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Lavoura arcaica - parte II


A família

Talvez dos aspectos abordados, este seja o mais sujeito a controvérsias, muito embora nos pareça o de maior permanência e importância no sentido ontológico da obra. Antes de mais nada, acreditamos de fundamental relevância traçar um paralelo entre Lavoura arcaica e a peça de Nelson Rodrigues, Álbum de família. Nesta última, vinculada ao ciclo de peças míticas do dramaturgo pernambucano, uma família nuclear concentra no seu interior toda espécie de ódios, crimes e paixões. Esclarecedora é fala de uma das personagens: “Mãe, às vezes eu sinto como se o mundo estivesse vazio, e ninguém mais existisse, a não ser nós, quer dizer você, papai, eu e meus irmãos. Como se a nossa família fosse a única e primeira. Então, o amor e o ódio teriam de nascer entre nós”.

Semelhante drama, ou desespero acomete André, o protagonista de Lavoura arcaica. Observe-se o seguinte trecho: “se o pai no seu gesto austero, quis fazer da casa um templo, a mãe, transbordando no seu afeto, só conseguiu fazer dela uma casa de perdição”

Incapaz de controlar sua paixão pela irmã, Ana, a fuga parece a única saída viável para manter-lhe a razão e a lucidez. Ela, por sua vez, com seu bailado de cigana com os pés descalços na terra, também parece corresponder ao sentimento. Para acelerar a entropia e o caos que acabará por destruir essa estrutura que se fecha sobre si mesma, há a figura austera e poderosa do pai, de uma virilidade quase indecente, há ainda o amor mais que materno da mãe por seu filho predileto e, impossível de ser relevado, a idolatria do caçula por André, que acaba resultando em uma cena de incesto narrada de modo magistral, quase silencioso. O efeito é perturbador.

O crítico teatral, Sábato Magaldi, analisando a peça Álbum de família enxerga nessa estrutura nuclear, sujeita aos desejos sem freios de seus membros, o grito de um moralista que associa diretamente a liberdade plena ao impulso de morte. “Concretizasse o homem suas fantasias inconscientes, a morte seria a inevitabilidade imediata. A História e a Civilização traem inapelavelmente a inteireza dos impulsos autênticos, disfarçados, transferidos ou sublimados em outros valores”.

Estaríamos então no caso de Lavoura arcaica diante de um esforço moralista de um autor que parece afirmar que já não há esfera de sobrevivência para o indivíduo? A família se extingue com o golpe furioso do pai que ceifa a vida da filha e depois desaparece vitimado por um mal misterioso. A cidade e o mundo lá fora, em contrapartida, parecem não oferecer os elementos para suportar a existência de um homem de modo integral. Não seria assim esta obra um grito desesperado em busca de alguma instituição ou comunidade que venha suplantar o vazio?

No seu sentido dramático, Lavoura arcaica filia-se à grande tradição que deu origem a obras como Agamenon, Édipo-rei e Hamlet. Ao mergulhar nas profundezas do inconsciente, nos vãos escuros da civilização e da psiquê humana, Nassar consegue, pelo menos tematicamente atingir a universalidade partindo de um plano rural e particular. Tem-se, ao ler Lavoura Arcaica, a nítida impressão de que o tempo e o espaço da narrativa poderiam ser quaisquer outros.

A verdade é que passado quase trinta anos de sua publicação, Lavoura arcaica, no que diz respeito à natureza da espécie não envelheceu. Enquanto a estrutura familiar for minimamente mantida, os dilemas, sofrimentos e crimes das páginas do escritor paulista seguirão válidas e universais. O arcaísmo presente no título, contundente nas falas e na vida desses personagens mediterrâneos, ou seja, temperamentais, será sempre presente, alimentando e mantendo um dos maiores paradoxos de nossa literatura.


Artigo produzido com a colaboração de Pedro Gonzaga

Bibliografia

Nassar, Raduan, Lavoura Arcaica, Companhia das Letras, São Paulo.
Magaldi, Sábato, Teatro Completo de Nelson Rodrigues, vol.2, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1981
Dacanal, J. H., A desagregação da narrativa real-naturalista: crise cultural e ficção nos anos 70/80 in: Ensaios escolhidos, Editora Leitura XXI, Porto Alegre, 2004.
Gonzaga, Sergius, Curso de Literatura Brasileira, Editora Leitura XXI, Porto Alegre, 2004
Auerbach, Erich, Mimesis, Perspectiva.
Castelo, José, Inventário das Sombras, Editora Record, Rio de Janeiro, 1999.
Fischer, Luis Augusto, Lavoura arcaica foi ontem in: Revista Organon, Instituto de letras, nº19



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