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O que observar em O alienista
a) Repare na implacável sátira de Machado de Assis ao cientificismo vigente nas duas últimas décadas do século XIX. A pretensão do Dr. Simão Bacamarte de classificar a mente humana e de estabelecer critérios rígidos sobre a sanidade mental das pessoas é ridicularizada impiedosamente. A Ciência confunde-se com empulhação e com a possível demência do próprio alienista. Nada fica em pé, nenhuma certeza, nenhuma lei universal. Qualquer conceito mais abrangente da loucura humana é relativo e instável.
b) Há uma sátira igualmente corrosiva contra a arbitrariedade dos que detêm alguma forma de poder absoluto. Ao se tornar o senhor dos critérios da razão e da loucura, o médico vira também um ditador científico. Baseado na hipotética verdade de suas teorias, ele decide quem vai e quem não vai para a Casa Verde. Nos momentos finais do relato, fica humoristicamente claro o absurdo desse totalitarismo científico: o Dr. Bacamarte reinverte todo o seu delírio classificatório, soltando os "loucos" e prendendo os sãos.
c) Machado de Assis também atira farpas nos que lutam pelo poder político, seja contra os que já o possuem (os vereadores de Itaguaí), seja contra os que pretendem conquistá-lo (o barbeiro Porfírio, especialmente). Ainda que lancem mão de uma retórica justificadora para seu desejo de poder, o que realmente os move é o interesse pessoal.
d) O pessimismo machadiano é palpável no texto quando o Dr. Bacamarte encerra na Casa Verde a última "safra" de loucos. Estes são todos os que apresentam um comportamento digno, generoso, nobre. Constituem obviamente uma minoria. Quer dizer, a sociedade é composta de maneira majoritária por corruptos. Além disso, os cidadãos honrados degradam-se com enorme facilidade e isso, para o alienista, significa que estão curados e aptos a viver normalmente em Itaguaí.
e) As excentricidades cientificistas do Dr. Simão Bacamarte e as reações ambíguas dos moradores da vila fazem com que o leitor ria o tempo inteiro da história. Contudo, quando esta se fecha, um sentimento de desolação parece percorrê-la, transformando o riso em desconforto e reflexão crítica.
f) Além de Simão Bacamarte, há uma galeria de personagens interessantes no relato, todos desenhados em traços rápidos e caricaturais:
D. Evarista - esposa de Bacamarte. Senhora de 25 anos, viúva, "não bonita nem simpática." Reunia, segundo o marido, "condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista." Por ser levemente estúpida, não entende nada do que está acontecendo.
Crispim Soares - o boticário cuja amizade do alienista o desvanece e o enche de prestígio. Admira o cientista e o bajula. Todavia, diante da vitória dos revoltosos, resolve aderir à nova ordem estabelecida, bem ao estilo da maioria dos personagens machadianos. Logo depois que a situação se normaliza e sem nenhuma mágoa, o Dr. Bacamarte o envia para a Casa Verde, rotulando-o como louco por ter se aterrorizado frente aos rebeldes.
Padre Lopes - representa claramente a Igreja, exercendo um papel moderador nos acontecimentos e, ao mesmo tempo, sempre procurando ficar bem com o poder constituído.
Porfírio - o barbeiro simboliza o oportunismo, a ânsia de poder que move os seres humanos e a colocação do interesse individual acima do interesse público, o que invariavelmente caracteriza os políticos na obra de Machado de Assis.
g) O relato O alienista é narrado em terceira pessoa, num tom aparentemente realista. Ressalte-se, contudo, que a história contada é inverossímil, se cotejada com a realidade concreta de nossa vida. Seria impossível, por exemplo, que um médico despachasse para o hospício quatro quintos dos habitantes de uma vila. Trata-se, pois, de um texto alegórico, em que os eventos são o pretexto para uma corrosiva fábula sobre a impossibilidade da ciência classificar rigidamente a mente humana e sobre o absurdo do poder absoluto.
h) Ao localizar os acontecimentos na pequena vila de Itaguaí (e não no Rio de Janeiro, cenário da maioria de seus textos) Machado acentua - de forma ainda mais irônica - o contraste entre a perturbada sofisticação científica do Dr. Bacamarte e a inocência quase que tola dos habitantes do lugarejo.
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