas representam a resistência humana contra as guerras e o instinto da morte. Para isso, Ana Terra, Bibiana Terra e Maria Valéria Terra valem-se da memória (sempre deflagrada em noites de vento). Atiçada pelas ventanias, a memória feminina restabelece lembranças dos que já partiram e, ao evocá-los, injeta neles um sopro de vida. Lembrar é, pois, resistir ao sem-sentido do tempo e protestar contra a morte.

Por isso, no final da trilogia, o escritor Floriano Cambará - sentindo-se mais próximo das recordações femininas que da arrogância guerreira dos homens - resolve salvar a memória que as mulheres conservaram de todas as experiências fundamentais da família Terra-Cambará. E registra, então, sob a forma de um romance, o mundo passado que o tempo, inexoravelmente, transformaria em pó, em nada. Para o escritor, só a arte responde à falta de significado da vida humana. Só a arte tem o poder de resistir à voragem do tempo.

As primeiras páginas do romance de Floriano Cambará terminam O tempo e o vento:

"Era uma noite fria de lua cheia. As estrelas cintilavam sobre a cidade de Santa Fé, que de tão quieta e deserta parecia um cemitério abandonado."

Fechando-se sobre si mesmo, o romance termina da mesma forma que, duas mil e duzentas páginas antes, havia iniciado: "Era uma noite fria..."

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