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A Besta Humana - parte II
De acordo com teses biológicas então dominantes, o homem receberia o temperamento por um tipo de herança transmitida pelo sangue. Mais do que uma propensão ou tendência - como alguns o entendem hoje - o temperamento funciona, na ciência e literatura naturalista, como suporte decisivo da construção da personalidade e mola propulsora do comportamento individual, de tal forma que o homem não passa de um joguete de incontroláveis forças atávicas. Vejamos um curto parágrafo de Germinal: Isso revolvia nele todo o desconhecimento apavorante: o mal hereditário, a longa hereditariedade da embriaguez, não bebendo sequer uma gota de álcool sem cair no furor homicida. Terminaria como assassino?
Para comprovar as suas teses - primordialmente a da hereditariedade do temperamento - os escritores valem-se muitas vezes de personagens mórbidos, anormais, doentes. É uma legião de bêbados, assassinos, incestuosos, devassos, prostitutas, lésbicas, etc. “Acúmulo de horrores cientificamente comprovados”, afirmou com certa razão um crítico europeu. No prefácio de A taverna - onde pela primeira vez o proletariado emerge como protagonista central na literatura - Zola registra esta patologia, ainda que lhe atribuindo causas sociais: Quis descrever a trajetória fatalmente em decadência de uma família operária, dentro do marco corrompido de nossos arrabaldes. A embriaguez e a ociosidade conduzem ao afrouxamento dos laços familiares, às impurezas da promiscuidade, o esquecimento progressivo dos sentimentos honestos, que acabam tendo como conclusão lógica a vergonha e a morte. Esta é uma obra verídica. O primeiro estudo sobre o povo que não mente e que possui o cheiro deste povo. Meus personagens não são maus, apenas ignorantes e influídos pelo ambiente de trabalho rude e miséria em que vivem.
Todo o autor naturalista elabora uma crítica direta a aspectos da realidade social. No entanto, mesmo sendo um crítico implacável, ele não acredita em saídas ou esperança para a sociedade, que é vista como um organismo biológico, sujeito às leis vitais de nascimento, apogeu, decrepitude e morte. Organismo frente ao qual pouco ou nada pode a ação dos indivíduos. Por esse motivo, a crítica acaba normalmente em pessimismo fatalista. E já que não tem condições de controlar o universo social, o ser humano converte-se em mero fantoche de um destino traçado pelo meio e pela herança.
A preocupação com a verossimilhança levou os naturalistas a um método de narrar baseado na descrição. Uma descrição minuciosa, detalhada ao limite do inventário, precisa e, às vezes, inútil porque ela só funciona num romance como elemento auxiliar da narração. Porém, devemos ter em conta que, em várias obras, a descrição lenta e exaustiva de um cenário, de objetos, etc., exerce papel significativo.
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