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A Besta Humana - parte I

ANÁLISE DA OBRA

Com seus rugidos metálicos, seu retinir de sinetas e suas luzes feéricas, as locomotivas, envoltas em uma tempestade de fumo e faísca, vão e voltam pela ferrovia que liga Le Havre a Paris, carregando vagões tomados por uma multidão sem rosto. É a face esplendorosa do mundo moderno, da velocidade com que os homens podem se deslocar e mudar seu destino, metáfora do futuro da França e do Ocidente. Sobre esta realidade mecânica – glória da II Revolução Industrial – debruça-se Émile Zola, o romancista que estabelecera o primado da observação como fundamento do trabalho ficcional, e escreve um relato de impressionante morbidez, A besta humana (1890), verdadeiro clássico da narrativa ocidental.

Neste romance, contudo, Zola não elabora um painel da vida social dos ferroviários, a exemplo do que fizera genialmente com a existência dos mineiros em Germinal (1885). Prefere mostrar de um lado – como uma espécie de moldura dos acontecimentos –, a força resfolegante das máquinas, máquinas essas aparentemente triunfais e indiferentes aos dramas humanos que se desenrolam nos vagões, nas próprias locomotivas e nos arredores da estrada de ferro. De outro lado – como contraponto à marcha para o futuro expressa pelos trens – Zola constrói o núcleo central da narrativa em torno das ações brutais de um conjunto de seres arrastados por taras hereditárias, instintos sombrios e por uma irrefreável compulsão criminosa. O triunfo da civilização urbana e as novas conquistas tecnológicas, entre as quais o transporte ferroviário, não haviam mudado, para o escritor, a natureza íntima do indivíduo, que continuava cruel e corrupta.

Romance da modernidade, A besta humana é também um típico folhetim naturalista, com enredo trepidante, teorias biológicas e sociológicas embutidas nas ações dos personagens e um espetacular conjunto de assassinatos que chocam e fascinam o leitor. Em uma antiga biografia de Zola, Matthew Josephson acredita que Jacques, um dos personagens principais da obra, que associa seu instinto sexual a uma terrível vontade de matar as mulheres com as quais se relaciona, seja uma versão francesa de Jack, o estripador. Esses crimes eletrizavam a Europa de então e Zola tratou de enquadrá-los ficcionalmente dentro de sua óptica naturalista, isto é, o homem como produto do meio social e da herança biológica, despojado de livre arbítrio e invariavelmente condenado ao vício e à perversão.

Não pense, contudo, o leitor que o novelista fique a teorizar abstratamente no processo narrativo. Poucas obras de Zola apresentam tamanha multiplicidade de ações e intriga tão cheia de surpresas e reviravoltas. A besta humana pode ser encarada como uma narrativa policial, mas pode ser também vista como um mergulho no universo das pulsões subterrâneas e das paixões mais avassaladoras, aquelas que levam os seres à violência e ao crime. Por isso, o amor mescla-se sempre ao interesse e à morte, e o sangue jorra aos borbotões no romance. Já no primeiro capítulo, quando o sub-chefe da estação de Havre, Roubaud, descobre que sua mulher, Séverine, fora amante de um dos diretores da companhia, Grandmorin, e a espanca e a força a marcar uma entrevista com o antigo “protetor”, estabelece-se uma cena de extraordinário vigor dramático.

Há inúmeros momentos no texto que refletem a capacidade de Zola em lidar com personagens submetidos – no dizer do próprio romancista – “...ao trabalho surdo das paixões, às pressões do instinto, às alterações cerebrais, produtos de uma crise nervosa.” Os esforços de Jacques para fugir de seus impulsos assassinos, a paixão de Séverine pelo amante criminoso, o descarrilamento do trem provocado por Flore, o cinismo e o interesse político dos juízes Denizet e Camy-Lamotte, típicos representantes da degradação do Judiciário no II Império, constituem passagens inesquecíveis, todas elas envolvidas, de alguma forma, pela fumaça e pelos ruídos metálicos

O Naturalismo surge como programa e atividade no romance Teresa Raquin (1868), de Zola, que apresenta um prólogo muito ilustrativo das tendências cientificistas do movimento:

Em Teresa Raquin quis estudar temperamentos e não caracteres. Escolhi personagens dominados ao máximo por seus nervos e por seu sangue, desprovidos de livre arbítrio, arrastados a cada ato de sua vida pela fatalidade da carne. Teresa e Lourenço são brutos humanos, nada mais. Tratei de seguir, passo a passo, em tais selvagens, o trabalho surdo das paixões,
Que se leia o romance com cuidado e se verá que cada capítulo é um estudo de um curioso caso fisiológico.

O homem como produto do meio é a tese central do movimento. O indivíduo não passa de uma projeção do seu cenário, com o qual se confunde e do qual não consegue escapar. Daí a insistência na descrição do meio, que sempre traga e tritura o homem.

DETERMINISMO DOS INSTINTOS

Cada indivíduo traz dentro de si instintos hereditários, que explodem repentinamente em manifestações de luxúria, tara, indignidade e crimes. Por mais que cada um desenvolva sua racionalidade, seu domínio sobre si próprio, ajustando-se à convivência social, nunca será suficientemente forte para domar as forças subterrâneas que vêm à tona, arrastando-o a um universo de anormalidades e vícios.



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